Espécies da mata sobrevivem nas ilhas verdes de São Paulo

Pouca gente sabe e são muito raros os que já viram, mas uma preguiça vive na copa das árvores do Jardim da Luz, no coração da metrópole paulistana. Espécie nativa da Mata Atlântica, de gestos extremamente lentos, hábitos noturnos,muito silenciosa e discreta, ela é a antítese das pessoas que passam apressadas, alguns metros ali abaixo, nos passeios da pequena ilha verde, que se espreme entre a Pinacoteca do Estado, a Estação da Luz e a movimentada Avenida Tiradentes.A preguiça da Luz é só um exemplo das várias espécies de animais silvestres que vivem e até se reproduzem nas zonas urbanas, a despeito da proximidade com o homem e da hostilidade do meio. A diversidade de aves é uma das maiores, dadasua mobilidade natural e facilidade de encontrar alimento e abrigo, mesmo em edificações ou árvores isoladas.AvesSegundo os levantamentos feitos pelo Centro de Estudos Ornitológicos (CEO) no centro de São Paulo, existem pelo menos 30 espéciesnativas de aves, incluindo uma ameaçada de extinção, que é o maracanã nobre (Ara nobilis).SerpentesMas a riqueza em espécies de serpentes também é grande. Embora elas raramente estejam à vista ou passeando pelas ruas, há registros, no Instituto Butantã, de 26 espécies diferentes de serpentes capturadas em São Paulo, num raio de 10 quilômetros em torno da Praça da Sé. As mais comuns são inofensivas, porém a lista não exclui espécies peçonhentas, como jararaca,cascavel e coral verdadeira.Ratos e outros bichosEntre os mamíferos, ratos e camundongos, importados há séculos dos porões de navios europeus, excedem em número qualquer espécie nativa. Mas não é desprezível a população de morcegos - sobretudo os que se alimentam de frutas, insetos e néctar -, gambás, sagüis, quatis, macacos e as resistentes capivaras do Tietê.Lagartos e anfíbios são mais raros, devido àdificuldade de encontrar água adequada às suas exigências, de alimentação e/ou reprodução. Mas eles também têm seus representantes urbanos, como o lagartinho mabuia e uma boa variedade de sapos e pererecas.Onívoros"Em geral, as espécies de ambientes urbanos são comuns, de ampla distribuição, originárias de habitats parecidos com os urbanos ou resistentes a alterações de habitat, sem grandes preferências ambientais, capazes de se adaptar ao alimento disponível (espécies onívoras ou oportunistas)", explica Luiz Fernando de Andrade Figueiredo, médico sanitarista e um dos fundadores do CEO, entidade não-governamental abrigada na Universidade de São Paulo (USP).Observadores de avesDesde 1984, o CEO reúne observadores de aves para troca de informações, livros, vídeos e para saídas de observação, quando entãosão registradas as aves, identificadas visualmente ou pelo canto.É deles a lista de 30 espécies nativas presentes no Centro da capital paulistana, nas ilhas de verde cercadas de asfalto, prédios, barulho e trânsito, como o Jardim da Luz, Praça da República, Parque D. Pedro e mesmo a Praça da Sé.Na lista, figuram espécies bem populares e facilmente reconhecidas, como o periquito verde, o tico-tico, o bem-te-vi e o sabiá, espéciepreferida dos aposentados e donas-de-casa, que para eles muitas vezes deixam frutas nas janelas e sacadas de prédios.Ninho em prédiosExistem, também, algum as espécies menos conhecidas, como o suiriri cavaleiro, que se alimenta de insetos de gramados, osanhaço cinza, o tic-tic e a coruja suindara. E até espécies aparentemente frágeis, como os beija-flores, ou rejeitadas, comoos urubus, que chegam a fazer ninhos no alto dos prédios.Às vezes, a presença de uma determinada espécie numa dessas ilhas, depende de colaborações involuntárias, como a dosadeptos da "pelada" no Parque D. Pedro, que provavelmente nem suspeitam do papel vital de seu campinho de futebol para garantir o material básico de construção do ninho do joão-de-barro, instalado numa das árvores vizinhas ao gol."O recurso fundamental para uma espécie sobreviver ali pode ser um laguinho ou um pequeno bebedouro, onde tenha água mesmodurante os meses mais secos, ou uma árvore que dá frutos no inverno, ou uma palmeira, que dá frutos durante vários meses", acrescenta Figueiredo.Segundo ele, o planejamento urbano deveria ser pensado de modo a favorecer a biodiversidade.Corredores de faunaCláudio Pádua, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê), especialista em Biologia da Conservação, vai mais longe. "Osplanejadores deveriam criar corredores urbanos de fauna, de modo a evitar o isolamento das ilhas de verde e conectar praças, árvores de rua e jardins, além de garantir alimento, abrigo e água durante todo o ano, exatamente como fazemos comremanescentes florestais, em ecossistemas muito fragmentados, como a Mata Atlântica", recomenda."A fauna melhora a qualidade de vida da cidade e, se não for agredida, consegue conviver bem com o homem, embora, evidentemente, a biodiversidade urbana seja bem menor do que a das matas".Esta biodiversidade urbana naturalmente inclui outras espécies, nem tão amadas e respeitadas como as aves. Há cerca de 10 anos, Giuseppe Puorto, do Instituto Butantã, resolveu tirar a limpo a existência de diversas espécies deserpentes na cidade de São Paulo, levadas até o instituto para identificação ou porque haviam gerado receio entre os moradores dos locais onde foram encontradas.Num raio de 10 quilômetros, a partir da Praça da Sé, ele confirmou a existência de pelo menos 26 espécies de serpentes , uma diversidade que não se encontra em todo o território de algunspaíses europeus. "Não voltamos a fazer um levantamento ativo, mas continuamos recebendo a mesma variedade de espécies e registramos sempre o local de captura, de modo que a situação permanece a mesma", diz Puorto.DormideiraNa lista do Butantan, a maioria dasserpentes "urbanas" a limenta-se de ratos ou outros animaizinhos comuns nos jardins, comocaracóis e lesmas, prato preferido da dormideira (Sibynomorphus mikanii), a cobra mais comum da capital paulistana.]Pequena e tranqüila, de hábitos noturnos, ela se esconde fácil deba ixo de folhas e pode viver durante anos num terreno abandonado ou num pequeno quintal, antes de ser notada. "Uma vez fomos chamados no Brooklin, numa área cercada de casas, onde havia um único lote semconstruções, totalmente ilhado: ali viviam 3 dormideiras, provavelmente se reproduzindo porque havia jovens e adultos", continua Puorto.A segunda cobra mais comum é a falsa coral (Oxyrhopus guibei), que se alimenta de ratos. Em seguida vem a cobra de duascabeças (Liotyphlops beui), que vive embaixo da terra e só aparece em obras com escavações ou quando há inundações.Embora 23 das 26 espécies sejam serpentes não-venenosas, os registros incluem populações de três espécies peçonhentas, que também conseguem sobreviver próximo ao homem: a jararaca, a cascavel e a coral verdadeira.Resistência à poluiçãoEntre os mamíferos, a espécie mais resistente parece ser a capivara. O teste de sobreviver ao rio Tietê, praticamente sem sair da calha do rio, mergulhando em suas águas e comendo o capim das margens, dispensa maiores provas.Num plano de manejo, coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos NaturaisRenováveis (Ibama), as capivaras do Tietê agora estão sendo retiradas da área mais central, seguindo para um ambiente mais saudável, no Parque Ecológico do Tietê. JacarésTalvez a mesma providência devesse ser tomada com um grupo de jacarés-do-papo-amarelo, que descobriu a água morna da saída de efluentes da Cosipa, em Cubatão, e lá se instalou. A espécie é originária da Mata Atlântica e está entre asameaçadas de extinção, mas parece resistir bem às águas ricas em poluentes.Na verdade, como as capivaras do Tietê, os jacarés de Cubatão correm um outro risco, historicamente mais comum: a caça.Moradores de favelas vizinhas aos dois locais têm praticado a caça ilegal, mesmo em zona urbana ou industrial.Segundo Wilson Lima, gerente do Ibama-SP, o que acelerou a retirada da capivaras do Tietê não foi apenas a poluição das águas e apossibilidade de atropelamento nas marginais, que deve intensificar-se com as obras de dragagem do rio. "Também recebemos denúncias de abate de capivaras por moradores de algumas favelas locais", conta.Responsável pela fauna silvestre eventualmente encontrada na metrópole paulistana, Lima coleciona chamados para capturarsagüis, quatis, macacos-prego, gambás, araras e gaviões."O ideal seria manter esta fauna na cidade mesmo, a menos que haja estresse, devido ao excesso de visitas da população local ou agressão", diz o gerente do Ibama. "Em muitos casos, elas estão mais protegidas na cidade, quando não são caçadas e onde já existe uma cultura de convivência. A fauna urbana deve ser manejada, mas não há necessidade de ser removida, afinal, fomos nós que ocupamos o espaço dos animais e podemosajudar a fauna urbana a entrar em equilíbrio".

Agencia Estado,

01 de novembro de 2002 | 21h20

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