Especialistas criticam texto para a Rio+10

Vários especialistas disseram hoje que o rascunho do texto para a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentado, a Rio +10, que começará na segunda-feira, é quase ininteligível, por conter termos complexos e confusos, além de expor uma clara divisão entre os países ricos, que buscam evitar compromissos concretos, e as nações pobres, que anseiam por ajuda.A cúpula, que durará dez dias e será realizada em Johannesburgo, na África do Sul, contará com a participação de mais de 40 mil delegados e cerca de 100 líderes mundiais. Deverão ser discutidas formas de melhorar as políticas sobre a água, a energia, a agricultura, a saúde e a biodiversidade.O texto, de 77 páginas, a ser debatido durante o encontro, deveria ressaltar o que precisaria ser feito até 2015 para reduzir a pobreza à metade, protegendo, ao mesmo tempo, o planeta, mas está cheio de frases dizendo que as nações "fortalecerão", "promoverão", "apoiarão" políticas, sem deixar claros seus compromissos."Há apenas alguns objetivos precisos e grande parte desse texto é de declarações de intenções que não é possível verificar nem medir", observou Stephen Peake, conferencista da Open University da Grã-Bretanha, que já trabalhou em documentos similares para a Organização das Nações Unidas (ONU)."Eles usam frases como associações públicas/privadas, associações voluntárias, tudo é jargão diplomático e na realidade não significa nada", disse, por sua vez, o ativista do Greenpeace Steve Sawyer.O Greenpeace, aliás, acusou hoje os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália, que define como "os três sujos", de ter minado, nos últimos dez anos, os acordos da primeira cúpula mundial, a Eco 92, realizada no Rio de Janeiro, em 1992."Os três países vêm enfraquecendo, desde essa época, os esforços conservacionistas de todos os fóruns mundiais", afirmou o diretor de Política da organização e chefe da delegação participante da Rio +10, Rémi Parmentier.Ele lamentou que esses países, "que contam com grandes recursos para contribuir eficazmente com a conservação do planeta, estejam exatamente à frente da oposição a esses esforços" e criticou a administração de George W. Bush, a primeira a renegar o Protocolo de Kyoto sobre as mudanças climáticas, que estabelece cotas obrigatórias de redução da emissão de gases poluentes.Parmentier disse que apesar do entusiasmo causado pelos acordos feitos no Rio, em 1992, a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 94, foi "a resposta do neoliberalismo às propostas e compromissos assumidos". "As políticas de liberalização da economia a todo custo tiveram alto preço para o meio ambiente".

Agencia Estado,

21 de agosto de 2002 | 19h20

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