Nasa/Divulgação
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E quando se vão os anéis de Saturno?

Cientistas sugerem que os anéis podem definhar em um futuro próximo, na escala relativa do tempo do sistema solar

The New York Times

19 de dezembro de 2018 | 04h05

Os anéis de gelo de Saturno estão entre as características mais icônicas do Sistema Solar. Mas eles estão fazendo chover tanta água no planeta que em 300 milhões de anos eles poderiam chover até extinguir a si próprios, deixando Saturno surpreendentemente sem seus anéis. "O que estamos vendo é algo em torno de uma tonelada e meia por segundo", disse James O'Donoghue, do Goddard Space Flight Center da Nasa, em Greenbelt, Maryland, que relatou as conclusões na segunda-feira no periódico Icarus.

"Os anéis de Saturno não estiveram por lá desde sempre", disse ele. "E "vão desaparecer um dia." É difícil imaginar um Sistema Solar sem os anéis de Saturno, mas acontece que eles são um fenômeno efêmero, embora majestoso. Os cientistas há muito debatem a idade e a expectativa de vida dos anéis, e no ano passado, alguns achados publicados sugerem que eles não são relíquias antigas datando do nascimento do sistema solar, há 4,5 bilhões de anos. Em vez disso, eles se formaram em torno de Saturno nos últimos cem milhões de anos - durante o tempo dos dinossauros. E agora, várias linhas de evidência estão convergindo ao sugerir que os anéis tenham um prazo de validade.

 "Os anéis de Saturno parecem ser jovens", disse Linda Spilker, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena, Califórnia, cientista do projeto da missão Cassini que estudou Saturno, que não esteve envolvido no estudo. "Talvez estejamos atravessando um interessante período de sorte no qual conseguimos ver os anéis de Saturno no nível em que os vemos."

Estendendo-se por mais de 280 mil quilômetros, as joias de Saturno ofuscam facilmente os anéis escuros e fragmentados que envolvem Júpiter, Urano e Netuno. De fato, sem seus acessórios gelados, Saturno pareceria chato e bege comparado a alguns dos outros gigantes gasosos. O'Donoghue e seus colegas sugerem que os anéis podem definhar em um futuro próximo, na escala relativa do tempo do sistema solar. No início deste ano, a equipe analisou detalhadamente as medições de uma molécula carregada encontrada na parte superior da atmosfera amarelada de Saturno, usando o telescópio Keck II no Havaí em 2011.

A molécula, H3 +, é composta de três átomos de hidrogênio (menos um elétron). É criada em abundância quando minúsculas partículas carregadas escapam do anel C de Saturno, disparam em direção ao planeta ao longo das linhas do campo magnético e colidem com átomos atmosféricos no que é chamado de chuva do anel. Depois de medir a quantidade de H3 + na atmosfera superior de Saturno, O'Donoghue e sua equipe concluíram que uma tonelada e meia de água está caindo em Saturno a cada segundo.

Presumindo que uma taxa constante de chuva de anel - que, segundo Spilker, é um substancial desconhecido - a equipe calculou que os anéis de Saturno poderiam  praticamente se desfazer em um período de 300 milhões de anos. "Não está fora de questão, eu diria, que os anéis possam se degradar nesse tipo de escala de tempo", disse Jeff Cuzzi, do Centro de Pesquisa Ames da NASA em Moffett Field, Califórnia, que não esteve envolvido na pesquisa. Mas, acrescentou, "isso não significa que, se você voltar, simplesmente não haverá nada lá".

A taxa na qual os anéis podem se dissipar depende não só de quanto material ainda há nos anéis, mas de outras forças físicas, como as mudanças de estações de Saturno e da maneira pela qual o material do anel é reabastecido. Uma pesquisa recente usando dados da sonda Cassini, que transitou por Saturno e suas luas por mais de uma década, dá sustentação à estimativa de chuva de anel do grupo. Antes que Cassini fizesse um mergulho fatal e impetuoso em Saturno em setembro de 2017, completou uma ousada série de circuitos entre o planeta e seus anéis.

A espaçonave fez um censo das partículas encontradas que estavam caindo em direção ao planeta; A quantidade de chuva que Cassini pegou é "completamente consistente" com as medições de O'Donoghue, disse Spilker. Mas a Cassini também constatou que uma quantidade colossal de moléculas orgânicas e gelo de água (da ordem de quase dez toneladas por segundo) estão caindo no equador do planeta através de um processo potencialmente transitório que poderia ajudar a acelerar o desaparecimento dos anéis.

Isso pode significar que os anéis podem desaparecer ainda mais cedo, em menos de 100 milhões de anos, disse O'Donoghue. Embora Cuzzi esteja cético em relação ao cronograma do novo estudo, ele concorda que é provável que os anéis se degradem graciosamente à medida que o sistema solar amadurece. "Não acho que seja irracional, com todos esses números tão elevados, que tenhamos que considerar seriamente que os anéis não estarão por perto para sempre", disse ele./Tradução de Claudia Bozzo

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