Eficácia de genéricos é questionada por técnicos

A reunião para discutir as metas do Programa de Reestruturação dos Hospitais de Ensino do Sistema Único de Saúde (SUS), nesta quarta-feira no Ministério da Saúde, terminou com um sério questionamento sobre a eficácia dos remédios genéricos e similares no país. "Há muitas reclamações e nenhuma pesquisa para avaliar a eficácia dos medicamentos", disse Edson Keiji Yamamoto, assessor e representante da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo e do Conselho Nacional de Secretários estaduais.Embora não exista pesquisa sobre o assunto, ele levantou a hipótese de que a população está sofrendo prejuízos ao consumir remédios que podem não estar produzindo efeito. A denúncia foi reforçada por outro participante da reunião. "Tem gente morrendo por causa da qualidade dos antibióticos", afirmou o presidente da Associação Brasileira de Hospitais Estaduais e Municipais, Francisco Souza.Yamamoto explicou mais tarde que só na hora em que pretendem obter o registro dos medicamentos junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) os laboratórios apresentam os resultados de testes de bioequilvalência e biodisponibilidade, que apontam a composição dos remédios e o suposto efeito deles no tratamento às doenças. Alguns são resultado de pesquisa feita em outros países e não levam em conta as diferenças biológicas de uma população miscigenada, como a brasileira. "Depois do registro, os remédios entram no mercado e não há mais nenhum tipo de acompanhamento. O que se ouve de médicos e pacientes é que os genéricos e similares não estão produzindo o efeito necessário. Diante das reclamações, os médicos voltam a prescrever os remédios de marca", diz Yamamoto.Além de levantar dúvidas sobre a credibilidade de medicamentos que entraram no mercado a preços mais acessíveis para facilitar a vida da população de poder aquisitivo mais baixo, a suspeita pode implicar também em graves problemas de saúde pública. "Quando se consome um remédio que não produz efeito necessário no combate a determinada doença, a bactéria que a provocou cria resistência ao antibiótico aplicado", disse Yamamoto. "É preciso avaliar a capacidade de ação dos genéricos e similares", acrescenta Francisco Souza.PesquisasA suspeita foi levantada no momento em que o diretor de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, Reinaldo Guimarães anunciava a criação de 12 centros de pesquisa clínica em hospitais universitários, a primeira iniciativa do governo para se contrapor ao poder dos laboratórios estrangeiros, que atualmente dominam esse setor na área de acompanhamento dos remédios. Em convênio com os ministérios de Educação e Ciência e Tecnologia, serão investidos R$ 29, 2 milhões nas instalações físicas, equipamentos e recursos humanos.Segundo Guimarães, há atualmente cerca de 15 mil protocolos médicos sendo executados em 20 centros de pesquisas clínicas concentrados nas regiões Sul e Sudeste, sob controle total da indústria farmacêntica multinacional. Os médicos ou dirigentes de instituições, públicas ou privadas, bancados financeiramente pelos laboratórios, cumprem apenas um papel caudatário, realizando um trabalho sob encomenda e sem qualquer retorno de informação aos bancos de dados do Sistema Único de Saúde (SUS)."Os laboratórios pagam ao pesquisador entre US$ 3 a US$ 5 mil por paciente e base de dados fica fora do Brasil", afirma Guimarães. Segundo ele, há até suspeitas de desvios éticos na relação entre pesquisador e laboratórios.O Ministério da Saúde vai aplicar este ano R$ 150 milhões na contratação de novos hospitais para melhorar a rede de atendimento pelo SUS. Dados oficiais apontam que existem atualmente 147 instituições consideradas hospitais de ensino, das quais, 75 (51%) são públicas. Juntos, os hospitais destinam 39,9 mil vagas de internação para o SUS _ ou 10,3% dos leitos brasileiros _ e 4,8 mil leitos de UTI. Desde que o programa de reestruturação começou, 182 hospitais já solicitaram autorização para operar na rede de ensino. Destes, 73 receberam certificados, 12 foram provisoriamente eliminados por não preencher os critérios _ mas podem voltar a pleitear _ e 30 assinaram termo em que se comprometem a se ajustar às normas em seis meses. O restante ainda será avaliado. A coordenadora de Atenção Hospitalar do Ministério da Saúde, Elaine Lopez disse que a meta do programa este ano é intensificar a fiscalização do desempenho dos hospitais.

Agencia Estado,

09 de março de 2005 | 18h17

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.