Carlos Nogueira
Carlos Nogueira

Elevação do nível do mar trará custos de US$ 14 trilhões por ano a partir de 2100

Cientistas britânicos calcularam prejuízos econômicos produzidos por inundações costeiras caso o aquecimento global ultrapasse os 2°C estabelecidos pelo Acordo de Paris

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 20h00

Deixar de cumprir as metas do Acordo de Paris para o aquecimento global causará uma elevação ainda maior do nível dos oceanos e, de acordo com um novo estudo feito por cientistas britânicos, isso terá consequências econômicas devastadoras. De acordo com a pesquisa, se a temperatura média da Terra subir acima de 2°C, as inundações produzidas pelo avanço dos oceanos causarão prejuízos globais de US$ 14 trilhões por ano a partir de 2100.

+ Elevação de 10 cm no nível do mar poderá dobrar inundações costeiras

O Acordo de Paris,  estabelecido em 2015, determina que os 195 países signatários se esforcem para conter o aquecimento global a menos de 2°C até o final do século, com tentativas de atingir uma meta mais ambiciosa de limitar o aquecimento a 1,5°C, em comparação aos níveis pré-industriais. 

A pesquisa liderada por cientistas do Centro Oceanográfico do Reino Unido foi publicada nesta terça-feira, 3, na revista científica Environmental Research Letters. Os resultados do estudo sugerem que o Brasil estará entre os países que sofrerão maiores prejuízos, por conta das suas características geográficas e econômicas.

De acordo com a autora principal do estudo, Svetlana Jevrejeva, os países mais prejudicados pelos custos das inundações são os que estão localizados em regiões tropicais - onde as marés extremas serão mais frequentes - e os que estão abaixo da categoria de "países de renda média-alta" na classificação do Banco Mundial. O Brasil se encaixa nos dois casos.

"Mais de 600 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras de baixa elevação, que estão a menos de 10 metros acima do nível do mar. Um clima mais quente fará o nível global dos oceanos aumentar por conta do derretimento das geleiras e da expansão térmica das águas oceânicas. Assim, a elevação do nível do mar é um dos aspectos mais danosos do aquecimento global", disse Svetlana.

No estudo, os cientistas estudaram o ritmo e as consequências da elevação do nível dos oceanos - em nível global e regional - com o aquecimento restrito a 1,5°C e a 2°C. Os resultados foram comparados às projeções de aquecimento caso não haja nenhuma mitigação das emissões de carbono para conter o aquecimento global.

Utilizando as classificações dos níveis de renda dos países estabelecidas pelo Banco Mundial  - alta, média-alta, média-baixa e baixa - eles avaliaram o impacto da elevação dos oceanos em áreas costeiras a partir de uma perspectiva global, a partir de modelagens computacionais. Para isso, foi utilizado o modelo de Avaliação Dinâmica Interativa de Vulnerabilidade (Diva, na sigla em inglês), uma ferramenta desenvolida para avaliar as consequências biofísicas e socioeconômicas da elevação dos oceanos, que leva em conta vários impactos, incluindo erosão de praias e inundação costeira.

"Nós concluímos que, com uma trajetória de elevação da temperatura de 1,5°C, em 2100 os oceanos subirão em média 52 centímetros - o que é o melhor cenário possível. Mas, se a meta de 2°C for ultrapassada, teremos uma elevação média dos oceanos de 86 centímetros. No pior caso - se não houver nenhuma medida de mitigação das emissões -, a elevação será de 1,8 metro", explicou Svetlana.

"Caso os oceanos subam 86 centímetros até 2100, sem iniciativas de adaptação às inundações, os custos aumentarão US$ 14 trilhões por ano a partir daí. Se não houver mitigação do aquecimento e a elevação do nível do mar chegar a 1,8 metro, no pior cenário previsto, os custos poderão chegar a US$ 27 trilhões por ano - o que será equivalente a 2,8% do PIB global em 2100", disse a pesquisadora.

Segundo Svetlana, os resultados indicam que será preciso colocar mais ênfase nos esforços para mitigar a elevação das temperaturas globais. De acordo com ela, haverá também diferenças nos níveis de inundações costeiras de acordo a posição geográfica dos países, já que as áreas tropicais terão elevações extremas do nível do mar com mais frequência, com o aumento de ressacas e tempestades.

"Esses níveis extremos de elevação dos oceanos terão um efeito negativo nas economias de nações em desenvolvimento costeiras, prejudicando a habitabilidade de áreas costeiras mais baixas. Países insulares e pequenos, como as Maldivas, serão fortemente afetados, e as pressões em seus recursos naturais e ambientais serão ainda maiores."

Impactos do aquecimento. Uma pesquisa realizada por cientistas americanos e publicada na revista Nature em maio deste ano previa que se o aquecimento global for limitado a 1,5°C, em vez de 2°C até 2100, isso representaria uma economia de US$ 20 trilhões. 

A pesquisa mostrava que, se a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris for cumprida, 71% dos países, onde vive 90% da população global, teriam 75% de chance de uma redução dos danos econômicos. Mas se  o aquecimento passar dos 2°C , os prejuízos podem atingir mais de 15% da produção econômica do mundo, por conta do aumento nos gastos para lidar com eventos extremos, queda da produtividade agrícola e impactos nos sistemas de saúde pública.

Os pesquisadores americanos, porém, admitiam que o estudo pode ter subestimado os custos totais de elevações maiores do aquecimento global, especialmente se houver transformações catastróficas como o rápido derretimento das geleiras na Groenlândia ou na Antártica, ou se eventos climáticos extremos  como ondas de calor e enchentes se intensificarem muito além das variações registradas em observações históricas.

Um outro estudo americano publicado na revista PNAS, também em maio de 2018, avaliou a relação entre o aquecimento global e a ocorrência de surtos de dengue na América Latina. Os cientistas concluíram que limitar  o aquecimento global a 2°C poderia evitar  2,8 milhões de casos de dengue por ano até o fim do século no continente. Segundo a pesquisa, um limite de aquecimento de 1.5°C representaria uma redução 3,3 milhões de casos anuais até 2100 em território latino-americano, sendo 1,4 milhão só no Brasil.

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