Dormir para quê?

Alguma coisa importante ocorre no nosso cérebro durante o sono, mas não sabemos o quê

Fernando Reinach *, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2017 | 03h00

Passamos quase um terço de nossa vida dormindo e ainda não sabemos o porquê. A razão para permanecermos acordados é fácil de entender. É quando buscamos e ingerimos alimentos, fazemos sexo, alimentamos e educamos os filhos, cuidamos das outras pessoas de nosso grupo e refletimos sobre a vida. Mas por que permanecemos entre seis e oito horas inconscientes, largados em algum lugar? Dormir subtrai tempo das atividades necessárias para a sobrevivência e aumenta o risco de ser atacado por um predador. Mas dormir deve ser importante, senão a seleção natural teria eliminado essa atividade.

Dormir é essencial para nossa sanidade. Se você não deixar um ser humano dormir, ele acaba enlouquecendo. Alguma coisa importante ocorre no nosso cérebro durante o sono, mas não sabemos o quê. Existem duas teorias sobre a função do sono. A primeira é que o sono restaura o funcionamento do nosso cérebro. Imagine que ficar desperto “gasta” alguma coisa em nosso cérebro e essa coisa, seja ela nutrientes ou neurotransmissores, precisa ser reposta. A segunda teoria é que o sono teria a função de processar as informações acumuladas durante o dia. Durante o sono, o cérebro processaria a informação, descartando uma parte, arrumando o resto. 

O cérebro humano é composto por 16 bilhões de neurônios (o dobro do número de pessoas que existe no planeta). Cada um desses faz milhares de conexões com outros neurônios. Essas conexões, que na verdade são minúsculos pontos de interação, são chamadas de sinapses e a informação que passa de um neurônio para outro trafega por elas. O conjunto de 16 bilhões de neurônios e os 16 trilhões de sinapses formam uma enorme rede, semelhante à internet que une nossos computadores. Tudo dentro de um único cérebro. Nas últimas décadas, cientistas descobriram que, quando aprendemos um comportamento ou memorizamos alguma informação, as interações entre os neurônios se modificam, novas sinapses se formam, outras desaparecem e a rede se modifica. 

Existem inúmeros experimentos que comprovam essa plasticidade do sistema nervoso. Do mesmo modo que levantar peso aumenta nossos músculos, usar o cérebro modifica o número e o arranjo das sinapses.

Agora, um grupo de cientistas resolveu investigar o que acontece com nossas sinapses quando dormimos. Para isso examinaram duas áreas específicas do córtex cerebral. São as que comandam nossos movimentos e recebem os impulsos vindos dos sentidos. 

Eles sacrificaram camundongos submetidos a uma rotina rígida de muita atividade durante o dia, seguida por muitas horas de sono.

Um grupo de camundongos foi sacrificado imediatamente antes de cair no sono, no fim do dia, e o outro grupo foi sacrificado um pouco antes de despertar, depois de uma longa noite de sono. Essas regiões do cérebro foram isoladas. Usando microscópios eletrônicos, os cientistas contaram o número de sinapses e mediram seu tamanho em um dado volume de cérebro. Esse é um trabalho hercúleo. Um total de 6.920 sinapses foram analisadas.

Mas valeu a pena. Os cientistas descobriram que durante as horas de sono o cérebro dos camundongos perde 18% de suas sinapses, seja porque algumas simplesmente desaparecem, seja porque elas diminuem de tamanho. Esse resultado, muito importante, demonstra que durante o dia o cérebro acumula sinapses e durante a noite perde sinapses e isso se repete todos os dias. Mas isso não quer dizer que as sinapses acumuladas durante o dia são as mesmas que são perdidas durante a noite. O que os cientistas acreditam é que essa acumulação e a perda resultam em mudanças no circuito cerebral, novas conexões. Novas memórias são formadas, outras são perdidas ou enfraquecem. 

E assim vamos aprendendo e nos modificando ao longo da vida. Provavelmente o processo de acúmulo de sinapses, por algum motivo, não pode ocorrer simultaneamente à destruição e é por isso que temos de dormir. O mais interessante é que essa descoberta sugere uma explicação dos sonhos. Eles seriam uma manifestação do processo de destruição de sinapses e reorganização de aprendizados e memórias.

MAIS INFORMAÇÕES: ULTRASTRUCTURAL EVIDENCE FOR SYNAPTIC SCALING ACROSS THE WAKE/SLEEP CYCLE. SCIENCE, VOL. 355, PÁG. 507 (2017)

* É BIÓLOGO

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