Rui Seabra / Unesp
Rui Seabra / Unesp

Em lhamas, pesquisadores brasileiros buscam um tratamento contra o coronavírus

Animais imunizados contra o coronavírus produzem anticorpos que, em laboratório, se mostraram capazes de neutralizar o vírus; pesquisa da Unesp tenta transformá-los em um produto que possa tratar a doença

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2020 | 15h00

SÃO PAULO - Como ainda não existe uma vacina contra o coronavírus, que tal usar os anticorpos produzidos por lhamas e outros camelídeos (como camelos, alpacas, vicunhas e dromedários) contaminados com o vírus para tratar os seres humanos?

Resumidamente, essa é uma inusitada linha de pesquisa que está sendo perseguida em alguns países, entre eles o Brasil. Cientistas da Unesp de Botucatu já estão com um projeto desenhado para não somente desenvolver esses anticorpos, como produzi-los se eles se mostrarem realmente efetivos para combater a covid-19 em humanos.

A premissa é que lhamas e outros camelídeos – diferentemente de humanos e outros animais – desenvolvem um tipo de anticorpo menor, um nanocorpo (do tamanho de um nanômetro, o equivalente à bilionésima parte de um metro), que pode ser manipulado com muito mais facilidade, purificado e reproduzido em laboratório para a formulação de um medicamento.

Hoje esses nanocorpos já são usados, por exemplo, em remédios para doenças neurodegenerativas e eles têm sido investigados como potencial terapêutico contra outros vírus, como HIV e influenza. A expectativa é que eles poderiam servirupara também combater o coronavírus Sars-CoV-2, o causador da covid-19.

Na semana passada, um grupo de pesquisadores da Bélgica, dos Estados Unidos e da Alemanha publicou um artigo na revista científica Cell descrevendo experimentos in vitro que avaliaram exatamente essa possibilidade. 

Eles imunizaram uma lhama, que foi batizada de Winter (inverno, em inglês), com uma mistura da proteína spike do coronavírus – aquela pontinha da coroa que faz com que o vírus consiga entrar na célula dos hospedeiros. Algum tempo depois o animal começou a produzir os nanocorpos, que foram então extraídos e testados contra o coronavírus em laboratório. O estudo revela que eles foram capazes de neutralizar o vírus.

“Esses resultados são importantes, mas ainda é uma pesquisa básica, feita in vitro. Nossa proposta é desenvolver um medicamento que possa ser levado para ensaios clínicos (com humanos) em dez meses”, disse ao Estado o veterinário Rui Seabra, pesquisador do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da Unesp (Cevap), e coordenador do estudo.

O projeto já foi desenhado em parceria com o Instituto Vital Brazil e a Fundação Ezequiel Dias, que possuem fábricas que poderiam colocar o medicamento em produção caso ele venha a se mostrar bem sucedidos nos testes clínicos. Também participam o Instituto Biológico de São Paulo e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Seabra explica que o princípio é o mesmo usado há mais de um século para o desenvolvimento de soros contra picadas de cobras ou de abelhas, por exemplo, em que cavalos são inoculados com o veneno e produzem anticorpos que depois são usados em humanos. Nesses casos, são necessários diversos animais para produzir a substância que é aplicada diretamente nas pessoas.

No caso das lhamas, o anticorpo produzido é menorzinho, o que torna mais fácil purificá-lo e testá-lo contra o vírus, podendo ser replicado posterioamente.

“Uma vacina faz com que o organismo humano seja capaz de produzir anticorpos contra a doença. A gente vai ‘vacinar’ as lhamas para que elas produzam os anticorpos que a gente quer. O soro, se der certo, já age já como um tratamento”, afirma Seabra.

Os pesquisadores estão trabalhando nessa formulação que será inoculada em duas ou três lhamas. Uma parte de vírus isolados de pacientes brasileiros será usada para isso, a exemplo do que foi feito na Bélgica. 

Cerca de dois meses após essa etapa, os anticorpos serão colhidos e purificados. Um pedaço dele é extraído e é feita uma síntese orgânica do material. “O animal produz vários anticorpos. Vamos testar quais neutralizam mais o vírus para podermos clonar. Isso então é expresso em bactérias que podem transportar o material”, explica o pesquisador. Veja esquema ilustrativo sobre a pesquisa abaixo.

O grupo aguarda o resultado de dois editais, do Ministério da Saúde e do Ministério da Ciência e Tecnologia, para receber recursos para o estudo, mas a expectativa é iniciá-lo em 15 de junho, o que deve fazer com que o produto chegue a testes clínicos somente no ano que vem. 

“Mesmo se for possível ter uma vacina até lá, ela vai imunizar uma grande parte da população, mas uma parcela ainda vai adoecer e precisar de tratamento eficaz, o que também não temos hoje. Outra possibilidade é que o soro possa ser usado de uma maneira profilática nos profissionais que estão expostos, como os profissionais da saúde”, diz.

“A pesquisa básica da Bélgica nos mostra que ele é eficaz in vitro. Logicamente na hora que colocar no corpo humano pode não ter uma percentagem de neutralização grande. Os estudos vão mostrar qual é a melhor dose para cada tipo de paciente, se há diferença de dose para pacientes graves ou com sintomas iniciais”, explica.

O trabalho também tem o objetivo de desenvolver essa tecnologia hoje inexistente no Brasil. O País tem uma ampla experiência na produção de anticorpos, mas ainda não de nanocorpos. Com a parceria com os laboratórios públicos, a ideia é ter uma estrutura montada para fabricação desse produto, inclusive contra outras doenças no futuro.

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