Especialistas tentam reverter declínio dos oceanos

A imensa área ocupada pelos oceanos ? 71% da superfície do planeta ? dá a impressão errônea de que seus recursos são infinitos ou de que suas águas absorvem todo tipo de dejeto produzido pelo homem. Mas os oceanos também se esgotam e os sinais de degradação vem se tornando mais evidentes, a cada ano. Para tentar reverter este quadro, 150 especialistas em conservação, economistas e representantes de indústrias, de mais de 20 países, estão reunidos em Los Cabos, no México, de hoje, 29 de maio, a 3 de junho. A conferência ?Desafiando o Fim dos Oceanos? é organizada por grandes entidades ambientalistas internacionais ? entre as quais estão a Conservation International, The Nature Conservancy, o World Wildlife Fund e o Natural Resources Defense Council ? e deve unir esforços de todos os setores ? produtivo, governamental e não governamental ? em torno de estratégias de médio e longo prazo para desacelerar o declínio dos recursos marinhos, proteger a biodiversidade e assegurar a continuidade dos serviços ambientais prestados pelos oceanos.Entre tais serviços ambientais estão, por exemplo, a produção e absorção de gases importantes. Cerca de 70% do oxigênio atmosférico é gerado nos oceanos, onde também é absorvido um grande porcentual do gás carbônico emitido pela queima de combustíveis fósseis ou por diversos usos da terra. De um total aproximado de 8 bilhões de toneladas de gás carbônico emitido, os oceanos retiram da atmosfera entre 1,7 e 2 bilhões, contribuindo, assim, significativamente, para desacelerar o aquecimento global.Os oceanos ainda garantem milhões de toneladas de pescados, crustáceos, algas e moluscos, que alimentam a população humana. Entre 70 e 75 milhões de toneladas de peixes são retiradas dos mares, todos os anos, sendo 30 milhões para consumo humano. Conforme um estudo, coordenado pelo biólogo e especialista em pesca, Ransom Myers, e publicado na revista Nature deste mês de maio, a indústria pesqueira já teria acabado com 90% dos estoques dos grandes peixes comerciais, de todos os mares, e pelo menos 70% das espécies pescadas são consideradas exauridas ou já entraram em colapso.Vale destacar que, nos oceanos, vivem 85% das espécies do planeta, boa parte das quais se concentra em torno dos recifes de corais, que também apresentam sinais claros de declínio, decorrente da poluição química (sobretudo derramamentos de petróleo e derivados), da poluição biológica (esgotos) e do turismo e coleta predatórios. Os corais ocupam apenas um centésimo da área dos oceanos, mas pelo menos a metade das espécies de peixes marinhos dependem deles, em algum momento de sua vida, seja para abrigo ou alimento. Estima-se que 10% dos corais já tenha se degradado de modo irreversível e outros 60% correm alto ou médio risco de seguir o mesmo caminho.Apesar de toda sua importância para subsistência do homem, os oceanos praticamente não contam com políticas de conservação. Enquanto parques e reservas abrangem algo em torno de 9% da superfície terrestre, nos oceanos, as unidades de conservação ocupam menos de 1%. Fora delas, são jogadas cerca de 6,5 milhões de toneladas de lixo, por ano, sem contar os acidentes com vazamentos de petróleo, os naufrágios de navios e submarinos com carga ou combustível nucleares e as descargas contínuas de esgotos.?As pessoas comuns talvez se perguntem o que podem fazer?, comenta Sylvia Erle, coordenadora da conferência no México e responsável pelo Programa Global de Conservação Marinha, da Conservation International. ?Antes de tudo é preciso mudar a percepção sobre os oceanos. Conhecimento é o primeiro e mais importante passo para a compreensão de que há limites para o que podemos fazer ao mundo à nossa volta, sem prejudicar nossa própria sobrevivência e bem-estar?.

Agencia Estado,

29 de maio de 2003 | 19h07

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.