Encontro discute criação do jacaré-do-pantanal

Pela primeira vez criadores e especialistas estão reunidos para discutir a criação e comercialização de jacaré no Brasil. Organizado pela diretoria de Fauna do Ibama, o I Encontro de Criadores de Jacaré-do-Pantanal está acontecendo entre hoje e quinta-feira, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e tem como prioridade estabelecer uma política para o uso da espécie em cativeiro, como forma de reativar o mercado de carne, couro e derivados.O evento é a primeira atividade do Projeto de Gestão e Manejo da Fauna do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Pantanal, com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). ?Há um enorme potencial no setor que deverá ser estimulado. O negócio já se mostrou viável e só foi inviabilizado porque os Estados Unidos haviam conseguido a inclusão do jacaré-do-pantanal na lista de espécies ameaçadas de extinção, fato que impediu as exportações brasileiras?, diz José de Anchieta dos Santos, diretor de Fauna do Ibama.Com uma população estimada em pelo menos 3,5 milhões, segundo estudos da Embrapa Pantanal, a inclusão do jacaré-do-pantanal (Cayman crocodilus yacare) na lista vermelha americana nunca foi aceita pelo governo brasileiro. Segundo Anchieta, com a retirada da espécie da lista pelos norte-americanos, o comércio internacional de subprodutos do jacaré volta a ser atrativo para os produtores nacionais. No âmbito interno, o comércio da carne, da pele, do crânio e das vísceras do jacaré também representa chance de negócios. Dados da Embrapa indicam que, somente o mercado de pele de jacaré, está avaliado em cerca de US$ 200 milhões anuais.Caçado sem restrições nas décadas de 50 e 60, o jacaré-do-pantanal - que ocorre do norte da Argentina até o sul da bacia Amazônia, concentrando-se em todo o Pantanal - continuou a ser abatido nas duas décadas seguintes, mesmo depois da proibição legal, em 1967. Atualmente, a legislação permite a criação dessa espécie em cativeiro e sua comercialização segue uma série de normas ambientais.A maior polêmica, que divide opiniões no encontro, refere-se à possibilidade de liberação do manejo (ou caça seletiva) da espécie. ?A regulamentação da caça do jacaré-do-pantanal está fora dos planos do Ibama neste momento?, avisa o diretor de Fauna. A Embrapa Pantanal, que já trabalha com a criação da espécie, defende pesquisas que levem ao manejo sustentado. ?Os argumentos a favor e contrários à utilização comercial como mecanismo de conservação de ecossistemas devem ser vistos como hipóteses que necessitam ser testadas sob rigorosa experimentação de campo, onde os fatores biológicos e socioeconômicos são necessariamente incluídos nas avaliações?, opina Marcos Eduardo Coutinho, pesquisador da área de Fauna Silvestre da Embrapa Pantanal.Segundo Gerson Bueno Zahdi, coordenador do núcleo de Fauna do Ibama em Mato Grosso do Sul, a produção do jacaré pantaneiro está concentrada nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Neste último, a produção de carne de jacaré está na casa de 20 mil quilos/ano. Os maiores compradores são os restaurantes do próprio Estado, onde existem três propriedades rurais que desenvolvem a criação em cativeiro, sob a supervisão do Ibama, nos municípios de Dourados, Terenos e Miranda.

Agencia Estado,

19 de fevereiro de 2002 | 12h48

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