Embrapa inaugura Laboratório de Biotecnologia de Solo

As linhas de pesquisa de microbiologia de solo e fixação orgânica de nitrogênio em culturas de grãos da Embrapa Soja, sediada em Londrina, no Paraná, ganham novo impulso a partir de amanhã, com a inauguração do Laboratório de Biotecnologia de Solo. A unidade fará parte da rede de 25 laboratórios do Projeto Genoma Brasileiro, coordenado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), e da rede de 8 laboratórios do Projeto Genoma do Paraná Tecnologia, programa da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado. O investimento do MCT nos seqüenciadores destinados ao Paraná foi de R$1,8 milhão. O Paraná Tecnologia investiu R$ 3 milhões em 2001, e já comprometeu valor igual para este ano. Só no seqüenciador do novo laboratório da Embrapa foram investidos R$350 mil. O primeiro seqüenciamento de genes a ser trabalhado nas novas instalações é o da bactéria Herbaspirillum seropedicae, capaz de disponibilizar nitrogênio para gramíneas, entre as quais se destacam o milho e o trigo. Hoje, tomando por base uma produção nacional de milho de 33 milhões de toneladas por ano, com a aplicação média de 200 kg de nitrogênio por hectare, o Brasil gasta cerca de US$ 421 milhões com adubos nitrogenados. A meta, a médio prazo, seria reduzir a necessidade de adubo pela metade, gerando uma economia anual de US$210 milhões, só com o milho. A expectativa dos pesquisadores baseia-se na experiência positiva com a soja, cujas necessidades de nitrogênio são integralmente supridas pelas bactérias. "Com a soja, já não se usa adubação nitrogenada, porque as bactérias do gênero Rhizobium substituem integralmente os 400 kg/ha de nitrogênio, que seriam necessários para garantir a produtividade média nacional de 2.500 kg/ha", observa Mariângela Hungria, responsável pelo novo Laboratório de Biotecnologia de Solo, ao lado do pesquisador Rubens Campo. A alta eficiência da bactéria, que fixa nitrogênio para a soja, em simbiose com a planta, permite ao País economizar algo entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão ao ano na compra de adubos nitrogenados. Isso, sem contar o que se evita em termos de impactos ambientais normalmente causados pelos nitratos, derivados da volatilização (transformação em vapor) e lixiviação (lavagem pelas chuvas, através do solo) de tais adubos. Os nitratos estão entre as principais causas de eutrofização de lagos e represas, nos países desenvolvidos: os adubos nitrogenados são carreados para os reservatórios de água pelas chuvas e estimulam a proliferação acelerada de plantas aquáticas. Estas tomam toda a superfície do reservatório, consomem todo o oxigênio da água e causam a mortandade em massa de peixes e moluscos. Os nitratos também causam problemas à saúde humana quando concentrados em pontos de captação de água de abastecimento, sendo câncer e a ?doença azul?, que afeta sobretudo crianças, os mais comuns. Pesquisa acelerada Diferente do caso da soja, que tem uma associação mais direta com o Rhizobium, a disponibilização do nitrogênio para o milho e o trigo pela bactéria Herbaspirillum seropedicae é menos eficiente. Daí a importância de conhecer a fundo os genes para identificar os responsáveis pela regulação da fixação e metabolismo de nitrogênio. "Com este conhecimento, poderemos fazer modificações pontuais na bactéria de modo a aumentar a disponibilização de nitrogênio para a planta, mantendo, ao mesmo tempo as características da bactéria, sem transformá-la num organismo transgênico", diz Flávio Pedrosa, pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador do Projeto Genoma estadual. Pedrosa trabalha há cerca de 20 anos com esta bactéria e dá uma idéia clara do que significa seu seqüenciamento, em termos de avanço científico: "Em 17 anos de pesquisa tradicional conseguimos identificar 20 genes da Herbaspirillum, enquanto desde agosto passado, ou seja 8 meses, mesmo sem trabalhar exclusivamente neste projeto, já seqüenciamos 1.500 genes, de um total estimado de 6 mil genes para a bactéria". As equipes da UFPR e da Embrapa já mantêm convênios para trabalhar conjuntamente na pesquisa e em experimentos com esta e outras bactérias de fixação de nitrogênio, e pretendem estreitar a cooperação, a partir da instalação de todos os seqüenciadores previstos. Além do objetivo principal, de melhorar a adubação nitrogenada orgânica, o seqüenciamento já permitiu a identificação de genes das vias secundárias de metabolismo da bactéria Herbaspirillum, capazes de gerar produtos de grande interesse para a pesquisa e indústria nacional. Entre eles está o gene responsável pela produção de um plástico biodegradável; o de produção de uma enzima que ajuda a bactéria a invadir a planta e o que regula a síntese de peptídeos com efeito antibiótico.

Agencia Estado,

15 de abril de 2002 | 15h08

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.