Ishara S. Kodikara/AFP
Ishara S. Kodikara/AFP

Crocodilos tiveram fase vegetariana

Cientistas chegaram à conclusão após estudar dentes pouco comuns de diversas espécies; próximo passo é descobrir porque dieta se modifico

Cara Giaimo, New York Times

29 de junho de 2019 | 20h50

Imagine-se como um pequeno mamífero na era mesozoica. Um dia, você se depara com um réptil escamado e de olho grande, do tamanho de um gato, não muito diferente de um crocodilo do século 21. Olhando para você, ele escancara a boca e mostra... pequenos dentes. Em seguida, esquece de você e continua a mastigar folhas.

Tal tipo de encontro pode ter sido comum na pré-história. Um estudo recém-publicado no periódico Current Biology sugere que o vegetarianismo ocorreu em pelo menos três períodos entre os antigos crocodilos. Os cientistas chegaram à conclusão após estudar os dentes inusuais de várias espécies, incluindo o Simosuchus acima descrito.

Hoje, crocodilos e seus parentes, como os jacarés, são encontrados no Hemisfério Sul e têm muito em comum: dieta carnívora, pendor para a natação e os dentes. Se um deles sorrir para uma foto de família, o que se destaca logo são os dentes, que lembram cones rombudos. 

No mesozoico era diferente. Cerca de 250 mil anos atrás, havia inúmeras espécies crodiliformes na terra, nos rios e nos mares. Algumas comiam apenas plantas, outras só animais, outras as duas coisas. Para terem variedade de dietas, muitas tinham “dentes de características únicas”, segundo Keegan Melstrom, da Universidade de Utah, principal autor do novo estudo.

O dente revela muito do dono. Carnívoros tendem a ter dentes agudos e simples, usados para morder e retaliar presas. Herbívoros precisam triturar o alimento na boca antes de engolir, por isso seus dentes são mais complexos, com saliências e reentrâncias. Onívoros, como nós, ficam num meio-termo. 

Melstrom estuda dentes de crocodilos desde 2011, quando viu uma apresentação sobre um crocodiliforme extinto chamado Pakasuchus. Ele tinha caninos na frente e molares na parte de trás da boca. Ao fechar a mandíbula, os dentes se encaixavam perfeitamente – mais como os de um mamífero do que como os de um crocodilo moderno.

Para o estudo, Melstrom e o coautor, Randall Irmis, analisaram 146 dentes de 16 espécies extintas de crocodiliformes, usando um método que permite, após o escaneamento do objeto, a produção de uma tabela numérica que indica a complexidade da forma desse objeto. 

O método se mostrou útil para o estudo de crocodilos pré-históricos, cujos dentes com frequência “não têm análogos modernos”, segundo Melstrom. O Chimaerasuchus, por exemplo, tinha duas fileiras de dentes de sete cúspides. Já o Iharkutosuchus tinha grandes dentes quadrados para cortar plantas. Metade das antigas espécies parece ter se alimentado de plantas, “uma genuína surpresa”, afirmou.

No futuro, ele espera descobrir por que os crocodilos vegetarianos não foram além do cretáceo. A resposta pode estar no esfriamento da Terra, em mudanças na vegetação ou na competição com mamíferos./ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.