Efeitos são diferentes em cada região

Na Amazônia, segundo José Antônio Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), existe um aumento claro de temperatura, por exemplo, em Manaus, mas as mudanças no nível de precipitação são mais difíceis de detectar. ?Há um aumento de chuvas na região, principalmente em 1995, mas ainda é um período muito curto para se falar em mudança climática?. Isoladamente, porém, pode-se verificar que o desmatamento na Amazônia produz climas mais quentes e secos.Marengo explica que os cenários propostos pelo IPCC são mais consistentes em relação à temperatura, pois todos os estudos apontam para um aquecimento sistemático. Mas as conseqüências sobre as chuvas ainda são incertas. ?Para a região oeste da Amazônia, alguns modelos apontam para climas mais úmidos e outros para climas mais secos?.Esses cenários sugerem, porém, um aumento da suscetibilidade aos fogos florestais em largas áreas da Amazônia. Estiagens mais freqüentes, em especial durante o auge do período chuvoso, entre março e maio, devem reduzir o alagamento sazonal da floresta, como na região de floresta inundada de Mamirauá.Bacia do PrataO professor Carlos Tucci, da UFRGS, lembra que as questões climáticas são complexas e não lineares, são um combinação de vários fatores difíceis de serem separados. Assim, a variabilidade climática é um fenômeno natural, enquanto as mudanças climáticas são antrópicas e podem ser globais (efeito estufa) ou locais (urbanização, desmatamento etc.).?Na Bacia do Prata - tanto nos rios Paraguai e Uruguai como no Paraná -, verificamos um aumento de vazão a partir dos anos 70. É difícil precisar o quanto desse aumento deve-se a um aumento na pluviosidade e o quando deve-se a outros fatores, como desmatamento e agricultura. Temos, porém, indicadores mostrando que, enquanto aqui aumentou a vazão, na África ela diminuiu no mesmo período?, diz Tucci.Segundo o especialista, as conseqüências dessas mudanças foram maior produtividade agrícola na Bacia do Prata e menor na África. Além disso, esse maior volume de água nos rios aumentou a produtividade das usinas hidrelétricas, como Itaipu. ?Caso isso não tivesse acontecido, o racionamento de energia poderia ter acontecido antes ou ter sido muito pior?.Para Tucci, esses fenômenos mostram o quanto somos frágeis ao ambiente e como eles impactam a população. ?O aumento do calor nas grandes cidades é outro indicativo. Em Porto Alegre, detectamos uma tendência também de maior precipitação, o que terá um impacto direto nos investimentos necessários para o escoamento da água?. NordesteO impacto da variabilidade climática sobre os recursos hídricos no Brasil deverá ser mais dramático, porém, no Nordeste, onde a escassez de água já é um problema. Atualmente, a disponibilidade hídrica per capta na região é insuficiente nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, sem contar a variação regional, que torna a situação ainda mais insustentável para os 8 milhões de habitantes do semi-árido.?O aumento da temperatura deverá aumentar a evaporação da água e, ao mesmo tempo, a demanda para consumo humano e para irrigação. Isso tudo, sem contar as alterações provocadas pela ocupação da região, como assoreamento, desmatamento e perda de qualidade da água?, diz Joaquim Gondim, da Agência Nacional de Águas (ANA).Estudos realizados pela Embrapa Semi-Árido revelam que as chances dos agricultores colherem boas safras são de três anos em dez na região. Em quatro anos, a produção cai num percentual muito elevado e, em três, as perdas são quase totais. Nesse anos de secas mais intensas, o PIB agrícola da região chega a sofrer uma redução de 60%. Segundo Gondim, isso mostra a importância de mais estudos e ações para se antecipar ao que está por vir.

Agencia Estado,

18 de setembro de 2002 | 16h39

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