Empresário mantém criadouro modelo de primatas

Considerado modelo pelo Ibama, o Criadouro Conservacionista Velho Jabotá, em Sorocaba, interior de São Paulo, é o lar de aproximadamente 200 animais silvestres - entre os quais cerca de 120 primatas -, apreendidos pelas autoridades e sem condições de serem soltos na natureza. Resultado da paixão do empresário Pedro Alejandro Ynterian por esses animais, o local é um abrigo seguro para macacos, de espécies nativas ou não, que sofreram maus tratos, mutilações ou foram abandonados por seus donos. ?Meu objetivo é manter esses animais com dignidade, em um lugar onde vivam bem, dentro da tristeza que é um cativeiro?, diz o criador. Com 70% de espécies nativas, algumas em extinção, Ynterian conhece todos os macacos pelo nome e tem uma preocupação especial com os 14 chimpanzés, para os quais mantém uma equipe e estrutura exclusivas.Apesar da preferência pelos primatas, o criador acabou também assumindo a guarda, em sua propriedade de 20 alqueires, de araras, papagaios, tartarugas e quatis, por solicitação do Ibama e do Departamento de Parques e Áreas Verdes de São Paulo (Depave). Mantém também cobras, que encontra na propriedade e não tem coragem de matar. Os únicos bichos perseguidos e exterminados no Velho Jatobá são os ratos, sempre prontos a disputar a fartura de alimentos à disposição dos hóspedes.Aos poucos convidados, já que o local não é aberto à visitação pública, Ynterian conta a história de cada espécime do criadouro, como as duas filhotes de gibão (espécie asiática), que vieram do Rio de Janeiro, quando foi fechado o zoólogico Buonaparque, onde foram encontrados animais mortos e vítimas de maus tratos. As macaquinhas não têm nariz, arrancados por seus pais, segundo o criador, por algum trauma. Alguns foram entregues voluntariamente ao Ibama e ao próprio criador por pessoas que os mantinham em casa. ?Nunca se sabe bem a origem dos animais. E eu nem pergunto, porque sei que vão mentir. Apenas aceito e cuido?, conta. ?As pessoas gostam desses animais quando são filhotes, mas quando crescem tornam-se um problema. Alguns antigos proprietários aparecem para visitá-los?.Além de saguis e uma grande quantidade de macacos-prego, o criador tem algumas preciosidades da fauna nacional, como um casal de macacos-prego-do-peito-amarelo, em extinção, cuja fêmea está grávida, que vieram do Centro de Primatologia do Rio. Conta, ainda, com alguns macacos-aranha, segundo ele, ?os melhores macacos do mundo. São tão bonzinhos, que acabam sendo presa fácil?. Por conta disso, está procurando um macho de aranha-cara-vermelha, para tentar a reprodução, pois só tem fêmeas dessa espécie.Dos estrangeiros, os destaques são duas fêmeas de macacos do banhado, espécie africana em extinção, provavelmente as únicas no Brasil. ?O zoológico de San Diego, nos Estados Unidos, tem sete dessa espécie e já me sondou para fazermos trocas?. Possui ainda um mandril africano, que veio do Zoológico de Piracicaba, que fechou.Segundo Ynterian, a maior parte desses animais entrou no País antes da existência da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e da Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites) e da existência do Ibama. ?Mas, apesar do controle, ainda existe o contrabando internacional?.ChimpanzésCláudio, Emílio e Guga são três dos seis filhotes de chimpanzés mantidos no Velho Jatobá. Vivem em um local espaçoso, onde usufruem da companhia uns dos outros e passam o dia brincando, como é natural da espécie. Com sorte, crescerão mais saudáveis o que os chimpanzés que só chegaram ao santuário, que está sendo montado para eles no criadouro, depois de adultos. ?Até os 5 anos, esses animais se parecem muito com crianças, tanto no comportamento, como nas doenças. Depois disso, são animais selvagens e perigosos, que só permanecem no convívio com humanos se estiverem mutilados e condicionados. São seres que perderam sua identidade e não sabem se são gente ou bicho, por isso muitos têm problemas mentais?, explica Pedro Ynterian. Um exemplo é a macaca Tuca, já uma anciã aos 30 anos, enquanto os chimpanzés vivem entre 50 e 60 anos. ?Ela veio de um circo, onde chegava a comer papel, porque não lhe davam comida?, conta.Membro do Projeto de Proteção dos Grandes Primatas (GAP), entidade internacional, Ynterian defende que estes animais devem ter o direito de viver em liberdade e não serem caçados ou utilizados em experimentos. Para os que consegue proteger, pretende destinar um grande recinto, com alguns alqueires, para que vivam com ?a maior liberdade e dignidade possíveis?.

Agencia Estado,

14 de outubro de 2002 | 09h34

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