Degradação ambiental agrava pobreza e acentua desigualdades

?A incapacidade do mundo, de reduzir os níveis de pobreza, está contribuindo para a instabilidade global, na forma de terrorismo, guerras e doenças contagiosas. E a degradação ambiental está exacerbando a pobreza, contribuindo ainda mais para tal instabilidade?. Assim Michael Renner, do Instituto Worldwatch, interpreta os principais indicadores e tendências do relatório ?Sinais Vitais 2003?, divulgado ontem, em Washington D.C., nos Estados Unidos. Este é o 12o relatório da série, iniciada em 1992 e produzida pela equipe do Worldwatch, com apoio do Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma).?É quase impossível assegurar paz duradoura e estabilidade quando existem desigualdades imensas e os sistemas naturais que nos sustentam permanecem sob ameaça?, complementa Klaus Toepfer, diretor do Pnuma. ?Pouco se pode avançar em termos de conservação do meio ambiente e dos recursos naturais, se bilhões de pessoas não têm esperança ou chance de se importar com isso".Segundo o documento, as doenças infecciosas ? muitas delas relacionadas à qualidade da água - atualmente matam duas vezes mais do que câncer. A falta de água limpa ou saneamento mata 1, 7 milhões de pessoas por ano, 90% das quais são crianças. Boa parte das guerras ou conflitos armados, dos últimos anos, envolve o controle de minorias econômicas ou étnicas sobre recursos naturais valiosos, sejam eles minérios, pedras preciosas, água ou madeira. Os gastos militares de 2001 são estimados em 839 bilhões ou 2,3 bilhões por dia. Os Estados Unidos respondem por 36% deste total mundial. Na Eritréia, Burundi e Paquistão, as despesas militares equivalem ou superam a soma das despesas com educação e saúde.Desastres naturais - causados ou agravados por desmatamentos, ocupação territorial desordenada e mudanças climáticas ? provocam o deslocamento de grandes contingentes populacionais, já chamados de refugiados ambientais. Inundações forçam a migração de habitantes de Bangladesh para a Índia, num movimento que já dura 10 anos, tendo deslocado, no período, cerca de 10 milhões de pessoas. E ainda existem outros 40 milhões de refugiados ambientais no mundo, somando-se apenas quem saiu do país de origem, sem considerar as migrações internas e os 12 milhões de refugiados políticos, oficialmente reconhecidos como tal.DesequilíbriosA tendência de desequilíbrio social e econômico, para os autores do relatório, tem uma estreita relação com a qualidade ambiental e o comportamento do mercado. As desigualdades sociais não tendem a distanciar apenas os países ricos dos pobres, mas também os habitantes ricos e pobres de cada país. Em 1960, o Produto Interno Bruto (PIB) dos 20 países mais ricos era 18 vezes maior do que o dos 20 países mais pobres. Em 1995, o PIB dos 20 mais ricos já era 37 vezes maior do que os 20 mais pobres. Nos Estados Unidos - o país com maiores desigualdades sociais internas, dentre as nações ricas - mais de 30% da renda está nas mãos dos 10% mais ricos da população, enquanto os 10% mais pobres detém somente 1,8% da renda.O desequilíbrio afeta diretamente a competitividade, no comércio internacional. Os países em desenvolvimento enfrentam, em média, duas vezes mais barreiras comerciais, para seus produtos, do que os países desenvolvidos. A par disso, graças a subsídios que somam US$ 300 bilhões anuais, os produtos agropecuários dos países desenvolvidos são vendidos a preços entre 20 e 50% abaixo do custo de produção, desestruturando os produtores dos países em desenvolvimento. Em vários casos ? como no México, Peru e Colômbia ? parte destes produtores deixa de competir com importados baratos e se volta para a produção de drogas como maconha, cocaína e ópio.As diferenças também se manifestam na outra ponta do consumo, a dos resíduos. De acordo com o ?Sinais Vitais 2003?, um novo tipo de transferência de rejeitos começa a se revelar, com a descoberta de depósitos especializados em resíduos tóxicos da indústria informática, na China e na Índia. Os EUA exportam algo entre 50 e 80% do que produzem deste tipo de rejeito, apelidado de e-lixo.Dependência do petróleoOutro sinal de forte desequilíbrio, conforme o documento, está no mercado de petróleo e derivados. Com menos de 5% da população mundial, os Estados Unidos consomem 26% do petróleo, 25% do carvão mineral e 27% do gás natural mundial. Os automóveis, que rodam nos EUA, representam um quarto da frota mundial e emitem mais carbono do que todas as fontes ? indústria, transporte, agricultura, energia ? do Japão, o quarto país na lista mundial de emissões.As conseqüências das emissões, porém, recaem sobre os países pobres, mais vulneráveis às mudanças climáticas. Dos 700 desastres naturais registrados em 2002, 593 foram relacionados a eventos climáticos. As chuvas, no Quênia, desalojaram pelo menos 150 mil pessoas e 800 mil sofreram com a maior seca do século, na China.Na opinião, de Christopher Flavin, presidente, do Worldwatch, ?as tragédias humanas por trás das estatísticas do ?Sinais Vitais 2003? nos lembram que o progresso social e ambiental não é um luxo, a ser posto de lado quando o mundo experimenta problemas econômicos e políticos?. Para ele, as oscilações da economia mundial e o vasto esforço necessário para restaurar a paz no Oriente Médio podem desviar os recursos necessários para enfrentar as causas e conseqüências da pobreza. ?O sofrimento capaz de inflamar hoje levará a imprevisíveis e adversas conseqüências, em muitos amanhãs por vir?.

Agencia Estado,

23 de maio de 2003 | 10h00

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