Entrevistas: Gerta Keller, Peter Schulte e Mike Benton

Pesquisadores discutem hipóteses sobre extinção dos dinossauros

Herton Escobar,

13 Setembro 2010 | 23h59

Entrevista com GERTA KELLER, professora do Departamento de Geociências da Universidade Princeton (EUA). Ela é autora de vários trabalhos que questionam a relação do impacto de Chicxulub com a extinção em massa do fim do Cretáceo. Segundo ela, o que liquidou de fato os dinossauros foi uma série de erupções vulcânicas ocorridas na região do planalto do Deccan, na Índia.

O impacto de Chicxulub teve alguma relação com a extinção em massa do fim do Cretácio, que caracteriza o chamado limite KT?

O impacto de Chicxulub não causou a extinção do KT. Os fragmentos ejetados da cratera (esférulas de vidro) que encontramos desde a Península do Yucatán até o Novo México e o Texas são todos anteriores ao impacto, de 100 mil até 300 mil anos mais antigos. Isso foi documentado em três trabalhos publicados por nosso grupo, em 2004, 2007 e 2009.

 

Se a senhora está certa, como podem tantos outros pesquisadores estarem errados? Como é possível que eles estejam interpretando as evidências geológicas de maneira tão equivocada?

A teoria do impacto se tornou muito popular, rapidamente, no início dos anos 1980, tanto entre pesquisadores quanto na sociedade e, principalmente, na mídia. Houve, então, uma corrida muito forte nas últimas décadas no sentido de confirmar essa teoria, e as evidências que não se encaixavam nela eram simplesmente ignoradas ou desacreditadas. Minha equipe trabalha há mais de 25 anos coletando evidências de mais de 150 localidades no mundo, tentando entender o que causou a extinção do fim do Cretáceo. Nesse processo, ficou claro para nós que o impacto de Chicxulub ocorreu muito antes do limite KT. Mesmo no Novo México e no Texas, a menos de 1.000 km da cratera, não há nenhuma evidência de que esse impacto tenha causado qualquer tipo de extinção ou alterações ambientais significativas. Isso nos levou a investigar as erupções do Deccan como a outra catástrofe que poderia ter causado essa extinção em massa.

 

As erupções do Deccan foram a principal causa da extinção, ou foram apenas mais um fator que contribuiu para isso, talvez enfraquecendo os dinossauros até eles serem liquidados de vez por um impacto extraterrestre?

As evidências atuais sugerem que as erupções do Deccan foram a causa principal. Sabemos agora que essas erupções ocorreram em três pulsos, e que o pulso principal ocorreu pouco antes do limite KT, correspondendo a 80% do volume de lava ejetado pelos vulcões. Não temos certeza ainda se ocorreu algum grande impacto de asteróide próximo ao limite KT, mas essa é certamente uma possibilidade, indicada pela anomalia de irídio encontrada nessa camada geológica - que não é relacionada ao impacto de Chicxulub. Seja como for, se houve um impacto, ele teria de ser muito maior do que o de Chicxulub para causar extinções globais.

 

Se os efeitos das erupções e/ou de um impacto foram tão catastróficos a ponto de exterminar os dinossauros (que eram o grupo dominante da época), como é que outros grupos de fauna aparentemente mais frágeis, como os mamíferos, sobreviveram?

Os processos de extinção são sempre seletivos, deixando alguns sobreviventes capazes de se adaptar às novas condições ambientais. Essa capacidade de adaptação é o segredo da evolução. Os dinossauros e outros grupos foram extintos porque tinham dietas muito especializadas, e dependiam de condições climáticas e ambientais muito específicas para sobreviver. Quando esses nichos ecológicos e essas fontes de alimento desapareceram, eles não foram capazes de se adaptar e morreram todos. Espécies com dietas mais variadas, como os onívoros, e capazes de tolerar condições ambientais mais diversas têm mais chances de sobreviver a esse tipo de situação.

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Entrevista com PETER SCHULTE, geólogo da Universidade Erlangen-Nürnberg, na Alemanha. Ele é o autor principal de um estudo publicado na revista Science em março, assinado por 41 pesquisadores, que faz uma revisão de todo o conhecimento disponível sobre a cratera de Chicxulub e conclui que foi o impacto de um asteróide naquele ponto que determinou a extinção dos dinossauros, 65,5 milhões de anos atrás.

 

O impacto que produziu a cratera de Chicxulub apenas desencadeou um processo de extinção em massa, ou foi ele o responsável direto pela extinção dos dinossauros? Em outras palavras: O asteróide de Chicxulub fez o trabalho sozinho, ou teve ajuda de outros fatores?

Com base nas informações disponíveis, nossa conclusão é que o impacto desencadeou mudanças ambientais extremas (escuridão e resfriamento) que, em última instância, resultaram na extinção em massa do fim do Cretáceo. Num raio de 1 mil km, todas as formas de vida teriam sido mortas diretamente pelo impacto, incinerada pela onda de radiação térmica extrema.

 

As erupções vulcânicas do Deccan tiveram alguma influência nesse processo de extinção?

Atualmente, todas as evidências sugerem que o início da extinção em massa coincide exatamente com o momento do impacto. Enquanto que as erupções violentas do Deccan começaram 400 mil anos antes, aparentemente sem causar qualquer catástrofe global.

 

O impacto de Chicxulub causou um "inverno global", ao bloquear a luz do Sol? Quanto tempo durou esse inverno escuro? E quantos graus caiu a temperatura?

Sim. Com base em nossos estudos de modelagem, e usando grandes erupções vulcânicas como analogia, acreditamos que o impacto tenha causado um período de escuridão e resfriamento, de algumas dezenas de graus, que durou desde alguns meses até anos. Escuridão e resfriamento são a explicação mais plausível para a extinção maciça de fitoplâncton marinho observada no registro fóssil após o impacto. O material particulado ejetado pelo impacto encobriu a atmosfera e se espalhou pelo planeta. A poeira fina, a fuligem e especialmente as grandes quantidades de enxofre da península do Yucatán certamente bloquearam a luz por um longo período, impedindo a fotossíntese.

 

Quanto tempo levou para o clima voltar ao "normal" após o impacto?

Nossas modelagens indicam que as perturbações climáticas mais severas duraram cerca de alguns anos. A atmosfera tem uma capacidade de regeneração muito forte. No entanto, isso não quer dizer que o sistema climático voltou imediatamente ao equilíbrio. No registro fóssil e climático, ainda vemos evidências de variações climáticas centenas de milhares de anos após o impacto.

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Entrevista com MIKE BENTON, professor de paleontologia de vertebrados no Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Bristol, na Inglaterra.

 

Quanto tempo levou para todos os dinossauros morrerem após o impacto do asteróide? Estamos falando em dias, semanas, meses, anos, décadas ... ?

Não sei se um dia saberemos isso com precisão. O horizonte da extinção pode ser visto claramente nas rochas: até o limite KT, há muitos fósseis de dinossauros e, menos de 1 cm depois, não há mais fóssil nenhum. A dificuldade é que a linha que marca o fim dos dinossauros (o limite KT) é uma lacuna geológica - quero dizer, uma mudança brusca no padrão de sedimentação. Até o limite KT, temos as rochas típicas da região. Aí aparece uma camada de 1 cm a 1 metro de argilas e outros sedimentos com irídio por cima (que é o limite KT). Depois voltam as rochas normais. Uma coisa que os geólogos provavelmente nunca conseguirão fazer é estimar a duração de uma lacuna. Portanto, o processo de extinção pode ter levado um ano para dinossauros na América do Norte (mais afetados pela onda de calor e outras conseqüências imediatas do impacto), mas pode ter levado mais tempo em outras regiões do planeta.

 

Se o impacto foi tão catastrófico a ponto de extinguir os dinossauros, pterossauros e outros grandes animais que dominaram a cadeia alimentar durante muitos milhões de anos, como é que outros grupos aparentemente mais frágeis - incluindo os pequenos mamíferos daquela época - conseguiram sobreviver?

Sobreviver a uma catástrofe muda tudo. Os caracteres que são úteis em situações normais podem ser totalmente irrelevantes numa situação crítica. A evolução não prepara espécies para lidar com eventos raros. O tipo de crise (impacto, vulcanismo, alterações climáticas) pode determinar quem vai sobreviver e quem vai morrer. ‘Fragilidade’ provavelmente não é importante - até porque, o que significa isso? Fragilidade? Em geral, em qualquer tipo de situação crítica, os animais maiores são mais vulneráveis porque precisam de mais comida e estão representados por populações menores, com menos indivíduos.

 

Que porcentual da biodiversidade global foi extinta no limite KT? Alguns pesquisadores falam em 50%.

Provavelmente nunca saberemos ao certo, porque não há como saber quantas espécies existiam até aquele momento. O dado de 50% das espécies é uma estimativa. O que podemos fazer é contar as famílias conhecidas e extrapolar para o nível de espécie (uma família pode conter centenas de espécies). Assim, calculamos que cerca de 12% a 15% das famílias que existiam no fim do Cretáceo foram extintas completamente. Pode não parecer muito, mas para cada família que foi exterminada por completo, outras tantas tiveram sua diversidade reduzida em 10% a 90%. Se uma espécie sobreviveu, podemos dizer que a família sobreviveu. Mas não significa que muitas outras espécies da mesma família não tenham desaparecido.

 

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