Embrapa adota "precaução" com transgênicos

O "princípio da precaução", adotado pelo governo Lula com relação aos alimentos transgênicos, passa a imperar também na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), carro-chefe da biotecnologia no País e, até agora, uma das principais defensoras da tecnologia.Quem dá o recado é Clayton Campanhola, novo presidente da empresa, que assume nesta quinta-feira o cargo em Brasília. "Como em muitas situações existem riscos, tanto para a saúde quanto para o meio ambiente, o novo posicionamento da Embrapa é de que tenhamos geração de conhecimento sobre biossegurança, para que possamos municiar os tomadores de opinião com protocolos e métodos capazes de avaliar esses riscos potenciais", disse Campanhola, em entrevista exclusiva ao Estado.Pesquisador da Embrapa desde 1985, com formação em engenharia agrônoma e entomologia (estudo de insetos), Campanhola defende um modelo de agricultura mais sustentável do ponto de vista social e ambiental. Seu principal objetivo na direção da empresa, disse, será fortalecer a agricultura familiar e combater a exclusão social no campo.A idéia é trazer o mesmo sucesso das grandes commodities, como soja e milho, para o prato do brasileiro, agregando tecnologia a culturas de subsistência como feijão, batata e mandioca.Para isso, diz Campanhola, será necessário expandir o horizonte de trabalho da Embrapa para além da área científica e tecnológica, incorporando também um compromisso social com a agricultura. "O grande desafio é a geração de renda no meio rural. Temos uma Embrapa que precisa ser cada vez mais plural e não pode trabalhar apenas para um determinado tipo de agricultura ou determinado grupo de agricultores."Campanhola, de 47 anos, foi diretor da Embrapa Meio Ambiente em Jaguariúna, no interior paulista, de 1990 a 1998. Ele substitui o o engenheiro agrônomo Alberto Duque Portugal, presidente da empresa pelos últimos sete anos.Estado - Qual será o papel da Embrapa dentro das novas prioridades estabelecidas pelo governo Lula? Clayton Campanhola - Um dos principais desafios que teremos de enfrentar é a incorporação dos segmentos tradicionalmente excluídos do meio rural, que são os agricultores familiares e pequenos agricultores. O foco deixa de ser a agricultura propriamente dita e passa a ser o território, que é onde você tem um conjunto de atores sociais que interagem e conseguem participar de um processo de desenvolvimento. A Embrapa é importante, mas não é só transferindo tecnologia que você vai resolver o problema de inserção social no campo. Temos de trabalhar de forma integrada (com outros ministérios e organizações sociais) para incorporar também a questão da saúde, da educação, da infra-estrutura e da conservação do meio ambiente. Quero que a Embrapa tenha um controle social nas suas ações. Isso não quer dizer que vamos deixar de fora o que a Embrapa sempre fez, que é a geração de tecnologia para as commodities de exportação e para a cadeia do agronegócio, que é fundamental para o País. Temos o compromisso de fortalecer essas questões ainda mais, mas agora fortalecendo também alguns outros temas que a Embrapa teve dificuldade de trabalhar no passado. O grande desafio é a geração de renda no meio rural, e a pesquisa também tem que estar voltada para isso. Estado - Qual será a postura da empresa com relação aos transgênicos? Campanhola - Vamos adotar o princípio da precaução. Como em muitas situações existem riscos tanto para a saúde humana quanto para o meio ambiente, o novo posicionamento da Embrapa é de que tenhamos geração de conhecimento sobre biossegurança, para que possamos municiar os tomadores de opinião, desenvolvendo protocolos e métodos capazes de avaliar esses riscos potenciais. Os organismos geneticamente modificados têm propostas interessantes, sim, mas cada caso é um caso. Temos várias agriculturas e vários agricultores, então não dá para dizer que a biotecnologia vai resolver o problema de todos. Para alguns grupos que já embarcaram nessa agricultura moderna, dependente de insumos, com certeza ela ajuda. Agora, para o pequeno agricultor, não. Estado - Como é que o Brasil pode produzir safras recordes ano após ano e ainda assim estar lutando para combater a fome? Campanhola - A agricultura moderna tem dois problemas. Primeiro, é uma agricultura cara, dependente de investimentos e de um capital de giro muito grande. Segundo, é uma atividade que concentra renda; ou seja, gera poucos empregos devido à mecanização. Precisa de mão-de-obra especializada, mas não de trabalhador braçal, que fica ocioso. A reintegração desse pessoal no processo produtivo e de desenvolvimento é essencial. Como podemos tratar disso? A agricultura familiar é uma forma. Estado - Que outros modelos produtivos poderiam ser incentivados? Campanhola - Existem alternativas interessantes, como a agricultura orgânica e a biodinâmica, que têm se mostrado viáveis. Os orgânicos têm uma característica interessante, que é poupadora de insumos - um grande problema para o pequeno agricultor dentro do modelo de agricultura moderna. É uma alternativa muito interessante, dentre muitas outras, que pode ajudar a inserir esses agricultores familiares no mercado. Não é uma questão que se resolve através de uma ruptura; é um processo no qual vai-se construindo esse novo rumo da agricultura de modo gradual e incremental.

Agencia Estado,

22 de janeiro de 2003 | 23h36

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