Enxofre pode explicar mistério do oceano de Marte

Elemento pode ter assumido papéis na atmosfera e nos mares que, na Terra, são desempenhados pelo carbono

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

20 de dezembro de 2007 | 17h20

Um dos muitos mistérios oferecidos pelo planeta Marte é a incongruência entre os contornos de certas paisagens e a composição de suas rochas: diversas áreas do planeta parecem ser leitos secos de rios, lagos e oceanos, mas a presença de carbono nas rochas - que deveria ser alta, a partir da interação entre pedra, água e a atmosfera rica em CO2 - não corresponde, nem de perto, aos níveis esperados.   Agora, um artigo publicado na edição desta semana da revista Science oferece uma possível solução: o enxofre roubou o lugar do carbono na química primitiva marciana.   "Análises do solo e das rochas de Marte mostram um enriquecimento significativo de enxofre em relação aos solos terrestres", afirma o texto, baseando-se em dados dos robôs da Nasa que estudam a superfície marciana. Esse enxofre, emitido por erupções vulcânicas, poderia ter assumido as funções que, na Terra, são desempenhadas pelo dióxido de carbono. Entre elas, a produção de um efeito estufa global intenso o bastante para permitir a existência de oceanos, e interagindo com as rochas e a água nesses mares.   Nas condições existentes em Marte há 4 bilhões de anos, diz o artigo, o CO2 presente na atmosfera não teria como competir com os compostos de enxofre, como SO2, na hora de disputar uma vaga nas reações químicas que ocorriam nos oceanos.   O resultado seriam mares muito mais ácidos que os da Terra, chuvas ácidas e, bilhões de anos depois, rochas enriquecidas de enxofre, não de carbono. E como seres vivos se virariam nesse ambiente?   "Nosso cenário não diminui a possibilidade de vida", diz o principal autor do trabalho, Itay Halevy, da Universidade Harvard. "Há vários exemplos de vida em condições muito mais radicais aqui mesmo na Terra", acrescenta. "O ambiente que propomos para o Marte primitivo é adequado para a vida. Claro, isso não prova que um dia houve uma biosfera em Marte". A teoria de que Marte pode ter tido um grande oceano em seu hemisfério norte se viu sob ataque, recentemente, com a análise de imagens da Nasa que mostram que as rochas no leito desse suposto "mar" não têm as marcas de desgaste características de pedras que foram erodidas pela água. Halevy, no entanto, diz que é preciso escavar para ter certeza.   "A superfície no norte de Marte pode ter sido refeita, por vulcanismo ou sedimentos trazidos pelo vento", diz, lembrando que, se houve um oceano ali, ele só teria durado 1 bilhão de anos. "Não sabemos o que poderá ser encontrado na crosta abaixo das camadas superiores".   A Terra também teve um passado rico em erupções vulcânicas, que também lançaram enxofre na atmosfera. Por que aqui o carbono, e não o enxofre, passou a dominar a química dos oceanos? "É interessante notar que, até 2,8 bilhões de anos atrás, não há quase nenhum registro de carbono nas rochas sedimentares da Terra", diz Halévy.   Embora reconheça que esse fato pode ser causado pela dificuldade em preservarem-se rochas tão antigas, o pesquisador especula que o dado também poderia mostrar que, nos primórdios do nosso planeta, a formação de rochas com carbono era extremamente rara - como em Marte, mais ou menos na mesma época.   "Também é importante lembrar as diferenças entre a Terra e Marte, como a existência de placas tectônicas" no nosso planeta, mas não no mundo vizinho. Essas placas, cujo movimento altera a forma dos continentes e provoca grandes terremotos, também têm um papel na reciclagem do carbono que se precipita no fundo do mar.    "Além disso, o grande volume dos oceanos terrestres faz com que seja mais difícil saturá-los de SO2. No momento, estamos investigando as implicações de nosso trabalho para a Terra primitiva", diz.

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