Encontrado gene vinculado à linguagem em humanos e animais

Dois pedacinhos de um gene, o FOXP2,podem ser responsáveis pelo fato de o ser humano falar e seus primos chimpanzés, gorilas, orangotangos e resus não. A pesquisa divulgada hoje na Nature Online, é a primeira a identificar mudanças no DNA capazes de ter dado ao Homo sapiens essa vantagem evolutiva. E essas mudanças são mínimas.A pista que levou os cientistas do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, de Leipzig, ao FOXP2 foi o fato de os raros seres humanos com defeito nesse gene apresentaremgraves problemas de fala, com comprometimento não apenas da musculatura do rosto, mas também na apreensão de regras gramaticais - não as que a gente aprende nas escola, mas que aprende ainda bebê, para dominar o idioma."A primeira coisa é deixar claro que este não é ´o´ gene da linguagem, mas um dos genes que nos permite falar", afirma o geneticista Wolfgang Enard, um dos responsáveis pelo trabalho."Não sabemos exatamente como funciona a proteína codificada pelo gene FOXP2 - esta é a próxima fase da pesquisa -, mas supomos que essa alteração mudou a forma como ela interage com outros genes e proteínas", diz.A alteração a que Enard se refere é de apenas seis letrinhas de DNA ao longo da seqüência do FOXP2, que tem milhares delas. Chimpanzés, orangotangos, resus e gorilas também têm esse gene, mas nesses dois trechos, de três letras químicas cada, essas letras aparecem em ordem diferente.Os cromossomos humanos analisados pela equipe revelaram nesses trechos sempre a mesma seqüência, prova de que ela é característica e difundida em nossa espécie.A proteína que esse gene codifica é o que os pesquisadores chamam de fator de transcrição, isto é, um gene que codifica uma proteína que ativa outro ou outros genes. Resta saber qual ouquais são eles.Enard faz parte do grupo do pesquisador Svante Pääbo, que defende a tese de que as diferenças entre o homem e os chimpanzés, em termos genéticos, são muito mais quantitativas doque qualitativas, já que o genoma das duas espécies tem uma semelhança de 99%. E a nova pesquisa dá força a essa teoria."É possível que esse gene tenha melhorado o controle dos músculos faciais determinando que outro gene produzisse mais quantidade de uma outra proteína, por exemplo", diz o pesquisador.Outro sinal de que esse gene foi importante para que nossos antepassados desenvolvessem a linguagem é a época em que ele parece ter surgido, há cerca de 200 mil anos, quando nossaespécie ganhou as características anatômicas modernas."Esse deve ter dado uma vantagem adaptativa considerável a seus portadores, que tiveram mais chance de se reproduzir, tiveram mais filhos com mais chances de sobreviver. Tanto que num período evolutivo relativamente curto essa alteração se transmitiu para toda população humana", diz Enard.

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