Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Estadão na Antártida, dia 10: Canais chilenos

Durante travessia que leva ao país sul-americano, analisamos a passagem dos exploradores em mais de cem anos de atividade baleeira, que deixou rastros icônicos

Luciana Garbin, enviada especial / ANTÁRTIDA, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 17h46

10º dia

Canais chilenos - 27/02/2019, 17h46

Quando você estiver lendo este texto, provavelmente estarei incomunicável em algum ponto dos Canais Chilenos. Eu o escrevi no domingo passado, dia em que deixamos a Estação Antártica Comandante Ferraz. Antes das despedidas, fui fazer um último passeio pelas imediações e novamente me impressionei com uma cena que já vi algumas vezes nesses últimos dias: vários ossos antigos de baleia espalhados pelo chão.

Os registros da atividade baleeira que dizimou animais marinhos entre os séculos 19 e 20 continuam muito presentes na Antártida. Bem perto da estação brasileira está a ossada de uma baleia azul montada pelo explorador francês Jacques Cousteau em 1973. Mas em vários outros pontos também há retratos da carnificina.

Região mais inóspita do planeta, a Antártida já era imaginada pelos gregos antigos. Pelo princípio da simetria, eles acreditavam que deveria existir um continente austral para contrabalançar o Ártico. O nome que conhecemos vem daí: Antartikos deriva de anti (oposto) e arktós (urso), uma referência à estrela polar da constelação Ursa Menor, vista no Hemisfério Norte.

Mas por muitos e muitos séculos, o extremo sul do planeta permaneceria inexplorado. Embora existam relatos de que navegadores portugueses tenham passado por lá no século 16 a bordo de frágeis caravelas, quem mais frequentou o continente antártico ao longo do século 19 e início do 20 foram baleeiros atrás de focas, baleias e elefantes marinhos. Só depois viriam os pesquisadores. Em 1820, o russo Fabian von Bellinghausen comandou a primeira expedição de seu país à região. Já a Espanha mandou Gabriel de Castilla, que hoje dá nome a uma das duas bases do país na região. Mas os nomes mais populares quando se fala em exploração do continente gelado são Roald Amundsen, Robert Falcon Scott e Ernest Shackleton.

Em 6 de agosto de 1901, um vapor chamado Discovery deixou a Inglaterra rumo à Antártida. Levava a bordo o comandante Scott e o jovem tenente irlandês Shackleton, então com 27 anos. Cinco meses depois, o Discovery chegou a Terra Vitória, onde passou o inverno atracado. O plano de Scott e da Sociedade Geográfica Real, do qual era membro, era alcançar o Polo Sul. O comandante avançou quase 800 quilômetros pelo gelo com sua tripulação, mas, ao atingir a latitude 82º 17', resolveu voltar. Muitos de seus homens estavam cegos pela brancura do gelo, Shackleton sofria com escorbuto e os cachorros levados para puxar trenós tinham caído em fendas de gelo ou sido abatidos para virar comida. De volta a Londres, Scott irritou Shackleton ao mencionar sua baixa resistência numa palestra. O irlandês decidiu então montar a própria expedição e, em agosto de 1907, partiu para a Antártida no Nimrod. Em janeiro de 1908, alcançou o Estreito de McMurdo com trenós, pôneis da Manchúria e um carro para gelo. Seu plano era ir e voltar do Polo Sul num trajeto de 2,8 mil km. Ele e alguns integrantes do grupo saíram em outubro de 1908 e, no dia 26 de novembro,  superaram o ponto onde Scott tinha decidido retornar. Mas em 9 de janeiro de 1901, a apenas 179,6 quilômetros do destino final, Shackleton também resolveu voltar: os suprimentos não dariam para a viagem de retorno.

+++ Acompanhe a aventura dia a dia

Em 1º de junho de 1910, foi a vez de Scott seguir de novo para a Antártida. Na Austrália, foi informado por telegrama que Roald Amundsen também tentaria chegar ao Polo Sul. Logo o norueguês, que havia virado notícia em 1905 ao descobrir uma passagem no Ártico perseguida havia muito tempo. A batalha do britânico e do norueguês começou em 1911. Em 19 de outubro, Amundsen deixou a Baía das Baleias com quatro homens e trenós puxados por 52 cães. No dia 7 de dezembro, ultrapassou a marca de Shackleton. Em 14 de dezembro, às 15 horas, hasteou a bandeira da Noruega no Polo Sul e deixou uma carta para Scott entregar ao rei de seu país caso ele morresse na volta. Mas ele não só conseguiu retornar como entrou para a história.

Scott só repetiu o feito de Amundsen mais de dois meses depois. Chegou ao Polo Sul em 18 de fevereiro de 1912 e não acreditou ao ver a carta e a bandeira do rival. Desolado, iniciou a viagem de volta, cujo desfecho comoveria a Inglaterra. Após ver companheiros morrerem de frio, Scott também não resistiu e acabou morrendo numa tempestade de neve em 21 de março de 1912. Estava a apenas 20 quilômetros de One Ton Camp, estação com alimentos e combustíveis.

Dois anos mais tarde, Shackleton acabou vivendo uma das maiores aventuras da história da navegação. Em março de 1914, ele decidiu fazer a travessia do Mar de Weddell ao Estreito de McMurdo. Mas seu navio, o Endurance,  passou meses encalhado e afundou após ter o casco estraçalhado pela pressão das geleiras. Shackleton e seus 26 homens partiram então com barracas, suprimentos e três barcos pelo gelo. Em 15 de abril, após enfrentarem várias horas de mar agitado, conseguiram chegar à Ilha Elefante. Convencido de que só conseguiria socorro se alcançasse as Ilhas Geórgia do Sul, a 1,3 mil quilômetros, o comandante irlandês se lançou numa viagem épica com cinco de seus homens no pequeno barco James Caird. Dezoito dias depois, concluiu a façanha, mas chegou do lado errado da ilha. A solução foi partir caminhando pelo gelo com dois dos cinco homens. Após várias horas mais de aventura, com direito a escalar montanhas cobertas de gelo, eles alcançaram uma estação baleeira e conseguiram ajuda para resgatar os três homens que tinham ficado do outro lado. Meses depois, com auxílio dos chilenos, encontrou os outros 21 tripulantes na Ilha Elefante.

A história virou tema de vários livros e filmes. Um deles – 'Shackleton', de 2002 - faz parte da lista de longas disponíveis na Praça D'Armas do navio Ary Rongel.

Em 1929, a bordo do trimotor DC-3 Floyd Bennett, o almirante americano Richard Bird alcançou o Polo Sul pela primeira vez por via aérea. Em 1956, os americanos inauguraram sua segunda estação no continente exatamente no Polo Sul geográfico. Na área onde Amundsen fincou a bandeira da Noruega em 1911 e onde Scott se desesperou ao vê-la semanas depois, existe hoje a base Amundsen-Scott.

Em dezembro do ano passado, o também americano Colin O'Brady se tornou o primeiro homem a atravessar a Antártida a pé sozinho e sem assistência. Em 54 dias, ele percorreu 1,5 mil quilômetros. "Linha de chegada! 32 horas e 30 minutos depois de deixar meu último acampamento na manhã de Natal eu percorri as 80 milhas restantes em uma contínua 'ultramaratona antártica' no esforço para chegar ao final", comemorou O' Brady, em 26 de dezembro último.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Day 54: FINISH LINE!!! I did it! The Impossible First ✅. 32 hours and 30 minutes after leaving my last camp early Christmas morning, I covered the remaining ~80 miles in one continuous “Antarctica Ultramarathon” push to the finish line. The wooden post in the background of this picture marks the edge of the Ross Ice Shelf, where Antarctica’s land mass ends and the sea ice begins. As I pulled my sled over this invisible line, I accomplished my goal: to become the first person in history to traverse the continent of Antarctica coast to coast solo, unsupported and unaided. While the last 32 hours were some of the most challenging hours of my life, they have quite honestly been some of the best moments I have ever experienced. I was locked in a deep flow state the entire time, equally focused on the end goal, while allowing my mind to recount the profound lessons of this journey. I’m delirious writing this as I haven’t slept yet. There is so much to process and integrate and there will be many more posts to acknowledge the incredible group of people who supported this project. But for now, I want to simply recognize my #1 who I, of course, called immediately upon finishing. I burst into tears making this call. I was never alone out there. @jennabesaw you walked every step with me and guided me with your courage and strength. WE DID IT!! We turned our dream into reality and proved that The Impossible First is indeed possible. “It always seems impossible until it’s done.” - Nelson Mandela. #TheImpossibleFirst #BePossible

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