Dinheiro pode ajudar a comprar felicidade, diz estudo

Segundo o NY Times, fato é que o crescimento econômico não enriquece apenas em questões materiais

David Leonhardt, The New York Times,

16 de abril de 2008 | 18h16

No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a economia japonesa passou por um dos maiores crescimentos que o mundo já presenciou. De 1950 a 1970, a produção econômica per-capta cresceu mais de sete vezes. O Japão, em apenas algumas décadas, se rescontruiu, passando de um país destruído pela guerra a uma das nações mais ricas do mundo.  Ainda assim, estranhamente, os cidadãos japoneses não pareciam ficar satisfeitos com suas vidas. De acordo com uma pesquisa, a porcentagem de pessoas que deram a resposta mais possitiva possível a respeito de seu nível de satisfação com a vida caiu, do final dos anos 1950 ao início dos 1970. Eles estavam mais ricos, mas, aparentemente, não mais felizes.  Esse contraste se tornou o exemplo mais famoso de uma teoria conhecida como paradoxo de Easterlin. Em 1974, um economista da Universidade da Pennsylvania chamado Richard Easterlin publicou um estudo no qual argumentava que crescimento econômico não levava, necessariamente, a uma maior satisfação.  Pessoas em países pobres, não surpreeendentemente, realmente mostravam-se mais felizes quando conseguiam arcar com suas necessidades mais básicas. Mas, além disso, ganhos maiores simplesmente pareciam voltar o resultado positivo ao zero. Para colocar em termos atuais, ter um iPod não o torna mais feliz, porque você vai querer agora um iPod Touch. A renda relativa - isto é, o quanto você ganha comparativamente às outras pessoas ao seu redor - importava muito mais que a renda absoluta, disse Easterlin. O paradoxo de Easterlin rapidamente se tornou um clássico das ciências sociais, citado em jornais acadêmicos e na mídia popular. Ele tocou em um instinto humano quase-espiritual de acreditar que dinheiro não pode comprar felicidade. Como disse o Financial Times em 2006, "Os hippies estavam certo todo o tempo a respeito da felicidade." Mas agora o paradoxo de Easterlin está sendo atacado. Semana passada, na Brookings Institution em Washington, dois jovens economistas - da Universidade de Pennsylvania - apresentaram um trabalho que refuta o paradoxo, o que rapidamente capturou a atenção de grandes economistas do mundo. Isso levou também a uma espirituosa resposta de Easterlin.  No trabalho, Betsey Stevenson e Justin Wolfers argumentam que o dinheiro realmente tende a trazer felicidade, mesmo que não seja uma garantia disso. Eles apontam que, nos 30 anos desde a publicação do trabalho de Easterlin, uma explosão de pesquisas de opinião permitiu um olhar mais claro da questão. "A mensagem central é que a renda importa sim", disse Stevenson.  Assim como o paradoxo de Easterlin reconhece, que a renda relativa é muito importante. Aproximadamente 90% dos americanos que vivem em lares com renda de pelo menos US$ 250 mil por ano (R$ 418 mil) se classificaram como "muito felizes" em uma pesquisa recente do Gallup. Em lares com renda abaixo de US$ 30 mil (R$ 50 mil), apenas 42% deram a mesma resposta.  Entretanto, Stevenson e Wolfers alegam que a renda absoluta é tão importante quanto a relativa. Pesquisas feitas pelo Gallup ao redor do mundo mostram que a satisfação é mais alta em países ricos. Os moradores desses países parecem entender que estão em uma situação muito boa, tenham, ou não, um iPod Touch.  Até a anomalia japonesa não é bem o que pareceu ser de início. Stevenson e Wolfers procuraram entre as antigas pesquisas do governo e descobriram que a pergunta mudou através do dos anos.  No final dos anos 1950 e início dos 1960, a resposta mais positiva que os participantes da pesquisa ofereceram foi "embora eu não esteja completamente satisfeito, eu estou, no geral, satisfeito com a vida agora." (Você pode imaginar uma pesquisa americana que ofereça essa opção?) Mas em 1964, a resposta mais positiva recebida foi "completamente satisfeito." Não é surpresa, então, que a porcentagem de pessoas que deram essa resposta caiu. Quando você olha apenas para os anos em que a pergunta permaneceu a mesma, a parcela de pessoas se denominando "satisfeitas" ou "completamente satisfeitas" realmente cresceu.  Para colocar a pesquisa em contexto, chamamos Daniel Kahneman, um pscicólogo de Princeton que dividiu o Nobel de economia em 2002. Ele passou sua carreira criticando economistas por sua crença de que dinheiro é tudo, e já escreveu sobre o "moinho de aspirações" no âmago do paradoxo de Easterlin.  Mas Kahneman achou o trabalho de Stevenson-Wolfers "bastante atraente." Acrescentou que "há uma ampla quantidade de evidências de que o paradoxo de Easterlin pode não existir."  Então ligamos para Easterlin, que agora esta na Universidade de do Sul da Califórnia e que recebeu uma cópia do trabalho de Stevenson e Wolfers. Ele concordou que pessoas em países mais ricos são mais satisfeitas. Mas é cético quanto à riqueza causar o nível elevado de satisfação. Os resultados poderiam refletir, de outra maneira, diferenças culturais em como as pessoas respondem a perguntas de questionários, disse.  Ele seria mais persuadido, continuou, se a satisfação tivesse claramente subido em cada um dos países a medida que eles enriqueciam. Em alguns, isso aconteceu. Mas em outros - notavelmente os Estados Unidos e a China - isso não aconteceu.  "Todos querem provar que o paradoxo de Easterlin não se mantém", ele disse. "E eu estou perfeitamente disposto a acreditar que isso seja verdade. Mas gostaria de ver uma análise que mostre isso claramente." Ele disse que gostou de Stevenson e Wolfers pessoalmente, mas acha que eles "publicaram um rascunho, sem edidencias suficientes." Eles, por sua vez, reconhecem que os dados em países individuais ao longo do tempo está bagunçado. Mas notaram que a satisfação subiu em 7 de 10 países europeus nos quais há pesquisas desde 1970. Ela também cresceu no Japão. E uma boa razão para ela não ter crescido nos Estados Unidos é que o pagamento por hora da maior parte dos trabalhadores não cresceu muito, recentemente.  "As evidências no tempo são frágeis", disse Wolfers. "Mas são mais consistentes com a nossa história que com a dele." Então, onde isso tudo nos deixa? Crescimento economico, sozinho, certamente não é garantia suficiente para o bem estar das pessoas - o que é a grande contribuição de Easterlin para a economia. Nos Estados Unidos , por exemplo, alguns grandes problemas de cuidados com a saúde, como tratamento básico de doenças do coração, ressentem a falta de recursos. Pesquisas recentes também encontraram que algumas das coisas que fazem as pessoas mais felizes - pequenos trajetos para o trabalho, tempo gasto com amigos - têm pouco a ver com grandes rendas.  Mas seria um erro levar esse argumento longe demais. O fato continua que o crescimento econômico não enriquece países apenas em questões materiais superficiais. Crescimento econômico também pode pagar por investimentos científicos que levam a vidas longas, e mais saudáveis. Ele pode permitir que pessoas possam pagar por viagens para ver parentes que eles não vêem há anos ou ver lugares que nunca conheceram. Quando você é mais rico, você pode decidir trabalhar menos - e passar mais tempo com seus amigos.  Afluência é um bom negócio. As pessoas do mundo parecem concordar. Num momento em que a economia americana parece ter caído em uma recessão e a renda da maior parte das famílias estão estagnadas por mais de uma década, é bom nos lembrarmos do porquê devemos nos importar.

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