Diminui população de aves migratórias

Todos os anos, entre agosto e setembro, milhares de maçaricos-de-papo-vermelho, cientificamente conhecidos como Calidris canutus, deixam sua área de nidificação, no Círculo Polar Ártico, no norte do Canadá, e voam mais de 14 mil quilômetros até a Patagônia, no Sul do Chile e Argentina, para a invernada, voltando a partir de abril e maio. No caminho, visitam sempre nos mesmos sítios de pouso, para um breve descanso antes de prosseguir, em jornadas que podem durar até 70 horas ou cobrir cerca de 2.500km, sem parar. Foto: Liana John/AEAve da espécie Charadrius semipalmatus, capturada e anilhada na Ilha de Campexá, MaranhãoEm 2001, o censo desta espécie, realizado no Chile, antes do retorno, que se inicia em abril, acusou a presença de 80 mil aves. Este ano, elas somavam menos de 45 mil. Saber o que está acontecendo com estes maçaricos e 22 outras espécies de aves migratórias, que percorrem a mesma rota, é um dos objetivos das expedições ao litoral do Maranhão, realizadas duas vezes por ano pelo Centro de Pesquisa para a Conservação de Aves Silvestres do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Cemave-Ibama). Na última expedição, encerrada nesta semana, na Ilha de Campexá, nas Reentrâncias Maranhenses, a diminuição das populações de aves migratórias continentais refletiu na marcação e avaliação, feita por uma equipe de 4 biólogos do Cemave. Diferente de outras expedições, quando centenas de aves migratórias continentais foram capturadas e anilhadas, desta vez só 41 caíram nas redes, de 5 espécies diferentes (Charadrius wilsonia, C. semipalmatus, C. collaris, Actitis macularia e Calidris pusilla). E mesmo nas observações feitas com binóculos, apenas 4 maçaricos-de-papo-vermelho foram contabilizados.Foto: Liana John/AERoberta Costa Rodrigues verifica o desgaste da plumagem.?Sabemos que houve uma antecipação da volta das aves, da ordem de 15 dias a um mês e uma das hipóteses é que tenha sido motivada pelas alterações climáticas?, diz Inês de Lima Serrano do Nascimento, coordenadora do projeto de aves migratórias no Cemave. ?Tivemos chuvas fortes e ventos fora de época no sul do Brasil e ventos muitos fortes também no Maranhão, empurrando estas aves antes do tempo para a América do Norte, onde elas foram observadas, fora da época normal de migração?.Barqueiros e pescadores das Reentrâncias Maranhenses confirmam a antecipação da passagem da aves por ali. Normalmente, os bandos passam durante todo o mês de maio, reunindo-se nas ?coroas?, bancos de areia mais altos, que ficam expostos durante a maré cheia. A maioria dos pescadores e barqueiros da região conhece bem as áreas de dormitórios de aves e seus hábitos. Alguns até adotam filhotes de uma espécie, que se reproduz por ali, apesar de ser migratória também. Chamada vulgarmente de peru-peru (Haemantopus palliantus) a ave é criada nos quintais, junto com patos e galinhas, e serve como alarme, avisando sobre a aproximação de intrusos, humanos ou animais.Os bandos, que se reúnem nas ?coroas? são mistos, o que é possível pelo fato de cada espécie se alimentar de forma diversa. Especialista em alimentação de aves migratórias, um dos biólogos da equipe, Wallace Rodrigues Telino Jr, explica as diferenças. O maçariquinho (Calidris pusilla), por exemplo, prefere recorrer ao recurso mais abundante em cada pouso. No Maranhão, come uma espécie de verme marinho, enquanto no pouso dos Estados Unidos prefere um pequeno crustáceo. O maçariquinho é a menor espécie dentre as 23 já observadas nesta rota, pesando cerca de 18g, quando jovem e por volta de 31g, quando está na fase reprodutiva. A gordura extra é acumulada para fornecer à ave energia para as longas jornadas e para a reprodução.Foto: Liana John/AEO biólogo Wallace Rodrigues Telino Jr tira ave da rede de captura.Já uma outra espécie, o vira-pedra (Arenaria interpus) come todo tipo de invertebrado ou crustáceo, que encontra pela frente, incluindo também no cardápio: peixes em decomposição, ovos de siri, maria farinha, caramujos e mariscos ou mesmo tartaruguinhas recém nascidas. Os bandos mistos têm até uma espécie ?vigia?, que costuma dar o alarme à aproximação de qualquer perigo. No caso dos bandos encontrados nas Reentrâncias Maranhenses, o vigia é o batuiruçu de axila preta (Pluvialis squatarola). E existem ainda os que andam em ?turminhas?, como os maçaricos da espécie Charadrius semipalmatus. Apesar de andarem junto com os outros, reunindo-se nas ?coroas? de areia (partes mais altas) na preamar, eles não se dispersam, preferindo a proximidade da própria espécie.Nas expedições de marcação, eles são capturados com redes e recebem uma anilha metálica do Cemave e uma colorida, que identifica o país onde foi capturado, correspondendo ao Brasil a cor azul. Todos são pesados, medidos e avaliados quando ao estado de saúde, plumagem, etc. Também são colhidas amostras de sangue para um projeto de pesquisa médica, em parceria com o Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, visando verificar o potencial de transmissão de doenças - como o vírus da Influenza - das aves para os homens. No caminho de volta, o trabalho é o mesmo, mas as aves mais ameaçadas ? como o Calidris canutus - recebem também uma pintura no ventre, feita com ácido pícrico, que não prejudica as aves e facilita a observação à distância.Foto: Liana John/AEAlgumas aves chegam a voar até 70 horas ininterruptas, antes de parar num "oásis" como este para descansar.O mesmo ritual é cumprido no Canadá, Estados Unidos, Chile e Argentina, sempre com o objetivo de identificar melhor as rotas de migração utilizadas, preenchendo as lacunas de informação e avaliando o status da população de cada espécie. O Brasil integra, assim, através do Cemave, o grupo de países, que há mais de 20 trabalha de forma integrada, no âmbito da Convenção de Ambientes Aquáticos, assinada em Ramsar, no Irã, em 1971, e conhecida como Convenção Ramsar. ?É preciso haver uma política integrada de conservação, com muita cooperação e esforços conjuntos para manter as aves, que desconhecem as fronteiras políticas entre os países?, observa Inês do Nascimento.?Ao longo da jornada entre a área de alimentação (na Patagônia) até a área de reprodução (no Ártico), as aves se mantém fiéis aos sítios de pouso, no meio do caminho?, conta Rachel Maria de Lyra Neves, também bióloga da equipe. ?Se um desses sítios se degrada, elas não conseguem completar o ciclo e podem até ter sua sobrevivência ameaçada?.Desmatamentos, poluição das águas e expansão de atividades humanas nas áreas de pouso estão na lista das degradações mais comuns. Mas a poluição sonora também pode ser importante. Uma outra área de passagem, chamada Coroa do Avião, junto à Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, deixou de ser usada pelo maçarico-grande-de-bico-torto (Numenius phaeopus), quando aumentou o uso de ultraleves e barcos a motor muito barulhentos. As aves chegaram a voltar, quando os ultraleves foram temporariamente proibidos, mas já não pousam lá há alguns anos, desde que os passeios barulhentos foram novamente autorizados.O tipo de turismo praticado nos sítios de pouso das aves migratórias também pode ter grande influência na sobrevivência das espécies. No Maranhão, os ecossistemas chamados de lençóis merecem especial atenção. Lençóis são conjuntos de mangues e dunas de areia, entremeadas por pequenas lagoas temporárias ? de águas vermelhas, negras ou verdes - algumas com vegetação aquática, outras cercadas de plantas típicas de beira-mar ou entremeadas por ?oásis? de vegetação, com algumas espécies de restinga e caatinga. Ocorrem ao sul de São Luiz (Grandes Lençóis) e numa ilha bem ao norte, nas Reentrâncias Maranhenses (Pequenos Lençóis) e oferecem condições únicas para repor as energias das aves, em meio à longa jornada. O turismo predatório, nestas áreas, pode ser catastrófico para as aves.

Agencia Estado,

17 de maio de 2002 | 14h07

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