Da câmara escura ao celular

Imagine só: Uma câmera fotográfica, hoje, parece ser a coisa mais simples do mundo. Qualquer celular tem uma. Tem até câmera descartável, que você usa e joga fora na viagem, tipo um pacote de salgadinhos. Mas não foi sempre desse jeito. Assim como tantos outros "gadgets" do mundo digital, a fotografia é uma tecnologia fantástica que nos acostumamos a usar como se fosse uma torradeira.   Parei para pensar sobre isso algumas semanas atrás, quando voltava de uma excursão ao Pico da Bandeira e cruzei caminho com o seu Antonio, um simpático senhor de 51 anos que nunca havia visto uma máquina digital na vida.   Estávamos dentro de um ônibus, fazendo o trajeto da minúscula comunidade de Pedra Menina até o pequeno município de Espera Feliz, no Espírito Santo. Seu Antonio, que passou a vida trabalhando nas lavouras de café da região, observava curiosamente enquanto eu e meus amigos tirávamos fotos com nossos celulares e câmeras digitais, até que não resistiu e perguntou: "Você tira a foto e ela revela na hora, é?"   Ainda bem que ainda temos pessoas simples como o seu Antonio para nos lembrar que nada na vida é tão simples quanto parece.   Imagine só: um aparelho que cabe dentro do seu bolso e que permite que você registre uma imagem instantaneamente, em alta definição, com o clique de um único botão. Se os fotógrafos de dois séculos atrás vissem um negócio desses, ficariam perplexos. Só poderia ser um truque! Ou, quem sabe, algum tipo de feitiçaria.   Naquela época, quando a fotografia estava sendo inventada, as imagens precisavam ser feitas, literalmente, em câmaras escuras (ou camera obscura, que é de onde vem o nome "câmera"), permitindo que a luz penetrasse por um buraquinho na parede até atingir algum tipo de chapa ou película fotossensível.   Com o tempo, as dimensões dessa câmara escura foram reduzidas do tamanho de uma sala ao tamanho de uma caixa de sapatos, até algo que coubesse dentro do seu bolso.   Os leitores mais jovens talvez nem saibam do que eu estou falando, mas até poucos anos atrás, antes da tecnologia digital, ainda havia um negócio chamado "filme", que precisava ficar trancado no escuro dentro da máquina para funcionar.   Se você abrisse a câmera sem querer, antes de rebobinar o filme, as fotos expostas eram arruinadas pela luz. Depois você ainda precisava levar o rolo de filme para uma loja de revelação e esperar alguns dias até ver se realmente tinha feito alguma foto que prestasse daquela viagem inesquecível. Era uma ansiedade danada.   Também me lembro de que quando comecei a trabalhar no Estadão, em 2000, os fotógrafos precisavam mandar os filmes para o jornal via motoboy, para dar tempo de revelar e escanear antes do fechamento da edição do dia. Era uma trabalheira danada e gastava filme pra diabo. Hoje, os caras enfiam o cartão digital dentro de um laptop e mandam as fotos via internet sem fio para o jornal de qualquer lugar do mundo, sem problemas, em questão de segundos. Incrível!   Arthur C. Clarke tinha razão quando disse que "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de mágica". Seu Antônio que o diga! Pense nisso a próxima vez que tirar uma foto com o seu celular.

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