Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Estadão na Antártida, dia 12: Punta Arenas

Ponto final da expedição antártica é no porto chileno, após quase duas semanas de exploração do continente gelado

Luciana Garbin, enviada especial / ANTÁRTIDA, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2019 | 17h59

Dia 12

Punta Arenas - 01/03/2019, 17h59

Vinte e dois degraus encerraram nossa expedição pela Antártida. Descemos do Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel no meio da manhã de hoje, cerca de uma hora depois de ele atracar no Porto de Punta Arenas, no Chile. Na mala, um certificado de participação na 37ª Operação Antártica (Operantar) e um diploma com os locais visitados no continente austral. Na cabeça, uma pergunta: será que algum dia voltaremos ao extremo sul do planeta?

Conhecer a Antártida sempre foi um sonho. Nos anos 1990, quando cursava Jornalismo na Universidade de São Paulo, me inscrevi como voluntária no Programa Antártico Brasileiro. Mas não fui escolhida. Anos depois, viajei para Ushuaia, na Argentina, e me encantei ao ver no porto um navio de casco vermelho pronto para seguir para a Península Antártica. A possibilidade real de conhecer o continente gelado só surgiu no entanto em 2017, quando começaram as negociações com a Marinha do Brasil para uma reportagem sobre a nova Estação Comandante Ferraz, a casa brasileira na Antártida.

Só se consegue chegar na Ilha Rei George, onde fica a estação, com auxílio das Forças Armadas, mais especificamente dos Hércules C-130 da FAB, que voam de Punta Arenas até o Aeródromo da Base Chilena Presidente Frei Montalva, e dos dois navios da Marinha, o Ary Rongel ou o Almirante Maximiano.

Viabilizar a viagem, porém, dá trabalho. As rotas para a Antártida são feitas apenas no chamado verão antártico, entre meados de outubro e fim de março, porque nos meses mais frios boa parte da água do mar congela e o Brasil não tem navios quebra-gelo. É preciso entrar numa fila de pedidos de veículos de comunicação e esperar a vez. Aí vem a primeira lição: quando o tema é Antártida, é enorme a chance de um plano mudar de uma hora para outra.

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Depois de um ano de expectativa e três passagens compradas e canceladas por causa de mudanças de data, eu e o repórter fotográfico Clayton de Souza conseguimos enfim passar essas duas últimas semanas na Antártida. E o que vimos valeu cada minuto de esforço e incerteza. O continente mais frio, inóspito e desconhecido da Terra retribui o visitante com paisagens incríveis e histórias emocionantes. Mas há também um lado que não costuma aparecer nas reportagens, mas que fizemos questão de contar neste diário: a dos marinheiros que passam meses a bordo dos navios antárticos, dos mergulhadores “sem alma”* que pulam na água gelada para empurrar os botes, dos pesquisadores que gastam semanas acampados em meio ao gelo, dos tripulantes que trabalham no Drake mesmo mareados.

O Drake, aliás, é sempre um capítulo à parte. Cruzar o “mar mais perigoso do mundo” requer preparo, disposição e um pouco de sorte para se manter em pé enquanto o navio balança sem parar. No nosso caso, o primeiro dia foi mais tranquilo, mas no segundo foram pelo menos 12 horas enfrentando rajadas de vento de até 48 nós, ou quase 90 km/h, que atingiam principalmente a lateral esquerda do Ary Rongel, na direção que os marinheiros chamam de través de bombordo. O vento 5 nós mais forte do que o esperado pela meteorologia ajudou a gerar ondas de até 6 metros de altura e fez o navio se inclinar 25º para cada lado. Mesmo assim, o Ary Rongel navegou a uma velocidade média de 13 nós, superior à normal. Tudo para ficar o menor tempo possível exposto ao que o comandante do navio, Antonio Braz de Souza, chamou de “uma rosnada” do Drake.

A sensação é de se estar numa mistura de batedeira misturada com montanha-russa, onde para se movimentar é preciso se apoiar constantemente nas paredes ou nos corrimãos do navio e onde tudo o que não estiver bem amarrado pode voar a qualquer momento – no meu camarote, não escaparam a cadeira e objetos deixados em cima da mesa. Um dos grandes desafios é conseguir tomar banho – é preciso se segurar com força na barra de apoio, enquanto uma espécie de onda escorrega de um lado para outro do banheiro. Mesmo com tudo chacoalhando, consegui aguentar os dois dias de Drake sem passar mal, com ajuda de maçãs e um remédio à base de cinarizina, e acordei com uma sensação de vitória indescritível no dia seguinte. A única coisa que não consegui foi assistir a 'Rambo 3', o filme escolhido como passatempo pelos oficiais na Praça D'Armas. Drake e Rambo juntos me pareceram uma experiência forte demais.

A última parte da viagem foram os dois dias de navegação pelos belos Canais Chilenos, onde o mar é muito mais protegido e o trajeto inclui duas rápidas escapadas para o Oceano Pacífico. Com o mar já calmo, devolvemos todas as roupas antárticas emprestadas da Marinha – as botas, os óculos, as luvas, a jardineira, a jaqueta e o mustang – macacão laranja impermeável usado nos botes e que prolonga a vida em caso de queda no mar. Confesso que senti uma pontinha de tristeza ao me separar das roupas que me abrigaram no intenso frio antártico. Uma sensação de que a viagem estava acabando. Assim como me apertou o peito me despedir no domingo das pessoas que ficaram na Estação Comandante Ferraz. Foram poucos dias, mas muito intensos.

Também foi tocante ver a emoção de um comandante prestes a deixar seu navio. Em 34 anos de carreira na Marinha, Antonio Braz já comandou embarcações como capitão tenente, capitão de corveta, capitão de fragata e agora como capitão de mar e guerra. No domingo, baterá a invejável marca de 1.600 dias no mar. Após quatro operações antárticas, entregará o comando do Ary Rongel ao também capitão de mar e guerra Paulo Max Villas na primeira quinzena de maio. Esta 37ª Operantar é sua despedida da Antártida

Dentro de cinco a sete anos, quem também vai se despedir do continente gelado é o próprio navio Ary Rongel, nossa casa nessas últimas duas semanas. Na sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019, a Marinha publicou no Diário Oficial da União um aviso de chamamento público para empresas interessadas em construir um novo navio antártico para substitui-lo. Ainda não se sabe o que o futuro reservará ao Gigante Vermelho depois disso, mas certamente não serão mais missões por esses mares.

* Na Antártida, cada bote da Marinha só pode sair com dois mergulhadores. E, antes de deixar o navio, é preciso avisar a sala de comando pelo rádio sobre quantas pessoas estão a bordo. Se são oito, por exemplo, o mergulhador pede permissão para sair com “seis almas e dois mergulhadores”. Uma estratégia para não confundir quem é passageiro e quem é mergulhador. A fala, porém, costuma arrancar risos e a mesma pergunta: “Ué, mas mergulhador não tem alma?”.

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