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Em autobiografia, Sobel revela episódio do furto de gravatas

Livro, com tiragem de 30 mil exemplares e prefácio de FHC, também traz trajetória religiosa e política do rabino

José Maria Mayrink, de O Estado de S.Paulo,

25 de março de 2008 | 18h45

Dos 30 capítulos de Um Homem Um Rabino, lançado nesta terça-feira, 25, quatro relembram o episódio em que se envolveu o autor, Henry Sobel, exatamente um ano atrás, em Miami, onde passou uma noite na cadeia, por ter roubado quatro gravatas em duas lojas de Palm Beach. A história é conhecida, aquela versão de que ele estava sob efeito de comprimidos e, por isso, não sabia o que estava fazendo.   Sobel narra em sete linhas o flagrante do furto:"Lembro-me de que entrei numa loja, saí...entrei na segunda loja e não me recordo de mais nada. Apenas de uma policial, de bicicleta, que me abordou depois na avenida. A gravação da câmera de segurança, que mais tarde foi exibida pela TV, revelou que eu apanhei quatro gravatas sobre o mostrador, pus no bolso e saí andando na direção do carro. No total, as gravatas custavam perto de setecentos dólares, bem menos do que eu tinha comigo, três mil dólares que tirei do banco para pagar uma dívida com um amigo".   Não era a primeira vez. "Em 1985, na mesma cidade da Flórida, no mesmo centro comercial, apanhei uma gravata e saí sem pagar. Fui barrado por um segurança na porta, paguei a gravata e não houve conseqüências - nem fotografias." Em março de 2007 foi diferente. Primeiro na internet, depois em toda a imprensa, a imagem de um rabino assustado, cabelos desalinhados, sem óculos e sem kipá, estarreceu os amigos e revoltou a diretoria da Congregação Israelita Paulista (CIP), onde Sobel trabalhava.   "Quem sou eu? O rabino que ficou conhecido em todo o Brasil pelo sotaque norte-americano forte, a kipá vinho e a dedicação à defesa dos direitos humanos? Um religioso que se dedicou a aproximar a comunidade judaica dos brasileiros de todos os credos? Ou um malandro que rouba gravatas?" As 320 páginas desta autobiografia, lançada pela Ediouro, com tiragem de 30 mil exemplares, responde a essas indagações do autor. "Este livro não é apenas um mea-culpa onde cabível, mas é uma expiação pública", afirma o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no prefácio.   Se "Sobel sabe que errou algumas vezes", como acrescenta o ex-presidente, caberá aos leitores, judeus e não judeus, assim espera o rabino, fazer o seu próprio julgamento. A CIP já fez. "Não adianta dourar a pílula. Minha saída da Congregação em que trabalhei por 37 anos é fruto direto do caso de Palm Beach", reconhece Sobel depois de ter declarado à imprensa que seu afastamento não tinha relação com o caso das gravatas. Recebeu uma boa indenização, ganhou o título de rabino emérito, mas vai carregar seqüelas pelo resto da vida.   O caso das gravatas é um episódio marcante, que abre e encerra o livro, mas isolado. Nos capítulos intermediários, Sobel descreve a sua trajetória religiosa e política, uma história que se mistura com os principais acontecimentos do Brasil desde que ele desembarcou em São Paulo, em 1970. Filho de judeus de tradicional ortodoxia - "pai culto e talmúdico, mãe terna e alegre" - optou pela linha liberal que marcaria sua carreira. O perfil de homem aberto ao diálogo e chegado à mídia lhe rendeu simpatias, mas também resistência na comunidade.   O rabino recorda sua participação nos protestos contra o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, registra sua resistência às arbitrariedades da ditadura militar e reafirma o apoio que sempre deu à defesa dos direitos humanos. No diálogo com outras religiões, destaca suas boas relações com a Igreja Católica, especialmente com os cardeais d. Paulo Evaristo Arns e d. Cláudio Hummes, arcebispos eméritos de São Paulo. Ao falar do episódio Herzog, uma falha: a omissão do nome de José Mindlin, então secretário estadual de Cultura, que, como chefe imediato do jornalista, denunciou ao presidente Ernesto Geisel que ele havia sido torturado e morto na prisão.   Ao falar dos casamentos que presidiu - mais de dois mil, pelos seus cálculos - revela uma indiscrição de Marta Suplicy na cerimônia em que abençoou, em 2003, a união da ministra com Luís Favre, "nome de guerra dos tempos de militância clandestina de Filipe Wermus". Ao final, "a noiva se aproximou e me disse baixinho, em tom de cumplicidade: Rabino, dessa vez encontrei o judeu de minha vida..."   Embora surpreenda pelas suas posições tradicionais em relação a algumas questões religiosas (ele se define ao falar sobre aborto, homossexualismo, fidelidade e eutanásia, por exemplo), Sobel é compreensivo diante de situações concretas. Não gostou quando a filha única, Alisha, lhe contou que seu namorado não é judeu, mas nunca pressionou para que ela rompesse o namoro.

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