Shahar and Sayers/Scientific Reports/The New York Times
Shahar and Sayers/Scientific Reports/The New York Times

Curvar-se muito no celular faz crescer calos no crânio?

Pesquisadores australianos dizem ter constatado crescimentos anormais, ou esporões ósseos, na parte de trás do crânio, medindo entre 0,7 milímetros a mais de 1 centímetro de comprimento

Denise Grady, The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2019 | 17h39

Você pode estar exatamente agora curvado ao celular, mas preocupado com as notícias de que jovens estão desenvolvendo calos no crânio por ficarem muito tempo debruçados sobre o telefone. 

É verdade que os celulares estão nos tornando mal-educados e desatentos, mas a medicina não endossa totalmente a ideia de que a tecnologia também esteja entornando nossos esqueletos. 

A área mais vulnerável seria a parte de trás do crânio, onde ele se encontra com o pescoço. Existe ali uma ligeira protuberância, fácil de se sentir, mas ela é normal. Agora, dois pesquisadores australianos dizem ter constatado crescimentos anormais, ou esporões ósseos, nessa região, medindo entre 0,7 milímetros a mais de 1 centímetro de comprimento. 

Artigos recentes da BBC e de The Washington Post citaram um estudo de 2018 publicado no jornal Scientifc Reports informando que esses crescimentos ósseos ocorrem geralmente em pessoas entre 18 e 30 anos. O estudo sugere que a causa são “posições extravagantes e continuadas associadas ao crescimento e ao uso prolongado de dispositivos tecnológicos manuais, como celulares e tablets”. Os autores são um quiroprata, David Shahar, e um professor de biomecânica, Mark G. L. Sayers, ambos da University of the Sunshine Coast, em Queensland, Austrália.

Especialistas fizeram diferentes interpretações, assinalando que o estudo é baseado no exame de radiografias antigas e não abrangeu um grupo de controle, e assim, não se pode comprovar a relação causa-efeito. Acrescente-se que os indivíduos estudados tinham problemas suficientes de dor no pescoço para consultarem um quiroprata e serem submetidos a raio X, não ficando claro se as conclusões se aplicam ao restante da população. 

Ao mesmo tempo, sabe-se bem que pessoas que passam muito tempo com o pescoço curvado para a frente podem vir a ter problemas de pescoço e espinha que causam endurecimento, dor local e dores de cabeça. Pessoas que passam o  dia curvadas sobre um laptop ou um celular referem-se a essas dores como “pescoço de viciado em tecnologia” ou “pescoço de digitador”. 

Passar longos períodos curvado para a frente pode, em teoria, levar à formação de esporões ósseos, disse Evan Johnson, diretor de Terapia Física do New York-Presbyterian Och Spine Hospital. Nessa posição, o ligamento que ajuda a manter a cabeça erguida pressiona o crânio e “o osso se adapta formando uma pequena protuberância”, disse Johnson. “Mas o fato de alguém ter essa pequena projeção óssea no crânio não significa nada”, acrescentou ele. 

Segundo ele, a conclusão mais preocupante do estudo, de acordo com os ângulos medidos nas radiografias, é que os pescoços de alguns dos examinados desenvolveram uma postura anormal. “Se a tecnologia estiver causando essa mudança de postura na população, poderemos ver mais jovens com artrite e tensão no pescoço e degeneração de disco”, disse Johnson. 

David Putrino, diretor de reabilitação inovativa do Mount Sinai Health, disse que a conexão entre pescoço curvado e esporões ósseos parece ser real. Ele disse também que os ossos ainda em crescimento dos adolescentes são mais propensos que os de adultos a mudarem de forma ou desenvolverem esporões em resposta a pressões maiores. “Mas não acho que chegamos ao ponto de poder atribuir isso ao uso de celulares”, acrescentou.

David Langer, chefe da neurocirurgia do Lenox Hill Hospital de Nova York, disse que para ele “isso não faz o menor sentido”. Ele explicou que problemas de disco são comuns em pessoas que passam muito tempo olhando para baixo com o pescoço curvado, entre elas, cirurgiões. 

“É mais provável correr degeneração de disco ou desalinhamento do pescoço que o crescimento de um esporão no crânio”, disse Langer. “Nunca vi nenhum, e trabalho com uma grande quantidade de radiografias. Detesto ser pessimista por antecipação, mas isso me parece um pouco forçado. Chifres no crânio? Menos, por favor.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ   

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