Especialistas tentam salvar muriqui da extinção

Um comitê de especialistas foi criado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para proteger os muriquis - também conhecidos como monocarvoeiros -, uma das cinco espécies mais ameaçadas de extinção entre os primatas brasileiros e uma das 25 mais ameaçadas do mundo, segundo lista internacional divulgada no início de outubro.O papel do comitê será principalmente o de sugerir estratégias para a conservação das duas espécies de muriquis, que habitam regiões de Mata Atlântica. A primeira reunião do grupo aconteceu hoje, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Segundo Marcelo Marcelino, chefe do Centro de Primatas do Ibama, o local foi escolhido porque um dos elementos catalisadores para a formação do comitê foi o Programa de Conservação do Muriqui desenvolvido no local, em parceria com a Fundação Tereviva, que permitiu a reunião de pesquisadores e interessados na questão.Através da pesquisa foi confirmada a existência de grupos de muriquis na Serra dos Órgãos, que antes só havia sido relatada em descrições antigas ou depoimentos de montanhistas. ?Conseguimos encontrar, já nas primeiras expedições, vários grupos, somando entre 60 e 70 indivíduos, incluindo filhotes, que foram documentados através de filmes e fotos?, conta Jovelino Muniz de Andrade Filho, representante das unidades de conservação federais do Sudeste. A primeira ação do comitê será apoiar a segunda fase desse projeto, que consistirá na pesquisa da ecologia e comportamento da espécie, através da colocação de rádio colar. ?Fizemos uma experiência com animais em cativeiro e agora colocaremos, pela primeira vez, os colares em muriquis soltos na natureza. O objetivo é conseguir fazer um manejo conservacionista da espécie?, explica Cláudio Pádua, diretor científico do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ).Segundo o especialista, a mesma metodologia deverá ser levada para outras unidades de conservação, onde existem relatos da presença de muriquis, como os parques nacionais de Itatiaia e Bocaina, Reserva Biológica de Tinguá e Área de Proteção Ambiental Cairuçu, todos no Rio de Janeiro. ?O comitê deverá desenvolver um plano de ação para toda a Mata Atlântica, com uma divisão de pesquisas por região?, diz Pádua. Além do Ibama e do IPÊ, estão representados no comitê a Fundação Biodiversitas, o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, a Universidade Federal do Espírito Santo e a Universidade de Wisconsin (EUA).Duas espéciesMaior primata brasileiro, o muriqui é separado em suas espécies, por conta de diferenças morfológicas e sociais. O muriqui do Norte (Brachyteles hypoxanthus) possui face e genitália manchadas de rosa e branco e vestígios do dedo polegar. Ocorre em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro e, originalmente, também na Bahia. O muriqui do Sul (Brachyteles arachnoides) apresenta a face e a genitália inteiramente de cor negra e sem qualquer vestígio do dedo polegar. Sua área de distribuição inclui Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.Os muriquis, ou monocarvoeiros, são animais que chegam a medir 1,40 m da cabeça à extremidade da cauda e pesam até 15 quilos. Sua pelagem é espessa e de cor amarelada. Alimentam-se de folhas, flores e frutos e vivem em grupos que variam entre sete e trinta indivíduos. Sua população original chegou a se estimada em 400 mil indivíduos, mas os dados mais recentes sugerem que a população esteja reduzida a menos de 2 mil exemplares.Os mais ameaçadosO muriqui do Norte é uma das três espécies brasileiras incluídas na lista de 2002 dos 25 primatas mais ameaçados do mundo, segundo levantamento da Conservation Internacional (CI) e do Grupo de Especialistas em Primatas da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN), divulgada no início deste mês. As outras espécies brasileiras são o mico-leão-caiçara (Leontopithecus caissara), do Paraná, e o macaco-prego do Sul da Bahia (Cebus xanthostemos).Segundo Russ Mittermeier, presidente internacional do CI , 23 dos 25 primatas da lista foram encontrados em áreas de hotspots - as regiões mais ameaçadas entre as de maior biodiversidade do planeta, segundo estudos do CI, do qual a Mata Atlântica faz parte. Além do Brasil, os macacos mais ameaçados de extinção estão presentes em Madagascar, Costa do Marfim, Gana, Quênia, Tanzânia, Indonésia, Vietnã, China, República Democrática do Congo, Ruanda, Uganda, Nigéria e Camarões. Entre as espécies listadas, estão o gorila das montanhas, encontrado na República do Congo, Ruanda e Uganda, e o orangotango da Indonésia.

Agencia Estado,

18 de outubro de 2002 | 16h34

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