Desperdício de água eleva gastos com a saúde

O Brasil perde 46% da água coletada, um total de 5,8 bilhões de metros cúbicos por ano. A quantidade seria suficiente para abastecer França, Suíça, Bélgica e norte da Itália juntos por igual período.O levantamento foi realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que reuniu uma série de indicadores para mostrar como a ineficiência das empresas de saneamento provoca desperdício, prejuízos financeiros e vários danos à saúde da população.O desperdício de água repercute de várias formas, segundo o estudo. Além do aumento dos cortes e desabastecimento em várias regiões, incluindo a periferia de São Paulo, eleva os gastos do governo com saúde. O estudo da Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe) estima que 60% das internações nos hospitais públicos são de vítimas de doenças "de veiculação hídrica"."Poderíamos reduzir muito as doenças e a taxa de mortalidade infantil, além do dinheiro gasto com o tratamento desses problemas", diz Paulo Canedo, professor de recursos hídricos do curso de engenharia civil da Coppe e coordenador da pesquisa.A perda de água no Brasil - por roubo, vazamentos e outros fatores - está bem acima da média de países desenvolvidos e de vários em desenvolvimento. A Europa tem índices de perda em torno de 10%. Alguns países da Ásia, como Cingapura, perdem 6%. Da bacia do Rio Paraíba do Sul, o Rio é o que mais desperdiça: 55% do total produzido. São Paulo vem em seguida, com 41%.Além disso, muitos brasileiros não têm acesso a água. São 40 milhões de pessoas que vivem em domicílios sem rede ou que contam com canos, mas a água não chega. "Não é aceitável que um País como o Brasil não tenha cobertura de 99% de água. Não há tolerância para esse tipo de índice. Todos têm o direito de receber água em suas casas", avalia Canedo.Para Canedo, as maiores responsáveis pela falta de cobertura total são as empresas de saneamento, que não têm interesse em ampliar a rede e não são forçadas a isso. O mesmo problema ocorre com a rede de esgoto - presente em 43% dos domicílios.A questão é que não existem mecanismos para forçar as empresas a cumprir seus deveres e ampliar a rede. "E, além disso, o consumidor não pressiona como deveria. As pessoas precisam ficar mais indignadas por causa da falta de água ou a inexistência de sistemas de coleta de esgoto."Não existem no Brasil órgãos ou agênciasresponsáveis por pressionar e incentivar a instalação de mais redes de esgoto. Apesar de ter projetos que prevêem novos sistemas de saneamento, a função da ANA é preservar as bacias. O Ministério do Planejamento tem alguns programas de incentivo a projetos de saneamento, mas ainda faltam mecanismos mais efetivos para aumentar as redes de água e esgoto."É um buraco negro. Não há órgão governamental responsável por punir quem esquece suas responsabilidades. E o consumidor brasileiro reclama pouco. Com isso, empresas e governos municipais e estaduais não são forçados a mudar", explica Canedo.O estudo da Coppe é resultado da coleta de dados desde 1996 e reunidos no fim de 2002. Foi feito sob encomenda para a Agência Nacional de Águas (ANA), criada em 2000 com o objetivo de gerenciar os recursos hídricos do País. A ANA encomendou o estudo para avaliar a situação da bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul. Nela, o governo federal está fazendo o primeiro projeto-piloto de tentativa de conservação da bacia e uso racional da água, além de redução do esgoto despejado nos rios.Localizada no Sudeste, entre São Paulo, Minas Gerais e Rio, a bacia está em uma das regiões mais desenvolvidas do País. Dependem dela 180 municípios e uma população de 5,25 milhões de habitantes. Faz parte do projeto-piloto o início da cobrança pela captação e uso da água. Todas as empresas usuárias da bacia começam este ano a pagar pela coleta.A expectativa é de que a taxa fique em torno de R$ 0,02 por metro cúbico. A ANA calcula que sejam arrecadados R$ 15 milhões no primeiro ano de cobrança, recursos que poderão ser aplicados na despoluição do Paraíba do Sul. "Esta é uma tentativa de forçar as empresas a racionalizar o uso desse recurso que, em todo o mundo, está cada vez mais escasso", explica Canedo.O consumo de água per capita no Brasil dobrou nos últimos 20 anos e promete dobrar outras vez nas próximas duas décadas, levando a um cenário de escassez em várias regiões do País, segundo o deputado federal e ex-secretário de Recursos Hídricos, Saneamento e Obras do Estado de São Paulo, Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP).Ele é o autor de um projeto de lei que tornaria obrigatória para todos os estabelecimentos de serviço público no País - incluindo os do setor privado, como shoppings, hotéis e escolas - a instalação de mecanismos de controle do consumo de água, como torneiras automáticas e descargas sanitárias mais econômicas. O texto propõe uma diretriz nacional para o uso racional da água nesses estabelecimentos, onde o desperdício costuma ser maior.Como a competência sobre o uso dos recursos hídricos é municipal e não federal, os municípios que não incorporarem as normas "terão dificuldades para receber repasses do governo", propõe o deputado. O projeto deve entrar em tramitação na Câmara no mês que vem.

Agencia Estado,

20 de janeiro de 2003 | 21h31

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