Desmatamento provoca aparições de onças-pardas em cidades

O aumento de aparições de onças-pardas (também conhecidas como suçuaranas) próximas a áreas urbanas, nos últimos três anos, tem criado o falso mito de uma superpopulação desse felino. Segundo especialistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), no entanto, a espécie continua a lista das espécies da fauna brasileira ameaçadas de extinção. ?O que tem crescido é a ocupação humana, que se aproxima cada vez mais das poucas áreas naturais, onde as onças continuam se reproduzindo no ritmo normal?, diz o biólogo Rogério Cunha de Paula, do Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores (Cenap/Ibama).Segundo o biólogo, a implantação de grandes empreendimentos, como usinas hidrelétricas, plantações de eucalipto e as altas taxas de desmatamentos, acabam provocando a dispersão desses animais em busca de florestas naturais grandes e de qualidade, ou seja, com abundância de presas. Cada indivíduo da espécie precisa de cerca de 30 a 50 quilômetros quadrados, o equivalente a quase cinco mil campos de futebol.?A busca por alimento faz a suçuarana cair nas cidades. Apenas no último semestre tivemos capturas próximas ou em quintais de residências na Serra da Cantareira, em Ribeirão Preto e Peruíbe, em São Paulo, em Uberlândia (Minas Gerais) e Brasília. Apesar de apavorar as pessoas, por conta do seu tamanho, a onça encontrada na cidade está ainda mais assustada. Não está procurando comida e sim um local para se esconder?, explica.Essas aparições, segundo Rogério, tendem a ficar cada vez mais freqüentes e a recomendação para quem encontrar uma delas é entrar em contato com o Cenap (11-4411-0144), que fica em Atibaia (São Paulo). ?Nosso trabalho é promover a convivência pacífica entre o homem e os animais. São poucos os casos onde fazemos a captura e realocação do animal. Na maior parte das vezes, ele pode permanecer na região.?Como tem medo do homem, a tendência é a onça-pintada fugir sempre que reconhece um. Assim, os técnicos do Cenap afirmam que a melhor maneira de prevenção, para quem vive em áreas de risco (próximo a florestas ou fazendas de gado) é deixar sempre uma luz acesa e ter um cachorro. Se estiver fora de casa, a recomendação é levar uma lanterna, um radinho, ?qualquer coisa que mostre para a onça que ela está diante de um ser humano?.A onça-parda ataca apenas quando se sente em situação de risco, como quando está acuada em um canto, sem poder escapar, ou tiver um filhote. Além disso, deve-se evitar montar armadilhas ou manejar sozinho o animal. ?Para esses casos, siga o ditado: não cutuque a onça com vara curta?, diz Rogério. As recomendações valem para todos os tipos de onças, mesmo as menores, como a jaguatirica.Embora existam muitos casos de animais silvestres que atacam pessoas em parques e cidades nos Estados Unidos, na África e na Índia, no Brasil existe apenas um registro de uma criança morta por onça, em Carajás (no Pará), no início dos anos 90. Mas, se o perigo para os seres humanos é mínimo, para as onças, o final nem sempre é favorável. Elas costumam ser recebidas a balas nas fazendas e as capturas feitas por pessoal inexperiente pode comprometer a sobrevivência de animais imprescindíveis para o equilíbrio ecológico.A suçuarana não está entre os animais brasileiros mais vulneráveis à extinção, apesar de duas subespécies que ocorrem nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste apresentarem populações em declínio, conforme a última lista vermelha do Ibama. No entanto, faltam dados populacionais que atestem que a espécie, de modo geral, tenha garantia de sobrevivência futura.

Agencia Estado,

28 de agosto de 2003 | 13h47

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