Diretor do Pnuma reconhece falta de ações concretas

O diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o alemão Klaus Toepfer, afirmou hoje no Rio que os danos ambientais "não são um prognóstico ou um pesadelo; são um fato". O ambientalista reconheceu que, há dez anos, durante a Rio 92, os países firmaram uma série de compromissos de preservação, mas não pensaram em garantir sua aplicação. "Esquecemos de fazer um plano de implementação. A implementação não foi na direção certa", declarou.Toepfer, que participa a partir de amanhã da conferência Rio + 10 Brasil, lançou o relatório Perspectiva do Meio Ambiente Mundial-3. O documento faz um retrato dos últimos 30 anos, avalia políticas ambientais e traça cenários possíveis para o futuro. Segundo o ambientalista, 70% das terras do planeta estão degradadas e que 1,2 bilhão de pessoas no mundo vivem em extrema pobreza,Elaborado por mil especialistas de vários países, o raio X ambiental revela que, até 2032, metade da população mundial viverá sob "graves condições de seca por falta de água". Informa ainda que 23% das áreas cultiváveis foram degradadas, reduzindo os níveis de produtividade, e faz um cenário preocupante para a América Latina: na região, 40% dos 200 milhões de habitantes são pobres. Foram perdidas 40% das zonas florestais e, de 178 eco-regiões, 31 estão em estado crítico de conservação. Em 30 anos, a população latino-americana cresceu 74%.Embora tenha apontado alguns pontos positivos como a redução do buraco na camada de ozônio, Toepfer disse que os países não estão conscientes da obrigação de cada um individualmente tomar suas providências para preservação do meio ambiente e busca do desenvolvimento sustentável. Lamentou que a conferência mundial Rio + 10, que começa em fim de agosto em Johannesburgo, corra o risco de fracassar, por causa da resistência de algumas das maiores potências mundiais em cumprir os acordos ambientais."Temos uma responsabilidade muito grande para que a conferência de Johannesburgo seja um sucesso. Por isso, o presidente Fernando Henrique Cardoso nos convidou para estar aqui. Esta reunião no Rio terá um papel muito importante, porque temos que estimular os países, eles têm que ter vontade política", disse Toepfer. O diretor-executivo do Pnuma demonstrou grande preocupação com a resistência de alguns países em assinar o Protocolo de Kyoto, para redução da emissão de gases prejudiciais à camada de ozônio. Ele disse estar "otimista, mas realista" em relação à possibilidade de se alcançar o número mínimo de signatários antes da conferência sul-africana. "Precisamos da assinatura da Rússia", insistiu Toepfer. São necessárias assinaturas de países responsáveis por pelo menos 55% da emissão de gás carbônico. Por enquanto, os países signatários representam apenas 35%. Na semana passada, Brasil e Japão ratificaram sua participação. Estados Unidos e Austrália já decidiram por não assinar. Canadá e Rússia ainda não anunciaram suas decisões.Questionado se os Estados Unidos estão contra o desenvolvimento sustentável, Toepfer foi diplomático: "Não acredito. Eles reconhecem que há uma mudança climática no planeta." Para os países que resistem em investir nos programas de redução da poluição e de garantia do desenvolvimento sustentável, o alemão pregou uma política rigorosa, mas "não na base do porrete."Ao final da entrevista, Toepfer mostrou uma curiosidade muito especial: quis saber sobre a qualidade da Praia do Leme, onde está hospedado. Seus planos para a tarde de hoje eram um passeio pelo calçadão e, talvez, um mergulho. Foi informado que a qualidade da água estava propícia e não precisava se preocupar.

Agencia Estado,

22 de junho de 2002 | 16h37

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