Marcos de Paula/Estadão
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É possível viver 200 anos?

A partir dos 90 anos, a taxa de mortalidade deixa de crescer exponencialmente

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2018 | 03h00

Os seres humanos estão vivendo cada vez mais. Hoje é comum encontrar pessoas com mais de 100 anos e o grupo de pessoas com mais de 105 anos está aumentando. Mas não existem casos de pessoas com mais de 130 anos. Jeanne Calment é a pessoa que comprovadamente viveu mais e morreu em 1997 com 122 anos. Mesmo que as crianças que nasceram depois do ano 2000 consigam viver além dos 130 anos, ainda estamos longe de chegar aos 200 anos.

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O que os cientistas têm debatido é se esse aumento de longevidade pode continuar indefinidamente. Se esse for o caso, em algum momento do futuro chegaremos a viver 200 anos. Mas se existir um limite para a duração de nossa vida, quando chegarmos a esse número encontraremos uma barreira intransponível. Em muitos processos biológicos essa barreira existe. Um exemplo é o tempo que conseguimos ficar sem respirar. Ao longo dos anos esse número foi crescendo, mas todos sabem que o funcionamento do corpo não permite que esse número cresça indefinidamente. O mesmo ocorre com o tempo em que conseguimos correr 100 metros, hoje ele está abaixo de 10 segundos, mas nunca chegará a 1 segundo. Outros processos biológicos parecem não ter limite. O número de gerações na história de um ser vivo parece não ter limite. Coletivamente os seres vivos batem o próprio recorde desde quando surgiram na Terra faz aproximadamente 3 bilhões de anos. Muitos argumentam que se a vida tem o potencial de ser eterna, por que não um indivíduo?

Para decidir entre essas duas possibilidades, os cientistas têm investigado como a probabilidade de morrermos varia ao longo da nossa vida. Imagine um grupo de 1 milhão de pessoas que nasceram em 1900. Se algum estivesse vivo hoje teria 118 anos (a ultima sobrevivente do século 19 a morrer foi Emma Morano, em 2017, com 117 anos). Imagine agora que todos os anos você determinasse quantas dessas pessoas morreram no ano anterior. 

De posse desse número, você poderia calcular a taxa de mortalidade desse grupo naquele ano, e se você repetisse esse cálculo a cada ano, no fim poderia saber como essa taxa varia ao longo do envelhecimento. Isso foi feito com diversos grupos de pessoas e o que foi descoberto é que essa taxa é um pouco alta nos primeiros anos de vida, mas logo cai para valores muito baixos até as pessoas atingirem 60 anos de idade. 

Sabemos que 2% dos sobreviventes desses grupos que chegaram aos 65 morrerão no ano seguinte. Quando o grupo fizer 75 anos, no ano seguinte 4% morrerão, quando o grupo fizer 85 anos 10% morrerão no ano seguinte e quando o grupo fizer 95 anos, dos sobreviventes, 20% morrerão no ano seguinte. Esses dados mostram que a sua chance de morrer no ano seguinte aumenta cada vez que você faz aniversário. E pior: a taxa cresce exponencialmente, aumenta cada vez mais rápido a medida que você envelhece. 

Quando os cientistas extrapolaram esses números, chegaram à conclusão que a probabilidade chega a 100% no ano que você fizer 125 anos, ou seja existe uma barreira intransponível por volta dos 125. É claro que se você refizer o experimento com as pessoas que nasceram em 1950 e depois com as que nasceram em 2000, você provavelmente vai observar que as mesmas taxas de morte ocorrerão cada vez mais tarde, e o limite aumentará um pouco, mas como as taxas aumentam exponencialmente, elas logo chegam a 100% e a barreira continua a existir.

A grande dificuldade desse experimento é que, apesar de ser muito fácil medir a taxa de mortalidade nos anos iniciais do experimento (quando as pessoas ainda têm 40 anos, muito mais da metade do grupo ainda está vivo), é muito difícil a medição no fim do experimento, pois o número de sobreviventes é muito pequeno (imagine que de 1 milhão que foram incluídos no grupo somente 5 ou 10 estarão vivos aos 110 anos). Além disso, em animais, onde é fácil fazer esses experimentos, os cientistas descobriram que após uma certa idade a taxa de mortalidade que crescia antes exponencialmente deixa de crescer e se estabiliza. 

A novidade é que agora os cientistas conseguiram medir com precisão como a taxa de mortalidade dos ultraidosos italianos muda nos últimos anos de vida. Para isso foram estudadas pessoas que nasceram a cada ano entre os anos 1896 e 1910. No total são 3.836 pessoas que chegaram aos 105 anos de vida. Para cada grupo foi calculada a taxa de mortalidade a cada ano de vida. 

O que os cientistas descobriram é que a partir dos 90 anos a taxa de mortalidade deixa de crescer exponencialmente, primeiro passa a crescer linearmente até os 100 anos e tudo indica que se estabiliza em 50% a partir dessa idade. Isso significa que quando uma pessoa chega aos 105 anos, ela tem 50% de chance de morrer no ano seguinte, novamente 50% no outro ano e assim por diante. Ou seja, a chance de morrer é muito alta a cada ano, mas fica estável.

Se essa descoberta for confirmada, podemos concluir que não existe uma barreira biológica para a longevidade humana. Quando cada vez mais pessoas chegarem aos 105, metade vai chegar aos 106, um quarto aos 107 e assim por diante. Ou seja, é possível de imaginar que no futuro teremos pessoas com 150 anos e talvez 200 anos. Isso não vai valer para nós, mas é uma boa história para contar para os netos. O problema, claro, e como será a vida dessas pessoas cada vez mais longevas.

MAIS INFORMAÇÕES: FULLY INTEGRATED SILICONE PROBES FOR HIGH-DENSITY RECORDING OF NEURAL ACTIVITY. NATURE, VOL. 551, PÁG. 232 (2017)

*É BIÓLOGO

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