Allyson Muotri
Allyson Muotri

Defeito genético derruba preconceitos e leva a amor pelo próximo

Pesquisa sobre Síndrome de Williams, doença rara que deixa as pessoas supersociáveis, aponta que a deleção de um gene causa essa característica

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

10 Agosto 2016 | 14h29
Atualizado 10 Agosto 2016 | 22h18

SÃO PAULO - Imagine se houvesse uma pílula que, fornecida a líderes mundiais em uma reunião das Nações Unidas, tornasse-os extremamente sociais, sem preconceitos, sem racismo, em um arroubo de amor pelo próximo. Que conflitos pudessem ser resolvidos com uma intervenção medicamentosa que dirimisse desconfianças e facilitasse a interação. Em um sonho ainda muito distante, esse seria o resultado de uma pesquisa que desvendou a ação de um gene que contribui para a intolerância.

A descoberta, liderada pelo neurocientista brasileiro Alysson Muotri, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego, foi possível a partir da análise de pacientes portadores de uma doença que os torna super sociáveis o tempo todo. É a chamada Síndrome de Williams, que, grosso modo, funciona de modo oposto ao autismo.

Rara (atinge 1 a cada 10 mil nascimentos), a doença ocorre quando cerca de 25 genes são deletados do cromossomo 7 durante o desenvolvimento neural dos bebês. As pessoas com essa condição têm uma feição bastante característica (nariz pontudo, queixo fino, olhos grandes, boca larga).

Estão sempre sorrindo, não têm inibição, conversam com todo mundo, mesmo os estranhos,  independentemente de cor, religião, beleza. Adoram música, são dóceis, ingênuos e carinhosos com quem está sofrendo. E tem uma linguagem bastante sofisticada. Mas apresentam também baixo rendimento intelectual e problemas cardíacos.

Muotri, que é especialista em autismo – doença caracterizada pela pouca sociabilidade e dificuldade de linguagem –, imaginou que investigando a Síndrome de Williams poderia encontrar alguma pista para explicar o desenvolvimento do cérebro social humano.

Evolução. Ao longo da evolução da nossa espécie, ao mesmo tempo em que foi interessante desenvolver um comportamento colaborativo e gregário para sobreviver, também deve ter sido vantajoso limitar essa capacidade social em uma época em que vivíamos em pequenos grupos. Na luta por fontes restritas de alimentos, era preciso ser meio desconfiado em relação a outros para proteger os interesses das suas próprias comunidades.

Para Muotri e companhia, um dos genes que falta aos pacientes com a Síndrome de Williams (o FZD9) pode ter sido o responsável por esse comportamento. “Com esse gene criamos o preconceito, o racismo, que em algum momento foram importantes na nossa interação com outros grupos, nos manteve seguros, mas que hoje, a meu ver, não é mais necessário.”

Mas a evolução é lenta e vai levar tempo para naturalmente eliminar essa característica. Tampouco é rápido mudar culturalmente um comportamento preconceituoso e racista. Daí a ideia de tentar induzir no corpo o que ocorre quando o FZD9 está em falta.

A pesquisa, publicada na edição desta quinta-feira da revista Nature, partiu da investigação genética de cinco pacientes com a Síndrome de Williams. Em quatro deles, havia a deleção típica dos 25 genes (inclusive de uma das duas cópias do FZD9) e eles apresentavam todas as características físicas e comportamentais da doença.

O quinto paciente era um pouco diferente – ele não era super social como os demais. A investigação notou que ele tinha mantido as duas cópias do FZD9, assim como ocorre com a maioria dos seres humanos. “Isso nos fez concluir que esse gene contribui para o preconceito ou a intolerância. A natureza fez o teste para a gente”, disse Muotri ao Estado.  Em outra formulação, definiu o pesquisador, pode se dizer que o "amor pelo próximo pode ser causado por um defeito genético".

Mais ou menos na mesma época em que ocorria essa pesquisa, um outro trabalho do mesmo grupo observou que alguns autistas apresentam uma duplicação em das cópias desse gene, totalizando três cópias, o que reforçou a conclusão de ele estar relacionado a um comportamento menos social.

Mini-cérebros. A etapa seguinte foi trabalhar com reprogramação celular para fazer com que células-tronco retiradas do dente dos pacientes voltassem a agir como células-tronco embrionárias (as chamadas iPS, ou células de pluripotência induzida) e, com elas, produzir mini-cérebros.

Isso permitiu aos pesquisadores observarem como se dá o desenvolvimento neural em pacientes com a Síndrome de Williams tradicional (com todos os 25 genes deletados), naquele que manteve as duas cópias do FZD9, e no grupo controle (pessoas “normais”, que têm as duas cópias). Depois eles também compararam com pacientes com autismo (que têm três cópias).

Na falta de uma cópia desse gene no primeiro grupo, os cientistas notaram que ocorre uma má formação no córtex, levando os neurônios a ficarem ultra conectados e realizarem um número muito maior de sinapses que nas pessoas com as duas cópias do gene. É isso que tornaria os pacientes com Williams super sociáveis. Já nos autistas, os neurônios ficam menos conectados e há menos sinapses.

Os pesquisadores observaram que o FZD9 atua em uma via metabólica durante o desenvolvimento neural responsável pelos circuitos sociais. Muotri defende que talvez seja possível desenvolver algum remédio que possa manipular essa via para tornar as pessoas mais sociáveis.

“É tudo uma questão de dose. Se ela é baixa, a criança é super social, se é alta, é autista. Existe uma modulação dessa via que é importante e que talvez possamos trabalhar no futuro”, afirma.

A dose é importante porque as crianças com Williams acabam sendo muito ingênuas, não têm filtro e pode ser enganadas ou mesmo feridas. Há relatos de famílias de meninas que acabaram engravidadas, lembra Muotri.

“Mas seria interessante usar isso em reuniões de líderes mundiais, por exemplo. Para que num dado momento eles se enchessem de empatia. Não é para desligar o tempo todo. Claro que é importante ficar alerta diante de um estranho, até para se proteger, mas seria interessante manipular em outros momentos.”

Mas, questiona a reportagem, isso não seria muito artificial? “Seria, mas podemos pensar que estamos dando uma força para a evolução. Pense no Dalai Lama. Ele medita para ter empatia. É a mesma coisa, porque ela não vem naturalmente, não é algo que se sustente por todas as horas do dia. É um exercício.”

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