'É um fato tão novo que pode mudar muito a Igreja'

Veterano em cobertura da Santa Sé, jornalista não afasta a hipótese de uma conspiração estar por trás da renúncia de Bento XVI

Vinicius Neder, de O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2013 | 22h02

RIO - "É um fato tão novo e tão revolucionário que pode mudar muita coisa na Igreja", disse ao Estado o escritor e jornalista espanhol Juan Arias, sobre a renúncia de Bento XVI. Arias acompanhou o Concílio Vaticano II, na década de 1960, pelo agora extinto jornal Pueblo, de Madri, e passou 14 anos em Roma por El País. Autor de O Grande Segredo de Jesus, é correspondente de El País no Rio há 14 anos.

Como essa renúncia pode ser avaliada?

É um fato histórico. O primeiro papa que renuncia na normalidade do papado é este. O fato é tão novo e tão revolucionário que pode mudar muita coisa.

Que mudanças práticas poderia haver?

Em primeiro lugar, cai o tabu de que o papa tem de ser papa até o fim. Na sucessão, seguramente haverá muita influência de Bento XVI. Será a primeira vez na história que se vai nomear um papa com outro ainda vivo. Que influência ele terá no conclave? Não temos como saber, porque é inédito.

Como o sr. acha que ele vai influenciar?

Essa é a grande incógnita. Se ele fizer o que diz o comunicado, que ele vai continuar ajudando a Igreja no silêncio da oração, e não mantiver contato com os cardeais, aí terá uma influência indireta. Mas se ele for recebendo os cardeais nos 15 dias antes do conclave, falando com eles, aí é diferente.

Pelo perfil dele não é possível imaginar o que fará?

Ele é o papa mais conservador destes últimos tempos. Foi um grande inquisidor, acabou com a Teologia da Libertação e - justo ele - faz o gesto mais progressista da história da Igreja. Em primeiro lugar, ele é um grande político. Tão político que fez tudo no conclave anterior para ser eleito. Não sei até que ponto renunciou a sua face política com esse gesto.

As questões de saúde são motivo suficiente para a renúncia?

O papa João Paulo II estava muito pior e não renunciou. Pode ser alguma outra coisa. Parece que esses escândalos relacionados ao mordomo (Paolo Gabriele, mordomo de Bento XVI que foi julgado e condenado pela acusação de vazar documentos confidenciais do Vaticano) estariam relacionados à conspiração de um grupo dentro da Cúria Romana, preparando já um sucessor. Eles querem a volta de um papa italiano. Pode ser que ele quisesse desmascarar isso.

Pode ser um papa mais jovem?

Todo cardeal tem aspiração a ser papa. Um papa muito jovem, como (foi ao assumir o posto) João Paulo II, quando ele morreu parece que vários cardeais falaram: "Basta, é a última vez que colocamos uma papa jovem". Mas pode ser que não seja alguém de 80 anos.

É a hora de um papa de fora da Europa, latino-americano ou africano?

Isso não é garantia de abertura ou progressismo. Pode ser um papa latino-americano mais conservador do que todos os europeus juntos. Já conheci cardeais africanos que se envergonhavam de ser africanos e se apresentavam como europeus.

O novo papa deverá vir à Jornada da Juventude, no Rio?

Acredito que, dado que já está tudo adiantado, ele não vai renunciar a vir.

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