Dez anos após, famílias moram em hotel; Shell diz que buscou entendimento

Mais de 60 pessoas morreram em decorrência do contato com a água, o ar e alimentos infectados

Clarice Cudischevitch , enviada especial de O Estado de S. Paulo

28 Março 2013 | 17h48

PAULÍNIA - Duas famílias que viviam no Recanto dos Pássaros, região contaminada por uma fábrica de pesticidas da Shell, ainda moram em hotel dez anos depois de a área ser interditada. Ciomara Rodrigues e Antonia Pelegrini não entraram em um acordo com a empresa para vender as chácaras em que moravam no bairro, após a constatação de que a indústria infectou o solo e a água do lugar.

No começo dos anos 2000, cerca de 290 pessoas tiveram que abandonar suas casas no Recanto dos Pássaros depois que a contaminação foi evidenciada. Na época, várias pessoas, entre moradores e funcionários da fábrica, apresentaram problemas de saúde, como alterações hepáticas. Mais de 60 pessoas morreram em decorrência do contato com a água, o ar e alimentos infectados. Hoje, o acesso ao bairro é proibido.

A Shell informa que buscou todas as formas de entendimento com as duas famílias e lamenta que não tenha havido um consenso para que elas vendessem suas propriedades. "A empresa tem tomado medidas para que estas famílias tenham uma moradia adequada, custeando suas despesas (alimentação, lavanderia, etc.), como também abrigo para animais e empresas de guarda-móveis", ressaltou a assessoria de imprensa.

Antônia Pelegrini é uma das ex-moradoras do Recanto dos Pássaros que vive em hotel há dez anos. Ela diz que ser privada de ter um ambiente familiar dá uma sensação de impotência e, depois de três anos, passou a sofrer crises de claustrofobia, precisando mudar para um quarto que fica ao lado de uma área externa.

"Morar em hotel significa ter uma rotina de situações complicadas", afirma Antônia. Um exemplo é a necessidade de ter autorização registrada em cartório cada vez que sua filha mais nova (ela tem três filhos) quer receber uma amiga no hotel, por ser menor de idade. A ex-moradora conta que a Shell chegou a oferecer uma casa alugada para a sua família, mas não aceitou: "Se eu fosse para uma casa alugada, aí mesmo que eu ia morrer sem ver uma solução definitiva". Assista ao depoimento de Antônia e conheça o seu dia-a-dia.

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