Marcos Arcoverde/AE
Marcos Arcoverde/AE

'Cultura do brasileiro é amar e valorizar a vida', diz arcebispo do RJ

Em entrevista ao Estado, d. Orani Tempesta lamenta a aprovação do aborto em casos de anencefalia e diz que a Jornada Mundial da Juventude, que acontece no ano que vem, deve deixar legado social

Luciana Nunes Leal,

17 Abril 2012 | 17h23

RIO - Às vésperas de completar três anos no comando da Arquidiocese do Rio de Janeiro, d. Orani João Tempesta, de 61 anos, está envolvido, entre muitas tarefas, na organização da Jornada Mundial da Juventude, que acontece em julho de 2013 na cidade e terá a presença do papa Bento XVI. No mesmo espírito da Copa e da Olimpíada, d. Orani diz que o encontro católico deve deixar um legado para a cidade e sonha com a criação de um hospital dedicado ao tratamento de viciados em crack.

 

Em entrevista ao Estado, d. Orani fala dos rumos do catolicismo, defende o diálogo entre culturas e lamenta a aprovação, pelo Supremo Tribunal Federal, do aborto de bebês anencéfalos. Para ele, é "um retrocesso" que vai além de questões religiosas. "Mesmo para quem não tem fé a vida é um dom", argumenta.

D. Orani compara o Supremo a "uma mina" para os políticos, que se livram do peso de se posicionar sobre temas delicados. "Quando o Legislativo acha que não deve decidir, o Supremo acaba decidindo. Isso é sério, porque o Legislativo representa o povo. O Supremo não", afirma.

Qual é o significado da vinda do papa Bento XVI ao Brasil, em um momento que a proporção de católicos no País é a mais baixa da história?

A vinda do papa está dentro de um contexto maior, que é a Jornada Mundial da Juventude. Ele vem para esse encontro, o maior evento da juventude mundo a fora. Temos a preocupação de termos aqui algumas questões sociais como consequência, como a questão do crack.

Haverá uma ação específica?

Além da conscientização, estamos tentando criar um hospital de referência no tratamento. Podemos fazer uma parceria, recuperar um hospital antigo fora de uso. A ideia é deixar um legado social. Estamos propondo que, se conseguirmos um hospital de referência, o papa inaugure o hospital e fale sobre isso. Tenho conversado com autoridades do Rio e com representantes do papa.

O senhor é a favor da internação compulsória de crianças e adolescentes?

O trabalho que a Igreja faz é muito mais de convencimento. Abordagem de menores, conversa, estar junto, acolher.

A visita do papa pode atrair os jovens para a religião católica?

Acho que a jornada é contribuição para o mundo, para o futuro. Colaborar para que os jovens pensem em um mundo de fraternidade, em que convivem nações diferentes, viver sem precisar de drogas. Esta é a preocupação, não o número de católicos. Mesmo porque, na questão numérica, o que vemos acontecer é o contrário. As paróquias estão hoje muito mais cheias, têm gente consciente. Só ano passado eu abri cinco novas paróquias e inaugurei várias igrejas, grandes e pequenas. A estatística numérica ou porcentual não reflete a participação que temos na Igreja.

A Igreja deve fazer algumas concessões a fim de receber mais fiéis?

Seria uma falsidade adaptar uma coisa tão importante para atrair a pessoa para o que não é o que Cristo ensinou. A Igreja tem toda humanidade para considerar as fragilidades, mas se preocupa em ser fiel ao Evangelho.

Como o senhor recebeu a notícia da aprovação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da aprovação do aborto dos bebês anencéfalos, na última quinta-feira?

Eu lamentei esse retrocesso do País. Porque a vida é um bem que não depende de religião nenhuma. O ser humano tem uma dignidade, não importa se ele cortou um braço, se tem uma perna a menos. É lamentável porque o Supremo acabou legislando, quando não é papel dele. Quando o Legislativo acha que não deve decidir, o Supremo acaba decidindo. Isso é sério, porque o Legislativo representa o povo. O Supremo não. O Supremo é uma indicação do presidente para julgar causas relativas à Constituição. É um momento de nós todos pensarmos que tipo de país estamos querendo fazer, que tipo de sociedade estamos encaminhando. Quando não se respeita o direito fundamental que é o direito à vida, o grande problema é que todos os outros direitos caiam por terra também. A criança não é sem cérebro. Ela tem parte do cérebro, sim. Não cabe a nós decidir sofre a morte de um inocente. Não falo nem da questão religiosa, mas da questão humana. Para a Igreja, não muda nada. Continuamos preocupados em fazer o bem, em anunciar a vida como um dom, como um bem. Mesmo para quem não tem fé a vida é um dom.

Em 2010, o aborto foi um tema recorrente na campanha eleitoral. É importante cobrar posição dos candidatos também nas eleições municipais deste ano?

O brasileiro não é favorável ao aborto. Mesmo com todas as campanhas dos meios de comunicação, das novelas, tentando mudar essa cabeça, a cultura do brasileiro em geral é amar e valorizar a vida. Como os candidatos já perceberam isso, nenhum deles defende matar a vida, matar a criança. Os candidatos não vão defender essa questão. Eles descobriram uma mina, através do Supremo. Ninguém vota no Supremo. Eles (ministros do STF) decidem, fazem as leis conforme acham e não precisa votar neles, são nomeados.

O senhor completa três anos à frente da Arquidiocese do Rio no próximo dia 10. Desde que assumiu, visitou e abençoou um bloco carnavalesco duas vezes. Em Belém, abriu as portas de uma igreja para sagração de religiosos anglicanos. Como reage às críticas ao seu "excesso de liberalismo"?

Tem os que não gostam (risos). Mas não posso perder aquilo que sou, um arcebispo católico. Creio em Jesus Cristo, tenho uma missão, amo o que faço e quero viver dessa forma. De outro lado aprendi a dialogar sem discriminar as pessoas. Temos que dialogar com as culturas também. Não podemos ter medo de falar com as pessoas, cada uma está procurando o bem a seu modo. O Rio de Janeiro tem a cultura do samba. Tem exageros de cá e de lá, mas a gente tem que dialogar, construir uma fraternidade, algo melhor para a cidade. O Brasil deve dar esse testemunho de que, na diversidade que nós temos, podemos não concordar, mas não vamos ser inimigos. As críticas nos ajudam a ver se não estamos exagerando. Acolho com carinho. Alguns têm direcionamentos um pouco xiitas, mas nos ajudam a repensar as atitudes.

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