Empresários condenam cancelamento de projeto de reciclagem de areia

A decisão da Cetesb de cassar, no ano passado, a licença provisória para a implantação, em Picacicaba (SP), de um ambicioso projeto de reciclagem de areia de fundição até hoje causa perplexidade entre industriais e técnicos do setor. O projeto, idealizado para resolver o problema da poluição ambiental causada pela areia de fundição, havia sido iniciado pelo próprio escritório regional da Cetesb.O cancelamento da licença só foi possível com o remanejamento e afastamento dos funcionários que investiam no projeto. ?Não há dúvidas de que o fim do projeto de reciclagem favoreceu os poucos aterros sanitários que vão ganhar milhões de reais por ano para estocar a areia de fundição contaminada?, avalia o empresário Rubens Caldari, ex-coordenador do Grupo de Gestão de Fundições e ex-diretor da Codistil. ?Difícil entender como o armazenamento da areia contaminada num aterro pode ser melhor que a sua reciclagem.?Grave problema ambientalA areia de fundição é um grave problema ambiental para o Brasil. Depois de utilizada em moldes na indústria de fundição, a areia fica contaminada por metais pesados, principalmente cobre e chumbo, e por fenóis originados das resinas empregadas na sua compactação.As indústrias de fundição produzem de torneiras a blocos de motor e geram um volume de mais 170 mil toneladas por mês de areias contaminadas. Piracicaba e as vizinhas cidades de Indaiatuba, Sorocaba, Limeira e Sumaré abrigam o principal pólo de fundições do Estado de São Paulo.A região produz cerca de 10 mil toneladas de areia de fundição por mês, mais de 120 mil toneladas anuais. ?O passivo ambiental das fundições da região é grave?, admite o gerente executivo da Associação Brasileira de Fundição (Abifa), João Roberto de Deus.TentativaNa tentativa de resolver o problema, a Cetesb regional e um grupo de 22 empresas de fundição reunidas no Grupo Gestor de Fundições iniciaram em 1997 o projeto de montagem de uma usina de reciclagem de areia em Piracicaba. A usina, num custo estimado de R$ 2 milhões, teria condições, numa primeira etapa, de recuperar mais da metade da areia produzida na região.Em 98, a Velma Reciclagem, empresa criada por um grupo de empresários do setor, entrou como parceira na construção da usina. No ano seguinte, a Velma arrendou área do pátio da Codistil, uma das grandes indústrias da região, para estocar a areia produzida nas fundições envolvidas com o projeto. ?O pátio único já era importante porque permitia o armazenamento de toda a areia num local só, o que facilita o controle e a fiscalização?, afirma Caldari.CancelamentoEm 2000, a Cetesb regional concedeu as licenças para o armazenamento da areia no pátio único e também para a construção da usina. ?Aparentemente, tudo ia muito bem?, lembra Roberto de Deus. A areia das indústrias já começava a se acumular no pátio quando um grupo de auditores da Cetesb de São Paulo, durante uma visita de inspeção, decidiu cancelar a licença.Oficialmente, os auditores justificaram a decisão com o argumento de que o pátio não tinha condições para armazenar a areia. Eles queriam que a área fosse concretada, exigência que supera todas as normas técnicas utilizadas no Brasil sobre o assunto.Especialistas da própria Cetesb, consultados pela Agência Estado, afirmam que o solo argiloso compactado da área responde às exigências técnicas mais rigorosas de armazenamento. O cancelamento da licença abortou o projeto. ?O pior de tudo é que, com o fim do projeto, as condições de armazenamento da areia se tornaram ainda mais precárias na região?, afirma Caldari.Em pequenas e médias fundições, a areia se amontoa a céu aberto nos pátios. Em algumas delas, encontram-se montanhas de areia ao lado de cursos de água. Caldari, que na época dirigia o Grupo Gestor e coordenava o grupo de empresas envolvido no projeto, contesta os argumentos dos auditores.?Razões obscuras??A decisão foi política, mas até agora as verdadeiras razões são obscuras?, argumenta ele. ?Houve pressão de vários segmentos e jogos políticos sujos que abortaram o projeto.? Roberto de Deus, da Abifa, avalia que a cassação da licença recolocou na estaca zero a solução de um problema que já se aproxima do insolúvel na região.?As pequenas indústrias não têm onde colocar sua areia e algumas grandes, como a própria Codistil, que tem cerca de 80 mil toneladas de areia em seus pátios, já chegaram na situação limite?, avalia ele. Para Roberto de Deus, as pequenas indústrias não têm condições de investir em equipamentos para recuperação da areia. ?E recuperar dentro das próprias fábricas não é uma boa solução nem para as grandes?, argumenta Deus.Trípoli se defendePara o ex-secretário do Meio Ambiente, Ricardo Trípoli, a decisão da Cetesb ?com certeza? foi correta. ?Não acompanhei de perto este processo, mas a Cetesb tem uma história de credibilidade e técnicos capazes para avaliar e definir o que pode e o que não pode ser feito?, argumenta ele. Decisão favorece aterrosO impasse favorece os aterros sanitários e, em particular, o aterro da Empresa de Saneamento e Tratamento de Resíduos (Estre), licenciado pela Cetesb em 98, para se instalar entre as cidades de Paulínia e Sumaré. O gerente comercial do Estre, Dirceu Pierro Júnior, está em campanha declarada para que as fundições da região utilizem o aterro para depositar a areia, pelo preço que ele considera ?muito baixo?, de R$ 30 por tonelada.Este preço é onerado ainda pelo frete, que custa, em média, R$ 22 por tonelada. ?Lá em Piracicaba estão jogando areia de fundição clandestinamente até em canaviais e colocando em sério risco o meio ambiente. O certo é que a areia venha para cá?, argumenta Pierro Júnior.?A areia no aterro custa hoje para as fundições, no mínimo, R$ 52 por tonelada?, afirma Roberto de Deus. ?E o pior é que o passivo sobre a areia que fica no aterro é da empresa. Se a legislação mudar amanhã, as fundições é que terão que dar destino à areia que está no aterro.?Em 97, quando a Cetesb decidiu implantar o projeto da usina de reciclagem em Piracicaba, exigiu que as empresas fizessem um pente fino para quantificar a quantidade de areia utilizada por mês na região. De acordo com dados fornecidos pelas próprias empresas, a região produzia, naquele ano, perto de 5.700 toneladas por mês, mais de 64 mil toneladas anuais de areia.Roberto de Deus acredita que estes números estão subestimados. Ele avalia que a região produza hoje cerca de 10 mil toneladas mensais, mais de 120 mil por ano. Se esta areia toda fosse para os aterros, custaria cerca de R$ 3,6 milhões, no mínimo, a cada ano para as metalúrgicas.Estre diz que é tudo ?farsa?Para Pierro Júnior, do Estre, ?toda essa história da reciclagem de areia no Brasil é uma farsa?. O ex-secretário do Meio Ambiente de Paulínia, Henrique Padovani (PV), acompanhou o processo de licenciamento ambiental do aterro e diz que a direção do Estre havia se comprometido a instalar uma usina de recuperação de areia dentro do aterro.Mas Pierro afirma que não tem como cumprir o acordo. ?Teríamos que investir algo em torno de US$ 50 milhões?, diz ele. ?Não temos recursos e nem vale a pena.? Pierro Júnior argumenta que o ?processo verdadeiro? de reciclagem da areia de fundição faria o custo do descarte subir a R$ 70 por tonelada. ?Muito mais caro que os R$ 30 que cobramos para enterrar?, quantifica.Ele afirma que as fundições que estão reciclando areia na região de Piracicaba ?são todas irresponsáveis?. ?Elas estão em total desacordo com o que realmente tem que ser feito?, acusa ele.Para Pierro, os blocos de construção produzidos com a areia recuperada ?colocam em risco a saúde? da população. ?O grande problema da reciclagem da areia é o fenol, uma substância altamente tóxica. Pergunte a estas empresas o que estão fazendo com o fenol?, desafia ele.?Desafio improcedente?O engenheiro Cláudio Mariotto, da Divisão de Metalurgia do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), órgão vinculado à Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, considera ?totalmente improcedente? o desafio de Pierro.Mariotto é responsável pelo desenvolvimento do projeto, único no mundo segundo ele, de uma unidade móvel de reciclagem de areia de fundição, montada em cima de um caminhão, que deverá estar operando experimentalmente, em 2002, entre São Paulo e em Minas Gerais.Mariotto acompanhou de perto a instalação este ano da usina de recuperação de areia pela Femaq Fundição Engenharia e Máquinas, em Piracicaba. A usina da Femaq recicla 500 toneladas mensais da areia produzida em sua própria indústria. Parte da areia recuperada alimenta uma fábrica de blocos de construção.A Femaq era uma das 22 fundições reunidas no projeto abortado de implantação da usina em Piracicaba. ?Utilizamos o projeto que já estava pronto e o adaptamos para nossa fábrica?, diz Pedro Cruz, diretor da empresa.Para Mariotto, a tecnologia de reciclagem utilizada pela Femaq e por outras empresas da região de Piracicaba ?é perfeitamente adequada?. ?Qualquer projeto de recuperação prevê a retirada dos metais pesados e também do fenol. Sem isso, não haveria usina de recuperação?, garante ele.Cruz também contesta com ironia as insinuações de Pierro. ?É claro que, para os aterros, a reciclagem de areia é um péssimo negócio. Deixamos de dar lucro para eles?, avisa. ?O negócio dos aterros é enterrar areia, eles ganham dinheiro com isso. Mas não há alternativa pior para o meio ambiente do que esta?, acusa Mariotto.

Agencia Estado,

05 de junho de 2002 | 23h39

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