TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Domesticação do cacau

Chocolate é uma descoberta latino-americana e não suíça, como muitos imaginam

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2018 | 03h00

O chocolate não foi inventado na Suíça. Nem em Ilhéus, como acreditam os leitores de Jorge Amado. É uma descoberta latino-americana. Quando os europeus chegaram, as populações locais, tanto da América Central quanto do Equador, já haviam domesticado o cacau. Ele também era plantado em Honduras, Guatemala e México

Até recentemente se acreditava que o cacau havia sido domesticado pelos incas e astecas na América Central. Nos sítios arqueológicos Paso de la Almada, Puerto Escondido e San Lorenzo foram achadas peças de cerâmica datadas de 3,9 mil anos atrás com desenhos de frutos de cacau, pessoas moendo e os preparando. Só muito mais tarde, mil anos atrás, populações do oeste americano aprenderam a cultivar o cacau. Com base nessas observações é que se postulou que o cacau teria sido domesticado na América Central e depois se espalhado em direção ao norte e ao sul do continente. Na Bahia, chegou por volta de 1750. Cem anos depois estava na África. Hoje ocupa 10 milhões de hectares ao redor do planeta.

Faz alguns anos geneticistas descobriram exatamente onde as espécies de cacau surgiram há milhões de anos. Geralmente a quantidade de espécies de um tipo de planta é maior nas proximidades do seu centro de origem. Contando o número de espécies que existem em cada local e a diversidade genética das espécies e variedades, os cientistas concluíram que o cacau surgiu nas florestas amazônicas do Equador, onde existem mais de dez espécies e grande diversidade genética. A biodiversidade do cacau diminui quando caminhamos do Equador para a foz do Amazonas ou para o norte. 

Em 2002 foram descobertas as ruínas de Santa Ana – La Florida (Salf), no oeste do Equador. Essas ruínas são as mais antigas da cultura maia-chinchipe e estão muito próximas ao centro de origem do cacau. Os artefatos cerâmicos encontrados em Salf datam de 5,3 mil anos atrás. O problema é que essa cultura não dominava a escrita e não foram achados vasos ou pinturas que representassem o cultivo e o uso do cacau. E aí ficou a questão: será que essas pessoas, que viviam cercadas por plantas nativas de cacau, não usavam a fruta nem tentaram domesticá-la?

Para tentar resolver o problema, os cientistas analisaram 19 artefatos cerâmicos escavados em Salf. São potes de comida, panelas e utensílios usados em rituais religiosos. A parte interior desses pedaços de cerâmica foi raspada para tentar retirar restos de comida ressecada ou carbonizada. Essas amostras, um total de 28, foram analisadas usando três tecnologias. 

A primeira consistiu em examinar os grãos de amido com um microscópio. Esses grãos têm formatos muito específicos e é possível identificar a espécie da planta que os produziu. A segunda técnica foi buscar nas amostras traços de um composto químico só encontrado em frutas de cacau, chamado theobromine. E finalmente o DNA presente nesses resíduos foi analisado para tentar identificar sequências idênticas às presentes no genoma do cacau.

Essas análises apontaram que cinco amostras continham grãos de amido de cacau. Todas as amostras tinham theobromine e 11 delas tinham sequências de DNA de cacau. Isso indica que essas cerâmicas, de 5,3 mil anos, foram usadas para coser, amassar ou assar cacau. Exatamente o que os habitantes dessa cidade faziam com o cacau não sabemos. Era alguma pasta como o chocolate, uma bebida? Infelizmente a receita não foi preservada.

Além disso, analisando o DNA foi possível determinar que o cacau cultivado na época é mais parecido com as variedades que hoje são chamadas de purus e curaray, relativamente diferentes das variedades que são cultivadas hoje em dia.

Essa descoberta demonstra que o cacau foi provavelmente domesticado no Equador, na borda da floresta Amazônica 5,3 mil anos atrás. Fica a pergunta: se o cacau foi domesticado por aqui, porque o melhor chocolate do mundo é feito na Suíça? Em outras palavras, como a América dos Sul perdeu uma vantagem competitiva conquistada 5 mil anos antes dos suíços começarem a produzir chocolate com nosso cacau? Já imagino sua resposta.

MAIS INFORMAÇÕES: THE USE AND DOMESTICATION OF THEOBROMA CACAO DURING THE MID-HOLOCEN IN THE UPPER AMAZON. NATURE ECOLOGY AND EVOLUTION. 2018

*É BIÓLOGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.