Jônatas Abrahão / Nature Communications
Jônatas Abrahão / Nature Communications

Dois vírus gigantes são descobertos no Brasil

Batizados de Tupanvirus, eles têm os genomas mais sofisticados já encontrados entre os vírus e poderão levar a uma revisão da classificação dos seres vivos; os supervírus, que não infectam humanos, foram encontrados nos lagos salgados e alcalinos do Pantanal e nas profundezas do oceano

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2018 | 17h17

Dois novos vírus gigantes foram descobertos no Brasil, de acordo com um estudo publicado nesta terça-feira, 27, na revista Nature Communications. Os dois  espécimes - que pertencem a um novo gênero batizado de Tupanvirus - têm uma complexidade genética jamais encontrada em qualquer outro vírus, de acordo com os autores do estudo.

Tão grandes que podem ser observados em um microscópio óptico comum, os vírus gigantes não causam doenças e infectam preferencialmente as amebas, de acordo com um dos autores do estudo, Jônatas Abrahão, professor do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ao contrário de outros vírus, o Tupanvirus possui uma espécie de cauda, cuja função ainda é desconhecida.

"Como outros vírus gigantes já descobertos no passado, o Tupanvirus infecta amebas. A diferença é que ele é muito mais generalista: ao contrário dos outros, ele é capaz de infectar diferentes tipos de amebas", disse Abrahão ao Estado.

De acordo com Abrahão, as amebas estão entre os seres mais antigos da Terra, o que leva os cientistas a levantarem a hipótese de que os vírus gigantes também podem ser bastante antigos. "Olhar para a relação entre vírus gigantes e amebas equivale a olhar para o passado e entender a origem das primeiras formas de vida", explicou o cientista.

O pesquisador conta que os dois vírus foram encontrados em ambientes aquáticos extremos, em condições semelhantes às que deram origem às primeiras formas de vida na Terra. Um deles foi coletado por outro dos autores do estudo, Ivan Bergier, da Embrapa Pantanal, nas lagoas de água altamente salgada de alcalina que ficam em Nhecolândia, na região de Corumbá (MS).

"O outro Tupanvirus foi identificado em sedimentos marinhos coletados por um robô da Petrobrás a cerca de 3 mil metros de profundidade, na região da Bacia de Campos, na costa do Rio de Janeiro", disse Abrahão.

Além dos estudos biológicos, os cientistas sequenciaram os genomas completos dos dois Tupanvirus. "A coisa mais fantástica relacionado ao genoma desses vírus é a presença de um conjunto praticamente completo dos genes relacionados à produção de proteínas", afirmou o pesquisador.

Abrahão explica que até 2003, quando foi descoberto o primeiro vírus gigante, na França, não havia registro de nenhum vírus que possuísse os genes responsáveis por "montar as peças" das proteínas. 

"Com a descoberta dos supervírus, vimos que esses genes podem estar presentes nos genomas virais. Mas o Tupanvirus possui todos os genes necessários para incorporar todos os 20 tipos existentes de aminoácidos nas proteínas", disse o pesquisador.

Segundo ele, a análise genômica também mostrou que o Tupanvirus possui genes semelhantes aos que existem em vírus conhecidos e em três domínios da vida: archea, bacteria e eukarya. "Também observamos que um terço dos genes do Tupanvirus são completamente novos e desconhecido", afirmou Abrahão.

Elo perdido. O pesquisador afirma que, por todas essas características, o Tupanvirus pode ser considerado uma espécie de "elo perdido" na evolução dos microorganismos. 

"Os vírus parasitam células por duas razões. Uma é produzir proteína, utilizando a maquinaria celular para isso. A outra é produzir energia. No caso do Tupanvirus, ele não possui genes para produzir energia, mas tem quase todos os genes relacionados à produção de proteínas. Essa característica muda a noção que temos da distinção entre os vírus e os organismos formados por células", explicou.

A descoberta dos vírus gigantes, segundo Abrahão, deflagrou um debate sobre a evolução dos vírus entre os cientistas. Uma das teorias principais é que os vírus gigantes tenham evoluído a partir de um ancestral mais simples por meio da aquisição de genes de hospedeiros infectados. A outra teoria é que os ancestrais dos vírus gigantes também tenham sido ainda mais gigantescos, que foram perdendo os genes dispensáveis ao longo do tempo.

"As características básicas que permitem distinguir os vírus dos organismos celulares está sendo revista com o Tupanvirus. Alguns cientistas defendem que os vírus gigantes representam um quarto domínio da vida. Há um debate intenso sobre isso e o Tupanvirus com certeza vai colocar mais combustível nessa discussão", disse Abrahão.

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