Doação de rim de presos causa polêmica em Congresso de Bioética

Programa do governo filipino de incentivo à doação de rins por parte de prisioneiros causou polêmica ontem no 6º Congresso Mundial de Bioética, que termina neste domingo em Brasília.O professor da Universidade da Filipinas, Leonardo Castro, disse que os presos condenados à morte eram encorajados a recompensar a sociedade pelo mal que fizeram doando o órgão.Em troca, permaneceriam vivos. A adesão ao programa, segundo Castro, é voluntária.?É uma condenação à morte indireta?, reagiu o presidente do Comitê Nacional para Bioética da Itália, Giovani Berlinguer. Para ele, o condenado não tem condições de tomar a decisão livremente porque está preso.Espanto e indignaçãoA platéia que ouvia a palestra sobre ?Doação e Transplantes de Órgãos?, formada basicamente por ocidentais, acompanhou Castro com espanto e indignação. O clima só diminuiu de tensãoquando apareceu uma pergunta escrita, indagando se era possível estender o incentivo de doação de órgãos também aos ?corruptos?. Piada de brasileiro.Neste ano, as execuções capitais foram suspensas nas Filipinas. Segundo Castro, o programa de incentivo à doação entre presos partiu da convicção de que não se deve perder um corpo saudável. A idéia ganhou força porque naquelePaís já existe uma cultura de penitências e castigos físicos durante a quaresma parareduzir os pecados.?A doação equivaleria à autoflagelação?, comparou Castro. Dentro desse cenário, Castro afirma que programa é bom ?não só para quem recebe oórgão, mas também para o doador?. Ele informou ainda que, quando o preso manifestainequívoca vontade de fazer a doação, passa antes por um processo rigoroso. Há prazo para a ratificação do pedido, a família é consultada, e uma comissão de jurídica analisa ocaso.Tráfico de órgãosDurante a congresso, o italiano Berlinguer também falou sobre o tráfico de órgãos. Ele ainda advertiu que, enquanto cientistas melhoram a técnica de transplantes, ?a mão invisível do mercado invade e explora também órgãos humanos?.Ele afirma que, quando se discute a mercantilização do corpo humano, alguns filósofos e cientistas dizem que isso não é novidade porque no mundo existem inúmeros casos de prostituição e exploração do trabalhador. Mas o bioticista observa que são os pobres que vendem os seus órgãos, os ricos são os beneficiários; o que aumenta as diferenças sociais.Todo o corpo poderá ser transplantadoCom a evolução desse mercado e da ciência, o italiano diz que se pode imaginar, no futuro, a possibilidade de o corpo, à exceção do cérebro, poder ser totalmente transplantado. O corpo original seria como a primeira casa, com a qual se guardam vínculos sentimentais, mas não seria a eterna morada.?Eu não gostaria de viver neste tipo de sociedade, em que tudo pode ser vendido e comprado?, disse.

Agencia Estado,

01 de novembro de 2002 | 19h08

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