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Brasileiros entram para o Guinness ao reconstruir casco de fêmea de jabuti em 3D

Feito de veterinários, dentistas e designer, em MT, salva fêmea de jabuti atingida por incêndio e entra para o Guinness Book 2022

Fátima Lessa, especial para o Estadão

27 de setembro de 2021 | 05h00

Uma equipe brasileira de especialistas voluntários composta por médicos veterinários, cirurgiões dentistas e um designer responsável por reconstruir e implantar um casco em três dimensões – recorrendo ao chamado sistema 3D – em uma jabota (fêmea de jabuti) entrou para o Guinness World Records de 2022. O livro foi lançado em setembro. 

O designer Cícero Moraes, um dos integrantes do grupo, morador de Sinop – no norte de Mato Grosso, distante 479 km de Cuiabá –, contou ao Estadão, por telefone, que foi um projeto de reconstrução com muitos desafios técnicos a superar antes do final feliz. Para a reconstrução do casco foi empregada a técnica conhecida como fotogrametria, também bastante utilizada por arqueólogos e adaptada para reconstruir crânios, cenas de crimes e até para construções arquitetônicas. 

Batizada de Freddie, a jabota, que teve o casco destruído num incêndio em uma área de Cerrado, região de Brasília, perdeu 85% dele na queimada e posteriormente ficou sem os 15% restantes. Encontrada por um casal na beira da estrada, Freddie foi levada até dois irmãos veterinários, Rodrigo e Mateus Rabelo, que trabalham com animais silvestres. Ao chegar, seu corpo já estava sendo devorado por larvas de moscas. No processo de recuperação ela sofreu duas crises de pneumonia e ainda ficou 45 dias sem comer. 

Para construir a prótese, Moraes recebeu diversas fotografias para fazer a chamada volumetria da jabota. Em seguida recorreu a um amigo que tem um jabuti saudável, de estimação: valeu-se dele como parâmetro. Foi fotografada detalhadamente toda a estrutura do animal (superior, inferior) e a volumetria foi inteiramente remodelada a partir dessas fotos. 

'Não podíamos errar'

Segundo Moraes, dois dos momentos mais difíceis e complexos em todo esse processo foram a medição da prótese, em quatro partes, e, em seguida, a impressão em 3D. "Na medição, a gente nunca tinha feito isso e não podíamos errar", recorda o designer. Com relação à impressão, "não necessariamente pela forma do modelo, apenas, mas o tempo gasto em cada uma das impressões". 

As peças maiores levaram 50 horas para serem impressas cada uma. As menores um pouco menos, entre 28 e 35 horas. As impressões foram feitas pelos cirurgiões dentistas Paulo Miamoto e Paulo Esteves, que limparam e prepararam as peças para que fosse feita a cirurgia posteriormente. Não foi necessário parafusar, como o grupo chegou a pensar que seria preciso. A equipe de cirurgia foi coordenada pelo veterinário Roberto Fecchio.

De volta

Moraes explicou, na conversa, que a prova concreta de que "tudo tinha dado certo" foi quando a jabota voltou da anestesia. "O primeiro movimento foi de se esconder no casco." Ao final, para fechar com chave de ouro toda a aventura, ele menciona a etapa artística de toda a operação: "Tivemos a ajuda de um engenheiro, Yuri Caldeira, que também é artista plástico e mora em Brasília". Sabendo da tarefa dos amigos, ele se propôs a pintar o casco da Freddie. Retirado da jabota, ele foi levado até a casa dele – e Caldeira se dedicou, nos detalhes, a criar uma pintura realística a base de tinta acrílica, que tem a vantagem de secar mais rápido. 

O projeto, desde a fase da digitalização até a colocação no corpo da jabota, foi executado em um mês. A equipe de especialistas formada por voluntários é conhecida pelo nome de "Animal Avengers". Integram esse grupo Roberto Fecchio, Rodrigo e Matheus Rabelo e o cirurgião-dentista Paulo Miamotto. 

Bem-sucedida a missão, Freddie vive agora em uma chácara configurada para receber animais silvestres, em Brasília. Atualmente, o designer Cícero Moraes já se dedica a uma nova missão. Ele participa da reconstrução da prótese facial de um cão queimado no mato.

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