Desafios do novo papa: diplomacia

Igreja enfrenta obstáculos na China, no Oriente Médio, na África e nos EUA

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

13 Março 2013 | 15h07

Quando o próximo papa assumir o trono de São Pedro, encontrará em sua mesa dezenas de dossiês complicados. Documentos sigilosos de diversas embaixadas europeias e relatórios internos da diplomacia da Santa Sé obtidos pelo Estado revelam os desafios e prioridades da Igreja com as várias regiões do mundo. Há obstáculos a serem enfrentados na China, no Oriente Médio, na África, nos EUA.

China. Um dos maiores entraves é a relação entre o Vaticano e a China - país com 12 milhões de católicos. O governo chinês quer controlar quem são os bispos chineses e, por isso, Pequim passou a ordenar bispos sem a autorização do Vaticano.

Documentos sigilosos mostram a existência de duas Igrejas Católicas na China: uma é a oficial do regime comunista (Associação Católica Patriótica da China); a outra, que é obrigada a atuar de forma semiclandestina, é a Igreja Católica reconhecida pelo Vaticano.

Entre 1990 e 2006 houve um entendimento entre o Vaticano e Pequim, que determinava que os bispos eram nomeados com aprovação dos dois lados. Mas, desde a chegada de Bento XVI, os chineses optaram por simplesmente ignorar o Vaticano: nomearam 6 bispos e deixaram de reconhecer 15 nomes apresentados pelo Vaticano.

Em 2012, por exemplo, Joseph Yue Fusheng foi nomeado bispo de Harbin, mas a Santa Sé o excomungou um dia depois. Segundo os informes, Bento XVI tentou mediar a crise para proteger os 12 milhões de católicos chineses. Enviou grupos de diplomatas da Santa Sé em diversas ocasiões para negociar um entendimento. Mas as condições apresentadas eram inaceitáveis para os chineses: a garantia de liberdade religiosa e a manutenção das relações diplomáticas entre a Santa Sé e Taiwan.

Os documentos mostram que o Vaticano não tem ilusões de que a crise será solucionada a curto prazo. Coincidência ou não, durante a despedida de Bento XVI na Praça São Pedro, um grupo carregando uma bandeira da China insistia em estar presente para alertar ao próximo papa que a situação dos católicos estava longe de ser resolvida.

Oriente Médio. A proteção dos cristãos que vivem no Oriente Médio é outra prioridade do novo papa, já que o cristianismo está seriamente ameaçado no local que lhe serviu de berço. A Santa Sé tem feito alertas aos governos de países árabes, mas admite que pode estar perdendo a batalha para o que chama de "radicalização do Islã".

Cerca de 1,5 milhão de iraquianos cristãos tiveram de abandonar o país desde a derrubada do regime de Saddam Hussein. Na Síria, 60% dos cristãos de Aleppo deixaram a cidade. Em Homs, não sobrou nenhum. No Irã, os cerca de 25 mil cristãos seriam alvo constante de ameaças.

O próximo papa também terá de lidar com a crise que Bento XVI criou em 2006 ao se referir ao Islã como uma religião violenta. O Vaticano admitiu o erro. Mas, nos documentos sigilosos, acusa o mundo muçulmano de ter criado uma situação de "chantagem" ao exigir repetidamente pedidos públicos de desculpa do papa por sua declaração.

África. Apesar do aumento exponencial no número de fiéis, seminaristas e das igrejas, o continente africano é onde a Igreja Católica terá de enfrentar a aids, o envolvimento político de cardeais, a pobreza e a concorrência com os evangélicos.

Hoje, 16% dos católicos no mundo estão nos países africanos e não são poucos os que apontam que o futuro da Igreja está no continente: o número de católicos passou de 1,2 milhão em 1906 para 160 milhões em 2006 (14% da população). Só no Congo, o número de católicos triplicou em 35 anos.

Os documentos mostram que parte da estratégia da Igreja para ampliar sua base na África é prestar serviços que governos africanos têm, nas últimas décadas, fracassado em oferecer: educação e saúde. Porém, em visita à África em 2009, Bento XVI causou polêmica ao dizer que o uso de preservativos não era a solução para a aids e agravava o problema. A mensagem da Igreja no continente que tem 24 milhões de pessoas afetadas pela aids (dois terços de infectados do mundo) recebeu duras críticas da ONU e de ativistas. Mas o Vaticano manteve sua posição.

EUA. Já nos Estados Unidos, a administração de Barack Obama vem sendo pressionada em reuniões privadas pelo Vaticano diante da decisão do presidente americano de introduzir na agenda política do país temas polêmicos, como o casamento homossexual, aborto, pesquisas com células tronco e mesmo a situação dos imigrantes.

Num telegrama da diplomacia americana vazado pelo grupo Wikileaks, diplomatas revelam ao presidente Obama que Bento XVI "genuinamente gosta dos EUA e admira o modelo de secularismo" no país, mas que não deixaria de atacar projetos para ampliar o aborto e pesquisas com célula-tronco.

Os documentos mostram ainda que os desafios também são internos para a Igreja nos EUA. Casos de pedofilia teriam tido um forte impacto na imagem dos cardeais, bispos e padres católicos nos EUA, fortalecendo a fuga de fiéis. Há 20 anos, 35% dos americanos se diziam católicos. Hoje, esse número já caiu para 25% e só não é menor graças aos imigrantes latino-americanos.

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