Equipe da UFRJ desenvolve novo antiofídico

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram uma substância que se mostrou, testada em camundongos, mais eficaz e vantajosa do que os soros antiofídicos, usados para anular o efeito do veneno de cobra no organismo. A molécula foi sintetizada a partir do piperonal, um derivado do safrol, que, por sua vez, é encontrado no óleo extraído de plantas aromáticas brasileiras.No ano passado, segundo dados preliminares do Ministério da Saúde, ocorreram mais de 23 mil casos de picadas de cobra no Brasil. Segundo o coordenador do estudo, Paulo Roberto Ribeiro Costa, do Laboratório de Química Bioorgânica do Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais (NPPN), a nova substância impede a deterioração do tecido pela fosfolipase A2, enzima existente no veneno de cobra. "Nos ratos em que se injetou a substância, a proteção foi total, já que nenhum deles morreu ou apresentou grandes danos", afirma Costa, que realizou o trabalho com estudiosos do Departamento de Farmacologia Básica e Clínica e estudantes de pós-graduação.O grupo também comprovou a ação antiofídica do edunol, produto encontrado nas garrafadas para picada de cobras vendidas por padres beneditinos do interior do Ceará. Se coube ao pesquisador Francisco Matos, da Universidade Federal do Ceará, o mérito de isolar o edunol da planta Harpalicia brasiliana (ou cabeça-de-nego), a equipe da UFRJ levou o estudo adiante ao ratificar a propriedade do conhecimento popular e desenvolver outras substâncias eficazes.VantagensAlém de maior eficácia, o derivado sintético, diferentemente dos soros antiofídicos, é polivalente, ou seja, anula a ação do veneno de qualquer tipo de cobra. Já os produtos existentes hoje são específicos. Isso quer dizer que, nos casos de picada de cascavel, apenas o soro obtido a partir do veneno de cascavel inoculado no cavalo pode ser usado. "Com a nova substância, não existe mais isso", diz o farmacêutico, especialista em síntese orgânica. O fato de ser um pó é outra vantagem da substância. "Não precisa refrigeração, como os soros antiofídicos, exigência que dificulta o seu uso em locais de difícil acesso", destaca o pesquisador, explicando que o material é misturado a um solvente natural antes de ser injetado. Costa acrescenta ainda que o fato de não ser produzida a partir da inoculação do veneno no cavalo é mais um benefício da molécula,porque não traz o risco de reações alérgicas. Além disso, é uma substância mais fácil de ser produzida em larga escala, já que é sintetizada em laboratório. O produto vai passar por testes adicionais de toxicidade em camundongos antes de ser verificado em humanos.

Agencia Estado,

05 de julho de 2004 | 03h19

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