Tha New York Times
Tha New York Times

Em manuscrito antigo, as raízes ocultas da medicina

Cientistas estudam mais antiga cópia conhecida de texto de Galeno

Mark Schrope, The New York Times

03 Junho 2015 | 03h00

Na primeira vez que Grigory Kessel segurou o manuscrito antigo, cujas páginas de couro animal tinham mais de mil anos, ele sentiu certa familiaridade.

Estudioso da linguagem na Universidade Phillips, de Marburg, Alemanha, Kessel estava sentado na biblioteca do dono do manuscrito, um rico colecionador de materiais científicos raros de Baltimore. Naquele momento, Kessel percebeu que, três semanas antes, em uma biblioteca da Universidade Harvard, ele tinha visto uma página órfã que era demasiadamente semelhante ao manuscrito para se tratar de mera coincidência.

O manuscrito em suas mãos continha uma tradução de um antigo e influente texto de Galeno de Pérgamo, médico e filósofo greco-romano que morreu no ano 200. Faltavam algumas páginas e, subitamente, Kessel se convenceu que uma delas estaria em Boston.

A intuição de Kessel em fevereiro de 2013 marcou o início de uma caçada global em busca das demais páginas perdidas, que chegou ao fim em maio com a digitalização da última página redescoberta em Paris.

Os estudiosos estão apenas começando o trabalho com o texto, a mais antiga cópia conhecida 'Sobre as misturas e poderes das drogas simples', de Galeno. É possível que o documento proporcione um novo entendimento das raízes da medicina e da difusão dessa nova ciência pelo mundo antigo.

"O texto é importante em muitos níveis", disse Peter Pormann, especialista em cultura greco-árabe da Universidade de Manchester que agora lidera um estudo do documento.

O manuscrito que Kessel segurou naquele dia era um palimpsesto: um texto anterior coberto por escrita mais recente. A prática era comum séculos atrás, uma forma medieval de reciclagem. Nesse caso, escribas sírios do século 11 tinham apagado o texto médico de Galeno e escrito sobre ele hinos e cânticos no mesmo couro.

O próprio livro de hinos e cânticos é interessante, mas, por enquanto, é o texto original, praticamente invisível a olho nu e conhecido como subtexto, que ativou a imaginação dos estudiosos.

Durante séculos, o texto '..drogas simples', de Galeno, foi leitura obrigatória para os aspirantes a médicos, a encarnação do conhecimento antigo da medicina, dos cuidados com os pacientes e plantas medicinais. Galeno descreveu a goma de uma árvore árabe como cura para a "irritação na garganta" e recomendou o cânhamo como remédio para a dor de ouvido "que não provoca flatulência" (embora pareça "fazer secar o sêmen").

Boa parte de .'..drogas simples' acabou traduzida para o siríaco, forma do aramaico usada pelas comunidades cristãs do Oriente Médio. O subtexto do manuscrito de Baltimore, que provavelmente data do século 9, é uma cópia da primeira tradução para o siríaco, duramente concluída no século 6 por Sergius de Reshaina, padre e médico siríaco.

"Hoje em dia, traduzir de um idioma para o outro não parece algo tão especial, mas, na época, tratava-se de um grande feito", disse Kessel. "Foi necessário criar um vocabulário, e encontrar palavras do siríaco correspondentes a esse léxico medicinal em grego."

No século 6, os cristãos de língua siríaca se espalhavam da Turquia para o leste, em direção à Síria, Iraque e Irã. Precisavam de traduções do trabalho dos estudiosos de língua grega, em parte para ajudar no trabalho missionário como a administração de hospitais.

'Drogas simples' era uma obra considerável, um tratado em 11 volumes. As traduções de Sergius do texto de Galeno foram copiadas e recopiadas durante séculos, e acabaram se tornando uma ponte para a difusão da experiência médica dos gregos antigos para as sociedades islâmicas. Os textos em siríaco eram muito mais fáceis de traduzir para o árabe do que o grego.

Conforme a influência islâmica cresceu no Oriente Próximo e Médio, as populações cristãs foram diminuindo, e o siríaco caiu em desuso.

"As grandes culturas cristãs que usavam essa língua sofreram muito", disse Columba Stewart, diretora executiva do Museu e Biblioteca de Manuscritos Hill, de Collegeville, Minnesota.

"Quando chegamos aos estudiosos modernos, essas antigas culturas siríacas são apenas um vestígio daquilo que foram - muitas vezes consideravelmente isoladas da cultura ocidental, de modo que as conhecemos pouco."

Leitura reveladora. Pouco se sabe da história do manuscrito em Baltimore, conhecido formalmente como Palimpsesto Siríaco de Galeno, desde a sua reciclagem no século 11 até os anos 1920, quando foi vendido a um colecionador particular na Alemanha. Depois disso, o manuscrito voltou a desaparecer das vistas do público até 2002, quando foi comprado por um colecionador em uma venda particular. Sua identidade não foi revelada ao público.

Em 2009 o Palimpsesto de Galeno foi enviado ao Museu de Arte Walters para a digitalização de suas folhas a ser realizada por um grupo independente de especialistas, processo que revelaria o subtexto grego de Galeno que tinha sido apagado. Cada página foi fotografada em altíssima resolução, com luzes de diferentes cores e intensidades, que iluminam as tintas, vincos da escrita e o próprio couro. Algoritmos de computador exploram essas variações para aumentar a visibilidade do subtexto.

As imagens resultantes foram colocadas na internet sob a licença "creative commons", o que significa que qualquer um pode usar o material gratuitamente para finalidades não comerciais. Depois que as imagens chegaram à rede, William Noel, que era curador de manuscritos e livros raros no museu, começou a organizar os membros da pequena comunidade de estudiosos dos textos científicos em siríaco para analisar o novo material.

Um deles era Kessel, que recebia bolsa de pesquisas da Biblioteca de Pesquisa Dumbarton Oaks de Harvard, em Washington. Finalmente, o engenheiro Mike Toth, responsável pelo sistema de imagem digital, conseguiu para ele uma ocasião para ver o Palimpsesto de Galeno com os próprios olhos.

"Não conseguia nem mesmo imaginar a aparência do documento", disse Kessel. "Então, quando vi o manuscrito, senti uma espécie de déjà vu, como se já o tivesse visto. E então lembrei do fólio solitário na biblioteca de Harvard."

Preenchendo as lacunas. Ao analisar o tamanho da página, a caligrafia e outras características, bem como o texto visível, Kessel foi capaz de determinar que a página de Harvard realmente preenchia uma das lacunas do Palimpsesto de Galeno. Mas, aparentemente, outras seis estavam faltando. Kessel partiu em busca delas.

Ele começou com uma lista de 10 bibliotecas conhecidas por guardarem material em siríaco antigo, vasculhando os catálogos disponíveis online para procurar pistas como as dimensões corretas ou vagas referências a um subtexto. Às vezes, ele visitava pessoalmente as bibliotecas.

Não demorou para que Kessel tivesse boas notícias. Ele encontrou uma das páginas no catálogo do Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina, que fica no deserto do Sinai, no Egito, contendo a mais antiga biblioteca em funcionamento contínuo do mundo.

Outra página surgiu na Biblioteca Nacional da França, em Paris. E, na imensa biblioteca do Vaticano em Roma, ele identificou outras três páginas faltantes, chegando a um total de seis.

Acredita-se que a sétima página perdida estivesse em branco, sendo provavelmente descartada.

Elo intrigante. Ninguém sabia o quanto de .'..drogas simples' estaria oculto no Palimpsesto de Galeno. A única outra cópia conhecida do texto em siríaco fica na Biblioteca Britânica, em Londres, e inclui apenas os volumes 6 a 8. As traduções desses volumes posteriores da série são mais comuns, pois elas contêm informações medicinais mais específicas.

Mas, conforme o estudo preliminar avançou, Kessel e seus colegas encontraram palavras dos volumes 1 e 2 em uma das páginas soltas. O texto completo de '...drogas simples' é conhecido pelos especialistas, mas somente a partir de traduções mais recentes, para idiomas diferentes do siríaco. "Foi algo totalmente inesperado", disse ele.

O especialista em estudos dos primórdios do judaísmo, Siam Bhayro, da Universidade de Exeter, Grã-Bretanha, acreditava que Sergius teria traduzido os volumes anteriores, mas não havia provas. Quando soube que Kessel talvez tivesse encontrado páginas das traduções anteriores, "Quase saí dançando por aí" disse ele.

Outra das intrigantes descobertas de Kessel foi uma anotação em árabe na primeira página, indicando que o manuscrito - que já tinha sido convertido em livro de hinos, ocultando o texto de Galeno - tinha sido doado aos monges do Monastério de Santa Catarina no Deserto do Sinai.

Não se sabe ao certo como o texto deixou o monastério: no século 20, em especial, algumas das posses da biblioteca foram emprestadas legitimamente, enquanto outras foram roubadas por visitantes que esperavam vender o material a particulares.

A equipe independente de imagens está agora terminando o trabalho necessário para acrescentar as páginas redescobertas ao acervo digital. Mas a tradução e estudo do texto em siríaco revelado nas imagens vai demorar muito mais, talvez ultrapassando a marca de cinco anos.

O trabalho já teve início graças a uma recente doação de US$ 1,5 milhão do Conselho Britânico de Pesquisa em Artes e Humanidades.

Os estudiosos estão ansiosos para comparar o material em siríaco às cópias existentes de '...drogas simples', escritas em grego, que parecem ter séculos menos que o Palimpsesto de Galeno e ser muito mais distantes do original.

Conforme os textos eram submetidos a diferentes rodadas de cópias, eles passavam por alterações significativas. Um escriba poderia remover partes que considerasse desimportantes ou acrescentar material com base em novos conhecimentos. A comparação do Palimpsesto de Galeno com a cópia britânica em siríaco, por exemplo, pode trazer novas perspectivas para a forma com que os gregos antigos tratavam os doentes e como esses remédios foram difundidos pelo Oriente Médio.

Poucos dos conselhos de Galeno seriam mantidos diante do conhecimento atual. "Parte das orientações dele não pode ser considerada científica de acordo com nossos critérios contemporâneos", ainda que o trabalho tenha possibilitado o progresso, disse Petit.

"O sistema galênico é uma maluquice completa", disse Bhayro. Ainda assim, tratava-se da melhor sistematização desse conhecimento na época.

"É provável que este se torne um texto central depois de ser totalmente decifrado", disse Pormann, da Universidade de Manchester. "Podemos descobrir coisas com as quais nem podemos sonhar ainda."

Tradução de Augusto Calil

Mais conteúdo sobre:
medicina Galeno

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.