Energia Nuclear divide Comissão Européia

A Comissão Européia (CE) colocou hoje sobre a mesa do colégio de comissários os resultados do debate sobre a política energética européia. Dois pontos principais podem ser ressaltados do documento: a necessidade de uma grande diversificação de fontes de energia e a definição de uma melhor coordenação da política energética. O comunicado foi divulgado em meio a um conflito interno da Comissão, causado pela defesa à energia nuclear feita, nada mais, nada menos do que pela vice-presidente da Comissão e responsável pela energia e transporte, Loyola de Palacio.O comunicado apresentado hoje por Palacio veio com atraso de uma semana, oficialmente por problemas de tradução, extraoficialmente pela guerra ideológica dentro da Comissão entre a direção geral de energia e Margot Wallstrom, responsável pelo meio ambiente. Loyola de Palacio defende que o fechamento das usinas nucleares na Europa causaria, até 2012, graves consequências ambientais que impediriam a UE de continuar com seus projetos de reduzir pouco a pouco suas emissões do gás de efeito estufa."Temos que parar de discurso moral sobre energia e concentrarmos os esforços nos resultados concretos", afirmou Loyola de Palacio. "Sejamos práticos", disse Palacio, "precisamos de energia; a demanda européia aumentará em 2% nos próximos 10 anos e temos um problema de CO2, que tem 80% de sua emissão proveniente da produção energética". A comissária também foi autora, nos últimos meses, de declarações polêmicas que a catalogaram no hall do lobby nuclear, tais como, "teremos que optar - ou cumprimos com o Protocolo de Kyoto e mantemos a produção nuclear, ou renunciamos a Kyoto".A posição é combatida fortemente pelo Conselho Europeu de Energia Renovável, baseado em Bruxelas e representante de todas as associações européias de energia renovável. O Conselho estuda um breve pronunciamento contra as declarações de Loyola de Palacio, segundo informa à Agência Estado, a secretária geral do Conselho, Christine Lins."O problema das energias renováveis é que há limitações, por exemplo, não há ventos em alguns países da União, nem venta o tempo todo em outros", disse Palacio, que não vacila em suas posições, respondendo hoje a todas as perguntas e críticas por parte da impresa. "Vamos nos concentrar no verdadeiro debate: como teremos energia suficiente para continuar nosso modo de vida de forma a respeitar o meio ambiente?". "Este é o desafio", afirmou Loyola de Palacio.Christine Lins diz, entretanto, que a realidade mostra que a energia renovável tem sido, sim, uma opção para alguns países. A Áustria, depois da Grécia e Alemanha, é o país que mais usa a energia renovável, basicamente à base de biomassa, resultante da incineração de restos orgânicos. "Nos últimos anos, os austríacos implementaram a energia renovável e conseguiram torná-la responsável por 27% da demanda energética do país", conta Christine.Para fazer frente ao aumento do consumo elétrico na Europa (5,8% no ano passado, 35% desde 1996) e às críticas disparadas de todos os lados, a Comissão se compromete a apresentar propostas para o reequilíbrio da política energética, com o aumento da eficiência dos recursos de energias renováveis.A política energética européia estabelece o prazo de 2012 para que a participação da energia renovável passe dos atuais 6% para 12%. Será difícil consegui-lo, alertou hoje Loyola de Palacio. "Nós apostamos nisto", afirmou à AE, Christine Lins. A energia eólica, por exemplo, é a fonte de energia com maior taxa de crescimento, segundo Christine Lins, é só olharmos os exemplos alemão e espanhol.Mesmo assim, o caminho para a anergia renovável é espinhoso, que depois de três décadas de pesquisas mostrou pouco resultado concreto. As tecnologias solar, eólica, geotérmica ou biomassa contribuem com menos de 2% da eletricidade consumida no planeta."Não devemos esquecer das pressões políticas para o desenvolvimento de uma ou outra energia, basta ver o resultado da Alemanha, tendo instalado 220 megawatts de potência em eólicas, e Espanha, com muito mais solo, tendo somente conseguido instalar 16 me gawtts", afirma Christine Lins.Loyola de Palacio reforça as vantagens da energia nuclear: "É a terceira maior fonte de geração de eletricidade". Há 438 usinas nucleares em operação no mundo, seis delas recém-inauguradas (uma na República Checa, uma no Brasil, três na Índia e uma no Paquistão). A seu favor, contam: as reservas de combustível nuclear são abundantes; o avanço tecnológico tornou as usinas mais seguras e o ponto principal, segundo Palacio, uma usina nuclear não emite CO2, nem partículas, nem outros contaminantes, "representando hoje uma poupança em torno de 300 milhões de toneladas de emissão de CO2, equivalente a emissão da metade dos veículos que circulam hoje na UE".Na lista de contras, estariam: uma usina nuclear exige grande investimento, demora para entrar em operação, produz resíduo radioativo e ainda, sofre o estigma de acidentes, como o de Three Mile Island, Estado Unidos, 1979, e Chernobyl, Ucrânia, 1986.Calcanhar de Aquiles da nuclearSobre o lixo radioativo, ponto frágil da energia nuclear, a comissária européia de energia e transporte, Loyola de Palacio, diz que já existem acordos com terceiros países, como Estados Unidos, Canadá e Japão para a instalação de um protótipo de usina, onde o lixo radioativo terá um armazenamento temporário centralizado (ATC) como passo prévio ao armazenamento geológico profundo (AGP), similar ao que os Estados Unidos planejam em Nevada. Ecologistas e a esquerda européia se opõem, duvidando que as várias camadas de cimento, eventualmente feitas para o armazenamento do lixo radiativo, possam resistir a terremotos, infiltrações ou outras ameaças impossíveis de prever em um horizonte tão prolongado.Por hora, o resíduo radioativo procedente do combustível gasto pelos reatores atômicos e que guarda durante centenas de anos sua ameaça potencial, é armazenado em caixas de cimentos enterradas nas próprias usinas.Entre os países desenvolvidos, a energia nuclear representa a segunda principal fonte de produção de eletricidade, perdendo apenas para o carvão. De forma geral, a Europa é a região do planeta mais bem preparada para a geração de energia. Na UE, a França é de longe quem mais ignorou os protestos ambientalistas e fez 76% de seu consumo elétrico de origem atômica. A Alemanha, também freguesa da França, tira sua eletricidade sobretudo de termelétricas a carvão, mas também possui algumas usinas nucleares. Em decisão recente, o governo do chanceler Gerhard Schroeder comprometeu-se a desativar as usinas nucleares até 2021, sendo acompanhado pela Bélgica.

Agencia Estado,

26 de junho de 2002 | 16h33

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.