Detecção de metano aumenta chance de haver vida em Marte

Cientistas americanos confirmaram a presença de grandes massas de metano, um componente do gás natural, na atmosfera de Marte. Na Terra, 90% do metano existente no ar é produzido por seres vivos, e o mesmo pode ser verdade no planeta vermelho. "Tanto a origem biótica quanto a abiótica são possíveis", diz o principal autor do estudo que descreve o metano marciano, Michael Mumma, do Centro de Voo Espacial Goddard, da Nasa. "Isso eleva substancialmente a probabilidade de que houve vida lá ou que ela sobrevive até o presente", acrescentou, com a ressalva de que a presença de vida em Marte ainda está longe de ser provada.    Rússia e China lançam missões a Marte em 2009; EUA, em 2011  Mapa dos 'pontos turísticos' de Marte   A alternativa à explicação biológica seria uma origem geoquímica, a partir de uma reação envolvendo rocha aquecida do interior do planeta e água, ou a partir da liberação de metano antigo congelado, aprisionado no subsolo. Segundo Mumma, apenas missões com astronautas ou robôs, enviadas aos locais da onde o metano parece se originar, poderão eliminar a dúvida.   Ao comentar a descoberta em um evento realizado pela Nasa, a geóloga Lisa Pratt,  da Universidade de Indiana, disse que o metano de origem geológica na Terra é tão raro que considera que a origem biológica para o gás em Marte "pode até ser mais plausível". Ela lembrou que existem seres vivos que se alimentam de metano, e que poderiam se acumular junto a fontes do gás. "Essa descoberta nos dá um alvo. O metano é também um recurso".   Ela disse que para confirmar a presença de vida nesses locais seria preciso escavar vários metros abaixo da superfície.   Os primeiros sinais de metano em Marte haviam sido detectados em 2003, mas a presença do gás ianda era controversa. Unindo observações feitas naquele ano a outras realizadas em 2006, a equipe de Mumma obteve o que ele chama de" detecção definitiva" da substância.   Os pesquisadores obtiveram a confirmação realizando uma análise espectroscópica da luz solar refletida por Marte em direção à Terra, e encontraram a assinatura do metano. A análise das flutuações na intensidade dessa assinatura fez com que concluíssem que o gás é emitido nos meses quentes - primavera e verão - e que se origina, provavelmente, em três regiões do hemisfério norte: Arabia Terra, Nili Fossae e Syrtis Major. Junto com o metano, a equipe de Mumma também viu a assinatura de água, que é um ingrediente essencial para a vida.   Esse caráter sazonal da emissão indica que há algo mais ocorrendo, para além de uma simples produção geológica do gás. "Se o efeito é geológico, a variação com as estações poderia ser resultado do aquecimento do ambiente próximo à superfície. Esse aquecimento poderia derreter o gelo, com um aumento da água disponível no primeiro metro do solo e a abertura de poros nas encostas. Esses poros ficariam lacrados durante o inverno e o outono".   O artigo que descreve a descoberta, publicado online na tarde desta quinta-feira, 15, pelo serviço ScienceExpress, da revista Science, cita como um possível modelo para a fonte biológica do gás algumas comunidades de micro-organismos encontradas vivendo a quilômetros de profundidade, na Terra, e se alimentam de hidrogênio, desligado das moléculas de água pela radiação natural das rochas, e gás carbônico. Esses organismos produzem metano. "Pode ser possível que uma biota semelhante sobreviva por eras abaixo do gelo em Marte, onde a água é líquida, a radiação fornece energia e o CO2, carbono".  Os gases acumulados nessas áreas seriam liberados de forma sazonal, com a abertura dos poros de rochas e do solo.   A quantidade de metano detectada em Marte no verão de 2003 foi de 19 mil toneladas. Os cientistas não sabem dizer se a liberação se deu de forma gradual ou explosiva, mas a taxa média estimada de emissão é de pouco mais de meio quilo por segundo, ou 52 toneladas por dia. Os cientistas também descobriram que o metano desaparece surpreendentemente depressa da atmosfera marciana.   A eliminação do gás já era esperada - o metano é destruído pela luz do Sol, e é por isso que sua presença na atmosfera requer uma fonte que faça a reposição - mas, segundo Mumma, seria de se esperar que o gás durasse mais de 300 anos no ar marciano. "Nossos resultados mostram uma expectativa de vida de apenas um ano", disse ele. Partículas de poeira dotadas de carga elétrica poderiam estar acelerando a destruição do gás.

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

15 de janeiro de 2009 | 18h54

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