Especialista fala sobre caça e manejo de fauna

"Em algum momento, o Brasil terá de rever suas leis relativas à caça de animais silvestres, separando subsistência de caça comercial. Proibir tudo dificulta o manejo", esta é opinião do especialista em conservação de fauna, Kent Redford, da Wildlife Conservation Society, que falou hoje sobre manejo dos recursos naturais pelas populações tradicionais nas unidades de conservação, no encerramento do III Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Em muitos casos, apesar da caça ser ilegal em todo o país, comunidades inteiras dependem da carne de animais silvestres para subsistência e acabam contribuindo para um mercado paralelo, de venda de excedentes ou caça por encomenda. Em algumas regiões do Acre, por exemplo, a caça é tão intensa, que as florestas já não tem mais grandes mamíferos ou aves. E, em quase toda a Amazônia, persiste o comércio ilegal de quelônios (tartarugas fluviais) inclusive para abastecer festas das classes médias e alta, nas capitais.Em entrevista à Agência Estado, Redford explicou que o risco maior é deste mercado paralelo se transformar em uma rede comercial, se houver demanda de exportação, como vem acontecendo no Sudeste Asiático. A população do Camboja, Tailândia e Vietnã nunca consumiu camaleões, tartarugas e serpentes, mas hoje os caça aos milhares para exportar para a China, onde uma parte da população começa a ter rendasuficiente para pagar por estes artigos, lá considerados iguarias ou vendidos como amuletos "medicinais". "Se a demanda por tartarugas da China se voltar para a Amazônia, os atuais problemas com o consumo ilegal de quelônios parecerão brincadeira", argumenta o especialista.Redford mencionou algumas experiências bem sucedidas de manejo de fauna silvestre em reservas extrativistas, como a do pirarucu, um dos maiores peixes amazônicos, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, no Amazonas. Em algumas reservas extrativistas do Juruá e no Solimões, a proteção aos bancos de areia onde desovam as tartarugas fluviais também vem obtendo bons resultados.A revisão das leis de caça permitiria ao país discutir mais claramente o manejo de fauna, por natureza bem mais difícil nas florestas tropicais, do que nas florestas temperadas. Nas florestas tropicais há mais espécies e populações menores de cada espécie, com uma intrincada rede de relações de dependência entre elas. "O mundo ecológico é muito mais complicado do que jamais se imaginou que poderia ser", observou.Mesmo assim, Redford acredita que o manejo de fauna é possível, até em florestas nacionais, cuja função básica é a extração racional de madeira e castanhas, frutas, piaçava, palmito, etc. "Desde que as equipes que estejam trabalhando na extração destes produtos não cacem e as madeiras retiradas não formem grandes clareiras nem sejam espécies-chave para a fauna, é possível obter bons resultados na conservação dos mamíferos e aves, mesmo onde a floresta está sendo explorada", disse. Há cerca de 7 anos, sua equipe vem monitorando a fauna em uma área de exploração madeireira do Congo, onde foi feito um acordo com os madeireiros e eles estão evitando caçar. "Os mamíferos vão indo muito bem, contrariando o que sempre se falou, que a exploração madeireira é incompatível com a conservação", observou.O III Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação reuniu 1255 pesquisadores, técnicos de órgãos ambientais e diretores de unidades de conservação. Seus participantes aprovaram um documento, a Carta de Fortaleza, no qual se comprometem a tomar diversas medidas para aumentar a proteção à biodiversidade brasileira e implementar efetivamente as unidades de conservação, além de criar as novas unidades, previstas no projeto Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA), cuja meta é chegar a 12% do território amazônico protegido até 2012. Íntegra da Carta de Fortaleza:

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