Descoberta 'versão miniatura' de planetas do Sistema Solar

Principal autor do estudo diz que o achado sugere que sistemas como o nosso podem ser comuns

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

14 de fevereiro de 2008 | 17h03

Usando uma técnica que se vale da distorção de raios de luz provocada pela curvatura do espaço, cientistas de uma equipe internacional descobriram planetas que são versões em escala de dois mundos do Sistema Solar, Júpiter e Saturno, girando em torno de uma estrela que é, ela própria, uma miniatura do Sol. Na imagem abaixo, divulgada pelos autores do estudo, uma comparação entre os dois sistemas:      De acordo com o astrônomo Scott Gaudi, principal autor do trabalho que descreve o achado, publicado na edição desta semana da revista Science, a descoberta permite supor que sistemas solares semelhantes ao nosso são comuns no Universo.   Até agora, dos cerca de 250 planetas encontrados fora do sistema Solar, a maioria é de mundos muito maiores que Júpiter e com órbitas estreitas, muito próximas a suas estrelas. Chamados "júpiters quentes", esses mundos representam um tipo de evolução planetária bastante diferente da que seria de se esperar se o Sistema Solar fosse típico do que existe em outras regiões do espaço.   "Eu acredito que o grande número de júpiters quentes que encontramos até agora reflete uma tendenciosidade das técnicas de detecção, e acho que é provável que encontremos  muitos mais sistemas parecidos com o Sistema Solar", disse Gaudi.   As técnicas mais usadas até agora para detectar sistemas múltiplos de planetas dependem de perturbações gravitacionais provocadas pelos mundos em suas estrelas, o que tende a favorecer a descoberta de planetas muito maiores que Júpiter, argumenta o artigo na Science. Já a nova técnica - os dois planetas são apenas o quinto e o sexto descobertos por meio dela - é sensível a mundos menores, embora ainda não seja capaz de detectar análogos da Terra.   Chamada de microlente gravitacional, essa técnica depende da observação do halo de luz - chamado "anel de Einstein" - produzido quando uma estrela distante passa por trás de outra, mais próxima de nós. O halo nasce da distorção dos raios de luz da estrela que está em segundo plano pela gravidade do astro mais próximo da Terra. Se a estrela próxima tiver planetas, o anel apresentará irregularidades, que podem ser detectadas por telescópios.   "É verdade que a técnica só pode ser usada em estrelas que, por acaso, se aproximem da linha de visão de uma estrela mais distante", diz Gaudi, reconhecendo uma aparente limitação da microlente. "Mas há cerca de 700 eventos de microlente a cada ano, então há 700 estrelas por ano onde podemos procurar planetas, e a cada ano teremos outro conjunto independente de estrelas para procurar". No fim, diz ele, o número de estrelas suscetível à técnica é limitado "apenas pela nossa paciência".   O sistema recém-descoberto pela técnica fica a cerca de 5.000 anos-luz da Terra, e é composto por uma estrela, OGLE-2006-BLG-109L, com metade da massa do Sol. Foram detectados dois planetas que, em termos de massa, temperatura e distância da estrela, respeitam as mesmas proporções de Júpiter e Saturno em relação ao Sol.   "Um planeta análogo à Terra, nesse sistema, teria cerca de metade da massa terrestre, e estaria a 0,45 AU da estrela", explica Gaudi. "Mas seria muito difícil de detectar com a tecnologia atual, ou mesmo com uma tecnologia razoavelmente avançada no futuro". "AU" é a  abreviação de "Unidade Astronômica", e corresponde à distância média entre o Sol e a Terra, ou 150 milhões de quilômetros.   O astrônomo acredita que a descoberta desses novos planetas tem impacto, ainda que indireto, na busca por vida extraterrestre. "Trata-se de mais um passo para responder á pergunta 'há vida lá fora?'. Embora estejamos longe de respondê-la, podemos começar a juntar algumas peças", afirma.   Entre essas peças, pondera Gaudi, estão questões "existem planetas ao redor de outras estrelas?", já respondida afirmativamente, e "sistemas como o nosso Sistema Solar são comuns?". "Nossa descoberta parece sugerir que sistemas parecidos com Júpiter e Saturno, pelo menos, podem ser. O próximo passo será determinar se planetas como a Terra também são".

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