Discutir pobreza no mundo é prioridade, afirma Lafer

O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, disse hoje que o principal objetivo do governo nas negociações que ocorrerão na Cúpula Mundial de Desenvolvimento Sustentável (marcada para Johannesburgo, África do Sul, entre 26 de agosto e 4 de setembro) será tentar implementar três pontos problemáticos da agenda ambiental: aumento das fontes de financiamento para países pobres, incremento na transferência de tecnologia e maior acesso aos mercados de países desenvolvidos para os produtos agrícolas do Terceiro Mundo.O presidente Fernando Henrique Cardoso chegou hoje ao Rio e permanecerá na cidade até terça-feira para participar do Seminário sobre Desenvolvimento Sustentável, o Rio+10. O presidente, acompanhado dos ministros Ronaldo Sardenberg (Ciência e Tecnologia) e Lafer, recebeu 90 ambientalistas e autoridades que participarão da conferência para um jantar no Palácio da Cidade, oferecido pelo prefeito César Maia. O encontro foi reservado e o presidente não deu entrevistas. Está programada para amanhã uma coletiva à imprensa.Na abertura da conferência, hoje, no Museu de Arte Moderna, Lafer falou das tentativas que estão sendo feitas para um acordo sobre desenvolvimento sustentável no mundo. "Em 1972, houve um encontro emocionado que introduziu as preocupações sobre ambiente. Em 1992, surgiram as iniciativas, os documentos de intenções, como a Agenda 21. E agora há o problema complicado de implementar essas metas", disse o ministro. "E esse encontro vai servir para mobilizar a sociedade civil e ainda tentar agregar forças para enfrentar as dificuldades que surgirão na África do Sul", afirmou.Lafer ressaltou que, apesar de a pobreza (escolhido como o tema principal da cúpula) ser um problema grande e que tem de ser atacado, há riscos de que os países ricos tentem desviar a atenção de outros problemas importantes, como os atuais padrões de produção e consumo dos países desenvolvidos. "Há uma erosão do conceito de responsabilidade e nada mais explícito dessa erosão do que a não-assinatura do Protocolo de Kyoto (acordo de compromisso de redução de emissão de gases) pelos Estados Unidos", afirmou Lafer.O ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, também demonstrou a mesma preocupação. Segundo ele, o tema da pobreza não pode servir para esconder o fato de que são os países ricos que mais produzem poluentes e que mais colaboram com o aquecimento global. "Ninguém pode negar a prioridade de acabar com a pobreza, mas que isso não sirva de pretexto para esquecer quem são os responsáveis pelo aquecimento da Terra." Durante a abertura do evento, especialistas de todo o mundo discutiram a evolução do pensamento em relação às questões ambientais desde 1972, quando ocorreu a primeira conferência sobre o tema em Estocolmo (Suécia).A maioria concordou que, nesses 30 anos, houve avanços e uma mudança de comportamento de muitos países em relação à degradação dos recursos naturais. Mas eles ressaltaram a importância de manter a luta para implementação dos objetivos estabelecidos em 1992. "Estocolmo e o Rio mudaram nossa maneira de ver o desenvolvimento e o crescimento econômico. Mas não estou otimista sobre Johannesburgo. Acho que, se não der certo lá, temos de continuar lutando para criar um plano mundial de desenvolvimento sustentável", disse o economista polonês Ignacy Sachs, um dos primeiros a formular teorias relacionando desenvolvimento e ecologia.Sachs defendeu a maior união entre os países do Hemisfério Sul. "Esses países têm de se unir para pedir mais responsabilidade de quem causa mais poluição e gasta mais recursos naturais, que são os países do Norte."A jordaniana Farah Daghistani, filha da princesa Basma Talal (irmã do rei Hussein), pregou uma mudança de mentalidade a partir da educação dos jovens. Segundo ela, as discussões em grandes encontros mundiais precisam ser traduzidas para os jovens para, com isso, tentar criar uma consciência ambiental. "E eu já tento fazer isso no meu país", disse Farah. ResponsabilidadeEm discurso, o presidente Fernando Henrique Cardoso disse que "o Brasil e a maioria dos países em desenvolvimento não aceitam que se reabram negociações sobre os princípios e conceitos consagrados na Rio-92." O presidente ressaltou a responsabilidade comum, porém diferenciada, das nações em relação à preservação ambiental. A resistência de países ricos, especialmente os Estados Unidos, em reconhecer a parcela de responsabilidade na degradação do planeta é um dos entraves nos avanços dos acordos internacionais sobre desenvolvimento sustentável."Sei das resistências que existem no plano internacional, especialmente nos Estados Unidos. Ninguém pense que também não enfrentamos dificuldades no plano doméstico", afirmou o presidente. "Os líderes políticos devem ter visão de futuro. Devem ter a coragem de enfrentar outras questões importantes relacionadas ao desenvolvimento como, por exemplo, o protecionismo e o acesso a mercados." O presidente Fernando Henrique defendeu ainda a criação de um mercado "voltado para o interesse público de salvaguardar, no plano global, padrões de sustentabilidade que a todos beneficiem. Não é esta a expressão concreta do conceito de desenvolvimento sustentável?"O ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, disse que o tema da pobreza não pode servir para esconder o fato de que são os países ricos que mais produzem poluentes e que mais colaboram com o aquecimento global. O economista polonês Ignacy Sachs, um dos primeiros a formular teorias relacionando desenvolvimento e ecologia, admitiu não estar otimista em relação ao encontro de Johannesburgo. "Acho que, se não der certo lá, temos que continuar lutando para criar um plano mundial de desenvolvimento sustentável."Ao lembrar os principais problemas ambientais do planeta, o presidente Fernando Henrique citou os que "se agravaram com a globalização", como o aumento da pobreza, das assimetrias Norte-Sul, e da deterioração geral. "O que se espera de nós é que utilizemos nossa imaginação para pôr em prática o compromisso da transformação", afirmou. O desafio para o século 21, completou, será "dar passos adiante, e não para trás."O presidente citou exemplos de medidas de preservação ambiental adotadas no Brasil, como a criação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação e do Parque Nacional Montanha do Tumucumaque, na Amazônia, composto de florestas tropicais praticamente intocadas e que será o maior parque nacional do mundo, com área equivalente ao tamanho da Bélgica. Fernando Henrique recebeu os ambientalistas para uma reunião e um jantar no Palácio da Cidade, em Botafogo, zona sul do Rio. O presidente foi surpreendido pela intervenção da jovem Ísis Lima Soares, de 15 anos, representante do projeto Cala Boca Já Morreu, de São Paulo, sobre a necessidade de crianças e adolescentes participarem das discussões sobre o tema. Ísis foi convidada por Fernando Henrique e integrará a comitiva brasileira em Johannesburgo.

Agencia Estado,

23 de junho de 2002 | 19h55

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