Encontro discute impacto do Rodoanel sobre os mananciais

A falta de integração com outros projetos e ações na área de influência dos mananciais de São Paulo foi a principal crítica de representantes de prefeituras e ambientalistas ao Relatório de Impacto Ambiental (Rima) dos trechos Norte, Leste e Sul do Rodoanel, apresentado nesta quinta-feira, durante o workshop Rodoanel e as Águas Metropolitanas, em São Paulo.Realizado pela Secretaria de Estado dos Transportes e pela Dersa, o encontro foi o último antes de se iniciarem as seis audiências públicas, que deverão ocorrer entre 15 de outubro e 20 de novembro, e a análise do projeto no Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), prevista para 12 de dezembro.Segundo o coordenador de gestão ambiental do Rodoanel Mário Covas, Rubens Mazon, foram realizadas cinco reuniões com os sub-comitês de bacias das regiões atingidas e, para a Dersa, não foi identificado problema que invalide o traçado proposto pela companhia. Segundo ele, foi priorizado um traçado que não atingisse áreas ocupadas por população. "A remoção de pessoas é socialmente complicada e não existem áreas disponíveis para realocá-las, por isso é um impacto mais difícil de ser mitigado. Árvores, tiro uma e planto dez", disse. Manzon disse que a qualidade e a quantidade de água nos mananciais Billings e Guarapiranga não serão afetadas pelo empreendimento. Foi apresentado um estudo, da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, mostrando ser "muito improvável" que a suspensão de resíduos e a solubilização de metais tóxicos durante a construção do trecho Sul do Rodoanel possam provocar problemas de saúde na população.Embora a poluição por metais pesados seja um dos principais problemas ambientais da Billings, essa não é, no momento, a maior preocupação de técnicos e ambientalistas. "Não dá para pensar nos impactos ambientais do Rodoanel na região de mananciai, sem analisar outros empreendimentos do próprio Estado para essas áreas, como a duplicação das rodovias Régis Bittencourt, Raposo Tavares, Castelinho, linha 5 do Metrô e até o anunciado Ferroanel.Além disso, precisam ser considerados os projetos urbanos de todas as cidades envolvidas e as políticas estaduais para agricultura, mananciais, habitação, energia e abastecimento, entre outros", disse a engenheira Emília Rutkouwski, da Universidade de Campinas (Unicamp).Para Marússia Whately, do Instituto Socioambiental, o impacto não se dará somente na faixa da rodovia, mesmo que seus acessos sejam fechados. "É preciso fazer a integração com todos os órgãos que atuam na região de mananciais, que já não conseguem, sem essa nova intervenção, dar conta dos problemas de ocupação irregular, adensamento e poluição da água. O Rodoanel pode ser um aliado na conservação dos mananciais, mas tem que planejar e atuar junto aos demais atores. O melhor canal, certamente, seria o Comitê de Bacia do Médio Tietê, que agrega todos os envolvidos".Mazon, no entanto, disse que existem alguns estudos de avaliação ambiental estratégica do empreendimento, feitos quando o governo negociava financiamento com o Banco Mundial, mas como o empréstimo não pode ser, esse tipo de estudo não prosseguiu. "Não é uma exigência da Secretaria Estadual do Meio Ambiente para o licenciamento da obra".Segundo o Estudo e o Relatório de Impactos Ambientais (EIA-Rima), apresentado por Paulo Sérgio Rodrigues, da Protan, empresa responsável pelo trabalho, os trechos Norte, Sul e Leste do Rodoanel terão impactos que vão da alteração no sistema de drenagem, emissão de ruídos, até a perda e a fragmentação da vegetação, alteração nos habitats e corredores de fauna e interferências em áreas de preservação permanente e unidades de conservação. O estudo conclui que os benefícios para a acessibilidade regional e para as populações da Região Metropolitana são mais abrangentes do que os custos ambientais envolvidos.Conforme Rodrigues, para aliviar os impactos foram feitas adaptações no projeto e criados programas de gestão ambiental, apoio aos municípios, preservação ambiental e controle rigoroso durante as obras. Entre as ações incorporadas ao projeto, estão trechos em túneis na Serra da Cantareira, para não interromper corredores de fauna, e trechos em elevação próximos a pontos de captação de água, como no reservatório Paiva Castro, no trecho Norte, e próximos à Guarapiranga e à Billings, no trecho Sul.Estão previstas obras de drenagem e bacias de contenção para evitar que resíduos da rodovia atinjam os mananciais. Grandes trechos em elevado também foram projetados na várzea do rio Tietê, além da canalização de um trecho e do desvio da várzea do rio Guaió (entre Poá e Suzano), no trecho Leste.O coordenador do estudo disse que serão removidos 592,7 hectares de vegetação, que serão compensados com o plantio de 1.185,4 hectares, totalizando quase um milhão de mudas. Esse reflorestamento será feito em conjunto com as prefeituras, que determinarão os locais a serem reflorestados. Além disso, também serão criadas dez novas unidades de conservação, nos municípios de Caieiras, Mairiporã, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Suzano, Ferraz de Vasconcelos, São Bernardo do Campo, São Paulo, Embu e Itapecerica da Serra. "Serão investidos nessas unidades 0,7% do valor do empreendimento, enquanto a legislação prevê apenas 0,5%", disse.Segundo Rubens Mazon, a Dersa não pretende fazer alteração no traçado do Rodoanel. Qualquer modificação, daqui para frente, terá que ser uma determinação do Consema.

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