Descarte no Brasil tem cenas surrealistas

No Brasil, a questão do descarte de celulares e baterias beira o surrealismo. Enquanto a única recicladora de celulares e baterias do País, a Indústria Química Suzaquim, de Suzano, Grande São Paulo, recebe para reciclar de 30 a 50 toneladas por mês - quando tem capacidade para 250 toneladas -, a Motorola manda baterias para a França e a LG/Gradiente mantém, em Manaus, um grande contêiner para acondicionar os equipamentos, sem nenhuma destinação específica. Na Suzaquim, depois de passar por um processo industrial, celulares e baterias se transformam em corantes para azulejos e pisos, além de serem usados na indústria de tintas. Para complicar, a indústria não recicla celulares, embora haja condições técnicas. Somente parte das baterias - que contêm metais pesados, como níquel e cádmio - foi mandada para reciclagem, depois de determinação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Nem a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), que reúne os fabricantes de baterias e pilhas, tem números sobre o que foi devolvido aos fabricantes e o que permanece com os consumidores. Não existem dados atualizados sobre a fabricação de celulares no País. A Abinee estima que 10 milhões de baterias tenham sido negociadas no Brasil em 2000, número que deve ter aumentado bastante, por causa da melhor tecnologia e dos preços mais acessíveis dos aparelhos. As empresas do setor estimam lucrar R$ 8,2 bilhões neste ano com a venda de telefones celulares. Informação - Sem informação, muitos que trocaram celulares estão jogando fora o antigo, no meio do lixo doméstico, apesar do risco de contaminação do solo e do lençol freático. "Já troquei quatro vezes de aparelho e todos os antigos foram parar no lixo", admite o engenheiro civil Jacques Albuquerque, de 46 anos. O arquiteto Carlos Alberto de Castro, de 37 anos, jamais ouviu falar de riscos ambientais causados por celulares. "Ninguém me deu orientação. Agora, quando for trocar o meu, vou passar para algum parente ou vender." Para tentar regulamentar a deposição de baterias, o Conama emitiu, em junho de 1999, a Resolução 257, que disciplinava a coleta seletiva desse tipo de resíduo industrial. Em novembro daquele ano, a Resolução 263 permitiu que as baterias que não contêm cádmio ou mercúrio em sua formulação pudessem ser depositadas como lixo doméstico nos aterros sanitários, o que criou reclamações de ambientalistas e técnicos. A Abinee considera que o níquel metal hidreto e o lítio, materiais em uso atualmente, não causam danos ao ambiente."Se a idéia é descontaminar o lixo, tudo deveria ser reciclado. O consumidor não sabe o que pode ou não jogar no lixo e o problema da contaminação por metais pesados é que causa uma morte silenciosa, sem alarde, por exemplo, a partir de falência do fígado", alerta a engenheira ambiental e gerente técnica da Suzaquim Fátima Santos. O ambientalista Paulo Rodrigues dos Santos, da Associação de Proteção Ambiental (APA), tem opinião semelhante. "Não é justo que a empresa lucre vendendo e depois o custo para recuperar uma área contaminada seja assumido pela sociedade."

Agencia Estado,

14 de outubro de 2002 | 09h27

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