Empresária inglesa mostra como praticar o comércio justo

O surgimento de um consumidor vigilante - preocupado com a origem do produto e com a postura ética da empresa que o produz - é a maior arma contra ?a lei de mercado, facista, que não constrói o mundo que queremos?. Essa tese é defendida pela empresária Anita Roddick, fundadora da marca britânica de cosméticos naturais The Body Shop, uma rede presente em 55 países, com cerca de 1800 lojas. ?O movimento crescente de pessoas que não aceitam produtos feitos às custas de trabalho escravo ou infantil e seu poder de fazer boicotes são minha esperança para colocar de volta o altruísmo na área de negócios?, disse ontem, em São Paulo, durante o lançamento de seu livro Meu Jeito de Fazer Negócios, no Centro Brasileiro Britânico.A publicação, da Negócio Editora, traz a biografia de Anita e a história do empreendimento The Body Shop, que tornou-se uma potência mundial comercializando cosméticos naturais, produzidos sem agredir a natureza e seguindo os princípios do comércio justo. Criada em 1976, a empresa trabalha com 400 produtos, feitos a partir de 42 matérias-primas adquiridas de 37 cooperativas, em 24 países. Ativista e membro de diversas entidades ambientalistas e de defesa de causas sociais, Anita acredita que é possível ter lucro e, ao mesmo tempo, lutar contra a pobreza no mundo e respeitar o meio ambiente e a cultura dos povos.Fazendo negócios com comunidades pobres da África, Ásia e América do Sul (duas delas no Brasil), a empresária defende o comércio comunitário. ?Trabalhamos com uma linha de produtos preocupados com idéias, em cujo valor estão embutidos os benefícios às pessoas que ajudam a produzi-los, seja em Gana ou na Índia?, diz. Sem medo de parecer demagógica, Anita diz que o princípio é tão simples, que às vezes parece fraudulento.Desafiando grandes corporações, ?que crescem explorando o trabalho e o meio ambiente em países em desenvolvimento?, a empresária defende também a remuneração para o conhecimento tradicional. ?Hoje, não existe nos acordos de negócios nada sobre o conhecimento nativo. A indústria farmacêutica, principalmente, busca os ingredientes e quem produz não recebe por seu conhecimento, mas tem que pagar pelos remédios. Essa é uma atitude de ladrão, o conhecimento tradicional deveria ser reconhecido e remunerado?.Seguir estes princípios, no entanto, não garantiu à Anita sempre uma relação tranqüila de negócios com as comunidades. Um dos casos problemáticos descritos no livro foi com os índios caiapós no Brasil. Segundo a empresária, apesar de pagar pela castanha-do-pará preços acima do mercado, os índios sempre achavam que era pouco e que não resolvia seus problemas financeiros. ?É preciso conversar com as comunidades e não prometer ganhos astronômicos, mas uma relação de muitos anos. Além disso, é importante que tenham em mente que o Ocidente ainda precisa ser educado sobre o valor dessas matérias-primas?, disse. Na maior parte dos casos, porém, os resultados são positivos. No Brasil, a Body Shop comprava óleo de babaçu de de um fornecedor normal, mas soube da existência de um movimento de mulheres no Maranhão, que estavam sendo expulsas da extração do babaçu por fazendeiros de gado que dominavam a região. A partir daí, a empresa passou a negociar diretamente com uma cooperativa de mulheres e transferir para elas os resultados da operação comercial.

Agencia Estado,

01 de outubro de 2002 | 13h16

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